Poema em Ipanema, numa Quarta-Feira sem Esperança
Rubem Braga
Podias ir Ă proa de barcos antigos
Cortando ventos salgados
Com espumas fervendo em teus seios de virgem
Figure étroite en proue de bùtiment
Galga esgalga
Lili
Ăs menina nos bicos dos seios e
na pevide do sexo â
estranhamente pequenos os trĂȘs,
como botÔes de irrevelada flor.
Ăs menina na voz tĂmida, saccadĂ©e,
Nervosa e doce.
Ăs mulher na arquitetura de teus braços
longos como asas de ave do mar
na ousada arcadura de teus ombros
na firmeza de tuas coxas e na longura
nobre de tuas pernas.
De todas as primas feias da roça que eu jå tive
és uma insensatamente linda.
Gostaria de ver-te em um vestido de chita â
entretanto desenhado por Chanel â
Ășmido nos seios e nos lombos
porque terias saĂdo de um banho de rio
descalça, com um pouco de lama e areia
entre os artelhos
Teus olhos luzindo na sombra do bambual
eu te daria pitangas de sangue
jabuticabas de um negrume azul com
a polpa de um branco azul â
cor elusiva â como Ă©s â
e cajus, sapotis.
Te ensinaria nomes de passarinhos de nossa terra mas
não prestarias atenção e eu
te amaria de um amor tĂŁo complicado apaixonado
brasileiro e chato
que sumirias de mim em uma esquina de Saint-Germain
deixando-me apenas de lembrança a Ășlcera de teu
[estĂŽmago
doendo e ardendo para sempre em meu desatinado
[coração,
Lili.
Rio, 1963
In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. PosfĂĄcio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
Cortando ventos salgados
Com espumas fervendo em teus seios de virgem
Figure étroite en proue de bùtiment
Galga esgalga
Lili
Ăs menina nos bicos dos seios e
na pevide do sexo â
estranhamente pequenos os trĂȘs,
como botÔes de irrevelada flor.
Ăs menina na voz tĂmida, saccadĂ©e,
Nervosa e doce.
Ăs mulher na arquitetura de teus braços
longos como asas de ave do mar
na ousada arcadura de teus ombros
na firmeza de tuas coxas e na longura
nobre de tuas pernas.
De todas as primas feias da roça que eu jå tive
és uma insensatamente linda.
Gostaria de ver-te em um vestido de chita â
entretanto desenhado por Chanel â
Ășmido nos seios e nos lombos
porque terias saĂdo de um banho de rio
descalça, com um pouco de lama e areia
entre os artelhos
Teus olhos luzindo na sombra do bambual
eu te daria pitangas de sangue
jabuticabas de um negrume azul com
a polpa de um branco azul â
cor elusiva â como Ă©s â
e cajus, sapotis.
Te ensinaria nomes de passarinhos de nossa terra mas
não prestarias atenção e eu
te amaria de um amor tĂŁo complicado apaixonado
brasileiro e chato
que sumirias de mim em uma esquina de Saint-Germain
deixando-me apenas de lembrança a Ășlcera de teu
[estĂŽmago
doendo e ardendo para sempre em meu desatinado
[coração,
Lili.
Rio, 1963
In: BRAGA, Rubem. Livro de versos. Il. Jaguar e Scliar. Pref. Affonso Romano de Sant'Anna. PosfĂĄcio Lygia Marina Moraes. Rio de Janeiro: Record, 1993
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