I
Por que os imensos aviões
não passeiam com seus filhos?
Qual é o pássaro amarelo
que enche o ninho de limões?
Por que não ensinam a tirar
mel do sol aos helicópteros?
Onde deixou a lua cheia
seu noturno saco de farinha?
Tu entre os que pareciam estranhos
Tu, clara e escura, Matilde morena e dourada,
parecida com trigo e com vinho e com pão da pátria,
ali nos caminhos abertos por reinos depois devorados,
fazias cantar teus quadros e parecias, antiga e terrestre araucana,
com a ânfora pura que ardeu com o vinho naquela comarca
e te conhecia o azeite insigne das caçarolas
e as papoulas crescendo no pólen de antigos arados
te reconheciam e balançavam
bailando em teus pés rumorosos.
Porque são os mistérios do povo ser um e ser todos
e igual é tua mãe campestre que jaz nas gredas de Ñuble
à rajada etrusca que move as tranças tirrenas
e tu és um cântaro negro de Quinchamalí ou de Pompeia
erigido por mãos profundas que não têm nome:
por isso ao beijar-te, amor meu, e apertar com meus lábios tua boca,
em tua boca me deste a sombra e a música do barro terrestre.
XL
A quem o condor andrajoso
dá conta de seu encargo?
Como se chama a tristeza
numa ovelha solitária?
E que ocorre no pombal
se aprendem canto as pombas?
Se as moscas fabricam mel
ofenderão as abelhas?
IV
Quantas igrejas tem o céu?
Por que não ataca o tubarão
as impávidas sereias?
Conversa a fumaça com as nuvens?
É verdade que a esperança
se deve regar com orvalho?
Datitla
Amor, bem-amada, na luz solitária e na areia do inverno
recordas Datitla? Os pinheiros escuros, a chuva uruguaia que molha o grasnido
dos bem-te-vis, a súbita luz da natureza
que crava com raios a noite e a enche de pálpebras rotas
e de foguetadas e supersticiosos relâmpagos verdes
até que cegos pelo resplendor de seus livros elétricos
dávamos voltas em sonhos que o céu perfurava e cobria.
Os Mántaras foram presença e ausência, arvoredo invisível
de frutos visíveis, a casa copiosa da solidão,
os códigos de amigo e amiga punham sua marca no muro
com o natural generoso que envolve na flor a ambrosia
ou como no ar sustém seu voo noturno
a estrela brunida e brilhante afirmada em sua própria pureza
e ali o aroma espargido nas baixas ribeiras
tu e eu recolhemos mentrastos, oréganos, menzelia, espadanas:
o herbário interregno que só o amor recupera nas costas do mundo.
O Astronauto
I.
SE ME ENCONTREI nestas regiões reconcentradas e calcáreas
foi por equívocos de pai e mãe em meu planeta:
me aborreceram tanto uns como outros inclementes;
deixei plantados os puros, desencadeei certa loucura
e continuei presenteando os hostis.
II.
Cheguei porque me convidaram a uma estrela recém-aberta;
já Leonov me havia dito que cruzaríamos cores
de enxofre imenso e amaranto, fogo furioso de turquesa,
zonas insólitas de prata como espelhos efervescentes
e quando então fiquei só sobre a calvície do céu
nesta zona parecida com a extensão de Antofagasta,
com a solidão de Astacama, com as alturas da Mongólia
me despi para viver no calor do mundo virgem,
do mundo velho de uma estrela que agonizava ou que nascia.
III.
Não me fazia falta a roupa mas a linguagem, recolhi
uma suavíssima, metálica flor, uma rosa cujo orvalho
caiu perfurando o solo como uma torrente de mercúrio
e por esse álveo escutei de gruta em gruta o orvalho
descer as escadarias de cristal adormecido e gasto.
Gasto por quem? Pelos sonhos? Pela vida com sobrenome?
Por animais ou pessoas, elefantes ou analfabetos?
E de repente me surpreendi buscando outra vez com tristeza
a identidade, a história, o conto dos que deixei na terra.
IV.
Talvez aqui nestas rugas, sob estas crostas estépicas,
sob o vulcânico estandarte das cinzas celestiais
existiu ou existe a inveja que mordeu-me pelos caminhos
terrestres, como um caimão de quarenta caudas apodrecidas?
Aqui também prosperará o canibal parasitário,
o cínico, o frívolo, o piadista sustentado por seus cosméticos?
Aqui o Chamudar trocará de casaca pegajosa
como o Retamudez Gordillo da intervenção “oportuna”?
V.
Mas encontrei só os ossos do silêncio carbonizado;
buscando desci os estratos de mortífera astrologia:
iguanas mortas talvez eram os vestígios do pó,
idades que se trituraram e ficava só o fulgor
e era toda aquela estrela como uma antiga borboleta
de ancestrais asas que apenas tocadas se desvaneciam
aparecendo então um buraco de metal,
uma cova em cujo passado brilhavam as pedras do frio.
VI.
Perdi-me pelas galerias do sol talvez derrubado
ou na lua sem coração com seus espelhos carcomidos
e como na segurança de meu país inseguro
aqui o medo me dirigia os pés no descobrimento.
Mas não achei como alabar o alabastro que corria
derretido, pelas gargantas de pedra-pome adstringente,
e como, com quem falar do tesouro negro que fugia
com o rio do azeviche pelas ruas cicatrizadas?
VII.
Pouco a pouco o silêncio me fez um Robinson assustadiço
sem roupa mas sem fome, sem sede porque pelos poros
a luz mineral nutria e umedecia, mas pouco
a pouco o planeta se despencava de minha língua,
e errei sem idioma, escuro pelas areias do silêncio.
Oh solidão espacial do silêncio! Se desfaz
o ruído do coração e quando sobressaltado
ouvi um silêncio debaixo de outro silêncio maior:
fui emagrecendo até ser somente silêncio naquele bairro do céu
onde caí e fui enterrado por um álveo silencioso
por um grande rio de esmeraldas que não sabiam cantar.
Solidão
Viajante, estou só na Rua da Huchette. É manhã.
Nem um só vestígio de ontem ficou colado nos muros.
Prepara-se o depois de amanhã na noite ruidosa
que passa enredada na névoa que sobe das cabeleiras.
Há um vago silêncio apoiado por uma guitarra tardia.
E compreendo que nesta minúscula ruela tortuosa
alguém toca a rebater o metal invisível
de um agudo sino que estende na noite seu círculo
e no mapa redondo baixando a vista descubro
caminhos de formiga que vêm sulcando o outono e os mares
e vão deslizando figuras que caem do mapa da Austrália,
que descem da Suécia nos trens da madrugada deserta,
pequenos caminhos de inseto que perfuram o ar e a terra
e que se desprenderam da Espanha, da Escócia, do Golfo do México,
tradeando buracos que tarde ou cedo penetram a terra
e aqui à meia-noite destapa a noite seu frio orifício
e assoma a fronte de algum colombiano que amarra no cinto
tua velha pistola e a louca guitarra dos guerrilheiros.
Talvez Aragón junto a Elsa estendeu o arquipélago
de seus sonhos povoados por amplas sereias que penteiam a música
e sobre a Rua de Varennes uma estrela, a única do céu vazio,
abre e fecha suas pálpebras de diamante e platina,
e mais longe o traje fragrante da França se guarda em uma arca
porque dormem as vinhas e o vinho nos barris prepara
a saída do sol, professor de francês no céu.
Para Menilmontant, nos meus tempos, para os acordeões
do ano de milnovecentosevinte acudíamos: era sério o encontro
com a malandragem de guimba na boca e brutal aparência.
Eu dancei com Friné Lavatier, com Marise e com quem?
Ah com quem? Fogem-me os nomes do baile
mas continuo dançando a “java” no impuro subúrbio
e viver era então tão fácil como o pão que se come nos trens,
como andar no campo assobiando, festejado pela primavera.
Amizade
Amigos, oh todos, Albertos e Olgas de toda a terra!
Não escrevem os livros de amor a amizade do amigo ao amor,
não escrevem o dom que suscitam e o pão que outorgaram ao amante errante,
esqueça o sortilégio olhando os olhos de puma de sua
bem-amada
que mãos amigas lavraram madeiras, elevaram estacas
para que enlaçassem em paz sua alegria os dois errabundos.
Injusto ou tardio tu e eu inauguramos Matilde no livro do amor
o capítulo aberto que indica ao amor o que deve
e aqui se estabelece com mel a amizade verdadeira:
a dos que acolhem na felicidade sem empalidecer de nevralgia
e elevam a taça de ouro em honra da honra e do amor.
Sonata
Oh clara de lua, oh estátua pequena e escura,
oh sal, oh colher que tira o aroma do mundo e o entorna em minhas veias,
oh cântara negra que canta à luz do orvalho,
oh pedra do rio enterrado de onde voava e volvia a noite,
oh pâmpano de água, peral de cintura fragrante,
oh tesoureira do bosque, oh pomba da primavera,
oh mensagem que deixa o sereno nos dedos da madressilva,
oh metálica noite de Agosto com argolas de prata no céu,
oh meu amor, pareces com o trem que atravessa o outono em Temuco,
oh minha amada perdida em minhas mãos como um anel na neve,
oh entendida nas cordas do vento cor de guitarra
que desce das cordilheiras, junto a Nahuelbuta chorando,
oh função matinal da abelha buscando um segredo,
oh edifício que o âmbar e a água construíram para que habitasse
eu exigente inquilino que esquece a chave e adormece à porta,
oh corneta levada na garupa celestial do tritão submarino,
oh guitarra de greda soando na paz poeirenta do Chile,
oh frigideira de azeite e cebola, vaporosa, cheirosa, saborosa,
oh expulsada da geometria por arte de nuvem e quadril,
oh máquina de água, oh relógio de passarada,
oh minha amorosa, minha negra, minha branca, minha pena, minha vassoura,
oh minha espada, meu pão e meu mel, minha canção, meu silêncio, minha vida.
La Chascona
A pedra e os pregos, a tábua e a telha se uniram: eis aqui levantada
a casa enredada com água que corre escrevendo em seu idioma,
as sarças guardavam o sítio com sua sanguinária ramagem
até que a escada e seus muros souberam teu nome
e a flor encrespada, a vide e seu alado pingente,
as folhas de figueira que como estandartes de raças remotas
erguiam suas asas escuras sobre tua cabeça,
o muro de azul vitorioso, o ônix abstrato do solo,
teus olhos, meus olhos, estão derramados em rocha e madeira
por todas as partes, os dias febris, a paz que constrói
e continua ordenada a casa com tua transparência.
Minha casa, tua casa, teu sonho em meus olhos,
teu sangue continuando o caminho do corpo que dorme
como uma pomba fechada em suas asas imóvel persegue
seu voo
e o tempo recolhe em sua taça teu sonho e o meu
na casa que apenas nasceu das mãos despertas.
A noite encontrada por fim na nave que construímos,
a paz de madeira cheirosa que continua com pássaros,
que segue o sussurro do vento perdido nas folhas
e das raízes que comem a paz suculenta do húmus
enquanto sobrevém sobre mim adormecida a lua da água
como uma pomba do bosque do Sul que dirige o domínio
do céu, do ar, do vento sombrio que te pertence,
adormecida, dormindo na casa que fizeram tuas mãos,
delgada no sonho, no germe do húmus noturno
e multiplicada na sombra como o crescimento do trigo.
Dourada, a terra te deu a armadura do trigo,
a cor que os fornos cozeram com barro e delícia,
a pele que não é branca nem é negra nem vermelha nem verde,
que tem a cor da areia, do pão, da chuva,
do sol, da pura madeira, do vento,
tua carne cor de sino, cor de alimento fragrante,
tua carne que forma a nave e encerra a onda!
De tantas delgadas estrelas que minha alma recolhe na noite
recebo o orvalho que o dia converte em cinza
e bebo a taça de estrelas defuntas chorando as lágrimas
de todos os homens, dos prisioneiros, dos carcereiros,
e todas as mãos me buscam mostrando uma chaga,
mostrando a dor, o suplício ou a brusca esperança,
e assim sem que o céu e a terra me deixem tranquilo,
assim consumido por outras dores que mudam de rosto,
recebo no sol e no dia a estátua de tua claridade
e na sombra, na lua, no sonho, o racimo do reino,
o contato que induz meu sangue a cantar na morte.
O mel, bem-amada, a ilustre doçura da viagem completa
e ainda, entre longos caminhos, fundamos em Valparaíso uma torre,
por mais que em teus pés encontrasse minhas raízes perdidas
tu e eu mantivemos aberta a porta do mar insepulto
e assim destinamos à La Sebastiana o dever de chamar os navios
e ver sob a fumaça do porto a rosa incitante,
o caminho cortado na água pelo homem e suas mercadorias.
Mas azul e rosado, roído e amargo entreaberto entre suas teias de aranha,
eis aqui, sustentando-se em fios, em unhas, em trepadeiras,
eis aqui vitorioso, andrajoso, cor de sino e mel,
eis aqui vermelhão e amarelo, purpúreo, prateado, violeta,
sombrio e alegre, secreto e aberto como uma melancia
o porto e a porta do Chile, o manto radiante de Valparaíso,
o sonoro estupor da chuva nos cerros carregados de
padecimentos
o sol resvalando no escuro olhar, nos olhos mais belos do mundo.
Eu te convidei para a alegria de um porto agarrado à fúria do alto marulho,
metido no frio do último oceano, vivendo em perigo,
formosa é a nave sombria, a luz vesperal dos meses antárticos,
a nave de teto amaranto, o punhado de velas ou casas ou vidas
que aqui se vestiram com trajes de honra e bandeiras
e se sustiveram caindo no terremoto que abria e fechava o inferno,
tomando ao fim pela mão os homens, os muros, as coisas,
unidos e desvencilhados no estertor planetário.
Cada homem contou com suas mãos os bens funestos, o rio
de suas extensões, sua espada, sua rédea, seu gado,
e disse à esposa “Defende teu páramo ardente ou teu campo
de neve”
ou “Cuida da vaca, dos velhos teares, da serra ou do ouro”.
Muito bem, bem-amada, é a lei dos séculos que foram atando-se
dentro do homem, em um fio que atava também suas cabeças:
o príncipe jogava as redes com o sacerdote enlutado,
e enquanto os deuses calavam, caíam no cofre moedas
que ali acumularam a ira e o sangue do homem nu.
Por isso, erigida a base e abençoada por corvos escuros
subiu o interesse e dispôs na peanha seu pé mercenário,
depois à Estátua impuseram medalhas e música,
jornais, rádios e televisores cantaram a loa do Santo Dinheiro,
e assim até o provável, até quem não pode ser homem,
o manumitido, o nu e faminto, o pastor lacerado,
o empregado noturno que rói em trevas seu pão disputado aos ratos,
acreditaram que aquele era deus, defenderam a Arca suprema
e se sepultaram no humilhado indivíduo, cansados de
orgulho emprestado.