Escritas

Lista de Poemas

Meio-Dia - LI

Teu riso pertence a uma árvore entreaberta
por um raio, por um relâmpago prateado
que do céu tomba quebrando-se na copa,
partindo em duas a árvore com uma só espada.


Nas terras altas da folhagem com neve apenas
nasce um riso como o teu, bem-amante,
é o riso do ar desatado na altura,
costumes de araucária, bem-amada.


Cordilheirana minha, chillaneja2 evidente,
corta com as facas de teu riso a sombra,
a noite, a manhã, o mel do meio-dia,


e que saltem ao céu as aves da folhagem
quando como uma luz esbanjadora
rompe teu riso a árvore da vida.








2 Chillaneja – espécie de pequena raposa. (N.T.)
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Noite - XCVII

Há que voar neste tempo, aonde?
Sem asas, sem avião, voar sem dúvida:
já os passos passaram sem remédio,
não alçaram os pés do passageiro.


Há que voar a cada instante como
as águias, as moscas e os dias,
há que vencer os olhos de Saturno
e estabelecer ali novos sinos.


Já não bastam sapatos nem caminhos,
já não servem a terra aos errantes,
já cruzaram a noite as raízes,


e tu aparecerás em outra estrela
determinadamente transitória
por fim em papoula convertida.
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Morte E Perseguição Dos Pardais

Eu estava na China
naqueles dias,
quando Mao Tsé-Tung, sem entusiasmo,
decretou o imediato
falecimento de todos os pardais.


Com a mesma admirável
disciplina
com que se construiu a grande muralha
a multichina se multiplicou
e cada chinês procurou o inimigo.


Os meninos, os soldados, os astrônomos,
as meninas, as soldadas, as astrônomas,
os aviadores, os coveiros,
os cozinheiros chineses, os poetas,
os inventores da pólvora, os
camponeses do arroz sagrado,
os inventores de brinquedos, os
políticos de sorriso chinês,
todos se dirigiram
ao pardal
e este caiu com milionária morte
até que o último, um pardal supremo,
foi fuzilado por Mao Tsé-Tung.
Com admirável disciplina então
cada chinês partiu com um pardal,
com um triste, pequeno cadáver de pardal
no bolso,
cada um
de setecentos e trinta
milhões de
cidadãos chineses
com um pardal em
cada um
de setecentos e trinta
milhões de bolsos,
todos marcharam entoando antigos
hinos de glória e guerra
para enterrar lá longe,
nas montanhas da Lua Verde
um por um os pardais mortos.


Durante dezessete anos seguidos
cada um em pequeno mausoléu,
ossário individual, tumba florida
ou rápido cemitério coletivo
um por um sucessivamente
ficaram sepultados
completamente os pardais chineses.


Mas aconteceu algo estranho.
Quando se foram os enterradores
cantaram os pequenos enterrados:
um trovão de pardais
passou trovejando pela terra chinesa:
a voz de uma trombeta planetária.


E aquela voz despertou os mortais,
os antigos mortos,
os séculos de chineses enterrados.


Voltaram às suas vidas
aos seus arados, à sua economia.
Não faço censuras. Deixem-me tranquilo.


Mas assim fica bem claro
porque há mais chineses e menos pardais
a cada dia no mundo.
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Ii - As Invenções

Vês este pequeno objeto trissilábico?
É um cilindro subalterno da felicidade
e manejado, agora, por organismos coerentes
por controle remoto, estou, estais seguros
de uma eficácia tão resplandecente
que amadurecem as uvas em sua pressão ignota
e o trigo em pleno campo se converte em pão,
as águas dão à luz cavalos vermelhões
que galopam o ar sem prévio aviso,
grandes indústrias se movem como centopeias
deixando rodas e relógios nos lugares desabitados:
Senhores, adquiri meu produto terciário
sem mescla de algodão nem de substâncias lácteas:
concedo-vos um botão para mudar o mundo:
adquiri o trifásico antes que me arrependa!
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Ii - Belojannis o Herói

Assim, entre as colunas,
Belojannis:
dórica é a auréola
da luz em suas faces.
Não são os automóveis
iluminando o crime.
É um planeta,
é uma estrela vermelha,
é o ígneo desterro
da antiga e a nova
claridade da terra...
Cai,
dispararam nele
lá do Pentágono
balas que atravessaram
o mar para cravar-se
em seu peito claríssimo,
balas que recolheram
espinhos inumanos
para entrar na gruta
verde e branca da Grécia,
lacerando as paredes,
salpicando
de sangue
as folhas do acanto.
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Passeando Com Laforgue

Direi desta maneira, eu, nós,
superficiais, mal-vestidos de profundidades,
por que nunca quisemos ir de braço dado
com este terno Julio, morto sem companhia?
Com um puríssimo superficial
que talvez pudesse ensinar-nos a vida à sua maneira,
a luz à sua maneira,
sem a aspereza hostil do derrotado?


Por que não acompanhamos seu violino
que desfolhou o outono de papel de seu tempo
para uso exclusivo de qualquer um,
de todo o mundo, como deve ser?


Adolescentes éramos, tontos enamorados
do áspero tenor de Sils-María,
esse sim nos agradava,
a irredutível solidão a contracorrente
o extremo dos pássaros águias
que só servem para as moedas,
imperadores, pássaros destinados
ao embalsamento e aos brasões.


Adolescentes de pensões sórdidas,
nutridos com incessantes espaguetes,
migalhas de pão nos bolsos rasgados,
migalhas de Nietzsche nas pobres cabeças:
sem nós se resolvia tudo,
as ruas, as casas e o amor:
fingíamos amar a solidão
como os presidiários sua pena.


Hoje já tarde demais voltei a ver-te,
Jules Laforgue,
gentil amigo, cavalheiro triste,
divertindo-se com tudo quanto eras,
só no parque da Imperatriz
com tua lua portátil
– a condecoração que te impunhas –
tão correto com o entardecer,
tão solidário com a melancolia,
tão generoso com o vasto mundo
que mal conseguiste digerir.


Porque com teu sorriso agonizante
chegaste tarde, suave jovem bem vestido,
para consolar-nos de nossas pobres vidas
quando já te casavas com a morte.


Ai, quanto se perdeu com o desdém
em nossa juventude menosprezante
que só amou a tempestade, a fúria,
quando o frufru que nos descobriste
ou o solo de astro que nos ensinaste
foram uma verdade que não aprendemos:
a beleza do mundo que perdias
para que nós a herdássemos:
a nobre cifra que não deciframos:
tua juventude mortal que queria nos ensinar
batendo na janela com uma folha amarela:
tua lição de adorável professor,
de companheiro puro
tão reticente quanto agonizante.
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Iii - Quando do Chile

Oh Chile, longa pétala
de mar e vinho e neve,
ai quando
ai quando e quando
ai quando
me encontrarei contigo,
enrolarás tua cinta
de espuma branca e negra em minha cintura, desencadearei minha poesia
sobre teu território.
Há homens
metade peixe, metade vento,
há outros homens feitos de água.
Eu estou feito de terra.
Vou pelo mundo
cada vez mais alegre:
cada cidade me dá uma nova vida.
O mundo está nascendo.
Mas se chove em Lota
sobre mim tomba a chuva,
se em Lonquimay a neve
resvala das folhas
chega a neve onde estou.
Cresce em mim o trigo escuro de Cautín.
Eu tenho uma araucária em Villarrica,
tenho areia no Norte Grande,
tenho uma rosa ruiva na província,
e o vento que derruba
a última onda de Valparaiso
bate-me no peito
com um ruído quebrado
como se ali tivesse
meu coração uma janela rota.

O mês de outubro chegou faz
tão pouco tempo do passado outubro
que quando este chegou foi como se
me estivesse olhando o tempo imóvel.
Aqui é outono. Cruzo
a estepe siberiana.
Dia após dia tudo é amarelo,
a árvore e a usina,
a terra e o que nela o homem novo cria:
há ouro e chama vermelha,
amanhã imensidade, neve, pureza.

Em meu país a primavera
vem de norte a sul com sua fragrância.
É como uma moça
que pelas pedras negras de Coquimbo,
pela margem solene da espuma
voa com pés nus
até os arquipélagos feridos.
Não só território, primavera,
plenificando-me, ofereces.
Não sou um homem sozinho.
Nasci no sul. Da fronteira
trouxe as solidões e o galope
do último caudilho.
Mas o Partido me desceu do cavalo
e me tornou homem, e andei
os areais e as cordilheiras
amando e descobrindo.

Povo meu, verdade que na primavera
soa meu nome em teus ouvidos
e me reconheces
como se fosse um rio
que passa por tua porta?

Sou um rio. Se escutas
pausadamente sob os saleiros
de Antofagasta, ou melhor
ao sul de Osorno
ou rumo à cordilheira, em Melipilla,
ou em Temuco, na noite
de astros molhados e loureiro sonoro,
pões sobre a terra teus ouvidos,
escutarás que corro
submergido, cantando.

Outubro, oh primavera,
devolve-me a meu povo.
Que farei sem ver mil homens,
mil moças,
que farei sem conduzir sobre meus ombros
uma parte da esperança?
Que farei sem caminhar com a bandeira
que de mão em mão na fila
de nossa longa luta
chegou às mãos minhas?

Ai Pátria, Pátria,
ai Pátria, quando
ai quando e quando
quando
me encontrarei contigo?

Longe de ti
metade de terra tua e homem teu
continua sendo,
e outra vez hoje a primavera passa.
Mas eu com tuas flores me completei,
com tua vitória vou para frente
e em ti persistem vivendo minhas raízes.

Ai quando
encontrarei tua primavera dura,
e entre todos os teus filhos
vagarei pelos teus campos e tuas ruas
com meus sapatos velhos.
Ai quando
irei com Elias Lafferte
por todo o pampa dourado.
Ai quando te apertarei a boca,
chilena que me esperas,
com meus lábios errantes?
Ai quando
poderei entrar na sala do Partido
para sentar-me com Pedro Fogueiro,
com o que não conheço e no entanto
é mais irmão meu que meu irmão.
Ai quando
me tirará do sonho um trovão verde
de teu manto marinho.
Ai quando, Pátria, nas eleições
irei de casa em casa recolhendo
a liberdade temerosa
para que grite no meio da rua.
Ai quando, Pátria,
te casarás comigo
com olhos verde-mar e vestido de neve
e teremos milhões de filhos novos
que entregarão a terra aos famintos.

Ai Pátria, sem farrapos,
ai primavera minha,
ai quando
ai quando e quando
despertarei em teus braços
empapado de mar e de orvalho.
Ai quando eu estiver perto
de ti, te agarrarei pela cintura,
ninguém poderá tocar-te,
eu poderei defender-te
cantando,
quando
for contigo, quando
vieres comigo, quando
ai quando.
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XI. Triunfo

Valdívia! A pólvora varreu as insígnias da Espanha!
Callao! As proas do Chile do Sul roubaram os ovos da águia!
E foram abertos os mares à viagem de todos os homens!
Abriu-se como caixa de música o globo oceânico,
as ilhas da Polinésia Sagrada e Secreta surgiram cantando e bailando
e um búzio institui na costa selvagem o mel, a verdade e o aroma das profecias.
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X. Proclama

Chilenos do mar! Ao assalto! Sou Cochrane. Eu venho de longe!
Já aprendestes as artes do fogo e o luxo da simetria!
O sangue de Arauco é honra de minhas tripulações!
Avante: A terra do Chile ganha-se ou perde-se na água!
A mim, marinheiros! Eu não garanto a vida de ninguém,
mas a vitória de todos! A mim, marinheiros do Chile!
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Vii - Os Outros Homens

Em troca eu, pecador pescador,
ex-vanguardista já passado de moda,
daqueles anos mortos e remotos
hoje estou à entrada do milênio,
anarcopitalista furibundo,
disposto com as duas bochechas a morder
a maçã do mundo.
Idade mais florescente nem Florença
conheceu, mais florida que Florida,
mais Paraíso que Valparaíso.
Respiro a plenos pulmões
no jardim bancário deste século
que é por fim uma grande conta corrente
em que por sorte sou credor.
Graças à inversão e à subversão
faremos mais higiênica esta idade,
nenhuma guerra colonial terá esse nome
tão desacreditado e repetido,
a democracia pulverizadora
tomará a cargo o novo dicionário:
é belo este 2000 igual ao 1000:
os três zeros iguais nos resguardam
de toda insurreição desnecessária.
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