Lista de Poemas
Sim, Camarada
e é hora de batalha, cada dia
é sucessão de flor e sangue,
nosso tempo nos entregou amarrados
a regar os jasmins
ou a dessangrar-nos numa rua escura,
a virtude ou a dor se repartiram
em zonas frias, em mordentes brasas,
e não havia outra coisa que eleger,
os caminhos do céu,
antes tão transitados pelos santos,
estão hoje povoados por especialistas.
Já desapareceram os cavalos.
Os heróis vão vestidos de batráquios,
os espelhos vivem vazios
porque a festa é sempre em outra parte,
onde já não estamos convidados
e há briga nas portas.
Por isso este é o penúltimo chamado,
o décimo sincero toque
do meu sino,
ao jardim, camarada, à açucena,
à macieira, ao cravo intransigente,
à fragrância da flor de laranjeira,
e logo aos deveres da guerra.
Delgada é nossa pátria
e em seu despido fio de faca
arde nossa bandeira delicada.
(H.V.)
recomendado, conhecido apenas,
passageiro do barco, o mesmo barco
em que viajei fatigado de rostos.
Quis não o ver, foi impossível.
Impus-me outro dever contra minha vida:
ser amistoso invés de indiferente
por causa de sua rápida mulher,
alta e bela, com frutos e com olhos.
Agora vejo minha equivocação
no seu triste relato de viajante.
Fui provincianamente generoso.
Não cresceu sua mesquinha condição
por minha mão de amigo, naquele barco,
sua desconfiança em si seguiu mais forte
como se alguém pudesse convencer
aos que não acreditaram em si mesmos
que não se desprezem em suas guerras
contra a própria sombra. Assim nasceram.
Todos
Eu talvez eu não serei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
— que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?
Não cresci, não cresci, segui morrendo?
Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.
Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos,
e onde eu não estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.
Por que buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?
Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo o mundo.
Não Um Caso Doentio
nem a ausência de grandeza, não,
nada pode matar o melhor de nós,
a bondade, sim senhor, que padecemos:
— bela é a flor do homem, sua conduta
e cada porta é a bela verdade
e não a sussurrante aleivosia.
Sempre ganhei, por ter sido melhor,
melhor que eu, melhor do que fui,
a condecoração mais taciturna:
— recuperar aquela pétala perdida
de minha melancolia hereditária
— buscar mais uma vez a luz que canta
dentro de mim, a luz inapelável.
Preguiça
ainda que nunca fui Deus.
Nem de Segunda a Sábado
porque sou criatura preguiçosa,
contentei-me com olhar as ruas
onde trabalham chorando
pedreiros, magistrados, homens
com ferramentas ou com ministérios.
Fechei todos meus olhos de uma vez
para não cumprir com meus deveres,
essa é a coisa
sussurrava-me a mim mesmo
com todas minhas gargantas,
e com todas minhas mãos
acariciei sonhando
as pernas femininas que passavam voando.
Depois bebi vinho tinto do Chile
durante vinte dias e dez noites.
Bebi esse vinho cor de amaranto
que nos palpita e que desaparece
em tua garganta como um peixe fluvial.
Devo agregar a este testemunho
que mais tarde dormi, dormi, dormi,
sem renegar de minha má conduta
e sem remordimento,
dormi tão bem como se chovesse
interminavelmente
sobre todas as ilhas
deste mundo
furando com água celeste
a caixa dos sonhos.
Filosofia
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
— alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos —
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
— a geografia e a ambrosia —
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.
O Anjo Dos Pampas
oh sol azul sobre todo o espaço,
pampa de solidão, estrela reta
estendida em desertas dimensões.
Erva argentina, terra interminável,
olor de céu cereal, caminho
feito de todos os caminhos, larga
primavera sem pálpebras, planura.
Eu fui de cabo a cabo, trepidando
na velocidade, transpondo o dia
e a noite nua do planeta.
E ali perdido na distância, quando
o avestruz errante ou a pomba
da terra selvagem apareceram,
quando cansaço e solidão encheram
a taça transparente do pampa,
quando pude sentir-me desamparado e último, quando fui só ausência, sonho, suor e pó,
rumo à liberdade com os olhos abertos,
com outro rosto,
amarradas as mãos ao volante,
sem sonho e sorrindo através da noite,
ali estava de novo, ali
estava defendendo minha fadiga:
não sei como se chama, talvez López,
talvez Ibieta, o anjo
do Comitê Central.
Os Deuses do Rio
ontem em tuas ribeiras,
Romênia, te coroem,
te coroem e cantem.
Águas leve teu rio fecundando
as vidas e a areia,
povoe o amor tuas casas e teus bosques,
com cachos se cubram
teus braços e tuas faces.
Não só ao homem
livre
de tuas novas cidades e campinas
celebro.
Não só aos trabalhos criadores
de escolas e de usinas
eu dedico meu canto.
Não só aos canais
abertos na rocha e na terra
para que andem repartindo espigas
as águas do Danúbio
eu minha lira consagro,
senão a ti, Romênia,
a teu nobre sabor de terra e vinho,
a teu pão generoso
repartido em teu povo,
o aroma de pinheiros e mimosas
que o vento te faz dádiva.
Eu canto
na pele de tuas uvas,
no brilho dos olhos
que dali se juntam aos meus
como dois raios negros,
tuas danças antigas
que hoje brilham na luz que conquistaste
como flores ou fogo,
na amizade de todos,
na mão serena do Partido,
na alegria
da paz romena,
tua lembrança inumerável
que canta como um rio.
Romênia,
hoje lá das areias de minha pátria
eu te escrevo esta carta.
Recebe-a, Romênia.
Leva borrifos do Pacífico,
leva vozes e beijos,
leva neve de altíssimas montanhas,
leva cantos e lutas
de meu povo.
Honra e amor, Romênia,
sobem em ti como duas vinhas novas.
A inteligência fita com teus olhos.
Em tua boca sorriem os cachos.
Cidade
e paredes famintas
saciadas com farrapos de papel
— o lixo esparramado,
um homem morto
entre as moscas do inverno
e a imundície —
Santiago,
cabeça de minha pátria
pegada à grande cordilheira,
às naves de neve,
triste herança
de um século de senhoras elegantes
e cavalheiros de barbicha branca,
suaves bengalas, chapéus de prata,
luvas que protegiam unhas de águia.
Santiago, a herdada,
suja, sangrenta, cuspida,
triste e assassinada
a herdamos
dos senhores e seu senhorio.
Como lavar teu rosto,
cidade, nosso coração,
filha maldita,
como,
devolver-te a pele, a primavera,
a fragrância,
viver contigo viva,
acender-te acesa,
fechar os olhos e varrer tua morte
até ressuscitar-te e florescer-te
e dar-te novas ;mãos e novos olhos,
casas humanas, flores na luz!
Epílogo - o Canto Repartido
e o mar do Chile
escrevo.
A cordilheira branca.
O mar cor de ferro.
Regressei de minhas viagens
com os novos cachos.
E o vento.
O vento sacudia
a terra, as raízes.
Eu viajei com o vento.
Hoje entre mar e neve
e terra minha
eu ordenei os dons
que recolhi no mundo.
Estabeleci meu amor
como uma sarça ardendo
sobre a primavera
de minha pátria.
Regressei cantando.
Onde esteve, a vida
criadora
me revestiu de germes
e frutos.
Regressei vestido
de uvas e cereais.
Eu trouxe a semente
de escolas transparentes,
a folhagem acerada
das novas usinas,
o latejo
da tenacidade e o movimento
da extensão povoando-se de aroma.
Num lugar qualquer
vi o pão diminuído
e mais além estender-se
os reinos da espiga.
Vi nos povos a guerra
como despedaçada
dentadura
e vi a paz redonda
noutras terras
crescer como uma taça
como o filho na mãe.
Eu vi.
Ali onde estive, ainda
nos espinhos
que quiseram ferir-me,
achei que uma pomba
ia cosendo
em seu voo
meu coração com outros
corações.
Achei por toda parte
pão, vinho, mãos,
ternura.
Dormi sob todas
as bandeiras
reunidas
como debaixo dos ramos
de um só bosque verde
e as estrelas eram
minhas estrelas.
De minhas encarniçadas
lutas, de minhas dores,
não conservo nada
que não possa servir-vos.
Também como a terra,
eu pertenço a todos.
Não há uma só gota
de ódio em meu peito. Abertas
vão minhas mãos
espargindo as uvas
no vento.
Regressei de minhas viagens.
Naveguei construindo
a alegria.
Que o amor nos defenda.
Que levante suas novas
vestiduras
a rosa. Que a terra
continue sem fim florida
florescendo.
Entre as cordilheiras
e as ondas nevadas
do Chile,
renascido no sangue
de meu povo,
para vós todos,
para vós canto.
Que seja repartido
todo canto na terra.
Que subam os cachos.
Que os propague o vento.
Assim seja.
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Com treze anos, começou a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña. Foi em 1920 que surgiu o pseudônimo Pablo Neruda – uma homenagem ao poeta tchecoslovaco Jan Neruda. Vários dos poemas desse período estão presentes em Crepusculário, o primeiro livro do poeta, publicado em 1923.
Além das suas atividades literárias, Neruda estudou francês e pedagogia na Universidade do Chile. No período de 1927 a 1935, trabalhou como diplomata, vivendo em Burma, Sri Lanka, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri. Em 1930, casou-se com María Antonieta Hagenaar, de quem se divorciaria em 1936. Em 1955, conheceu Mathilde Urrutia, com quem ficaria até o final da vida.
Em meio às turbulências políticas do período entre-guerras, publicou o livro que marcaria um novo período em sua obra, Residência na terra (1933). Em 1936, o estouro da Guerra Civil Espanhola e o assassinato de García Lorca aproximaram o poeta chileno dos republicanos espanhóis, e ele acabou destituído de seu cargo consular. Em 1943, voltou ao Chile, e, em 1945 foi eleito senador da república, filiando-se ao partido comunista chileno. Teve de viver clandestinamente em seu próprio país por dois anos, até exilar-se, em 1949. Um ano depois foi publicado no México e clandestinamente no Chile o livro Canto geral. Além de ser o título mais célebre de Neruda, é uma obra-prima de poesia telúrica que exalta poderosamente toda a vida do Novo Mundo, denuncia a impostura dos conquistadores e a tristeza dos povos explorados, expressando um grito de fraternidade através de imagens poderosas.
Após viver em diversos países, Neruda voltou ao Chile em 1952. Muito do que ele escreveu nesse tempo tem profundas marcas políticas, como é o caso de As uvas e o vento (1954), que pode ser considerado o diário de exílio do poeta. Em 1971, Pablo Neruda recebeu a honraria máxima para um escritor, o Prêmio Nobel de Literatura. Morreu em Santiago do Chile, em 23 de setembro de 1973, apenas alguns dias após o golpe militar que depusera da presidência do país o seu amigo Salvador Allende.
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