8
Abelha branca zumbe, ébria de mel em minh’alma
e te torce em lentas espirais de fumo.
Sou o desesperado, a palavra sem eco,
o que perdeu tudo, e o que tudo teve.
Última amarra, estala em ti minha ansiedade última.
Em minha terra deserta és a última rosa.
Ah silenciosa!
Cerra teus olhos profundos. Lá esvoaça a noite.
Ah! Despe teu corpo de estátua temerosa.
Tens olhos profundos onde se agita a noite.
Frescos braços de flor e regaço de rosa.
Teus seios parecem os caracóis brancos.
Veio dormir em teu ventre uma mariposa de sombra.
Ah silenciosa!
Eis aqui a solitude de onde estás ausente.
Chove. O vento do mar caça gaivotas errantes.
A água anda descalça pelas ruas molhadas.
Daquela árvore queixam-se, meio enfermas, as folhas.
Abelha branca, ausente, zunindo em minha alma.
Renasces no tempo, delgada e silenciosa.
Ah silenciosa!
Terremoto no Chile
O navio caminha na noite sem pés resvalando
na água sem fundo nem forma, na abóbada negra do mundo,
nas pobres cabinas o homem resolve suas mínimas normas,
a roupa, o relógio, o anel, os livros sangrentos que lê:
o amor escolheu seu esconderijo e a sombra entrelaça
um férreo relâmpago que cai frustrado no vazio
e em plena substância impassível resvala o navio
com um carregamento de pobres desnudos e mercadorias.
Ali, no começo da primavera marinha,
quando a ave assustada e faminta persegue a nave
e no sal aprazível do céu e da água aparece o aroma
do bosque da Europa, o cheiro da menta terrestre,
soubemos, amada, que o Chile sofria quebrado por um terremoto.
Deus meu, tocou o sino a língua do antepassado na minha boca,
outra vez, outra vez o cavalo iracundo pateia o planeta
e escolhe a pátria delgada, a beira do páramo andino
a terra que deu em sua angustura a uva celeste e o cobre absoluto
outra vez, outra vez a ferradura no rosto
da pobre família que nasce e padece outra vez o espanto e a greta,
o solo que separa os pés e divide o volume da alma
até fazê-la um lenço, um punhado de pó, um gemido.
Talvez és, Chile, a cauda do mundo, o cometa marinho
apenas colado ao assombro nevado da cordilheira
e o passo instantâneo de um átomo solto na veia magnética:
treme tua sombra de âmbar e tua geologia
como se o rechaço do Polo ao ímã de tuas vinhas azuis
fizesse o conflito, e tua essência, outra vez derramada,
outra vez deve unir sua desgraça e sua graça e nascer outra vez.
Pelos muros caídos, o pranto no triste hospital,
pelas ruas cobertas de escombros e medo,
pela mina que forma a sombra às doze do dia,
pela ave que voa sem árvore e o cachorro que uiva sem olhos,
pátria de água e de vinho, filha e mãe de minha alma,
deixa-me confundir-me contigo no vento e no pranto
e que o mesmo iracundo destino aniquile meu corpo e minha terra.
Oh sem par formosura do Norte deserto,
a areia infinita, os rastros metálicos dos meteoros,
a sombra cortando o desenho de sua geografia violeta
na clara paciência do dia vazio como uma basílica
na que estiveram sentadas as pedras caídas desde outro planeta:
a seu redor as colinas de colo irisado esperando e mais tarde
as estrelas mais frescas do mundo palpitam tão perto
que cheiram à sombra, a jasmim, à neve do céu.
Oh pampas desnudos, capítulos cruéis que só percorrem os olhos do ceibo2,
sem par é o nome do homem que cava na porta maldita
e rompe deixando suas mãos nos cemitérios
a crosta do astro escondido, nitrato, sulfato, bismuto,
e acima na neve deserta de cruzes a altura eriçada,
a entrega através de seu sangue o sangue maligno do cobre,
sem par é o nome do homem e modesto é seu suave costume,
se chama chileno, está acima e abaixo no fogo, no frio,
não tem outro nome e isso lhe basta, não tem sobrenome,
se chama também areal ou salitre ou quebranto
e somente se olhas suas mãos amargas saberás que é meu irmão.
Rosales, Ramírez, Machucas, Sotos, Aguileras,
Quevedos, Basoaltos, Urrutias, Ortegas, Navarros, Loyolas,
Sánchez, Pérez, Reyes, Tapias,
Conejeros, González, Martínez,
Cerdas, Montes, López, Aguirres, Morenos, Castillos,
Ampueros, Salinas, Bernales, Pintos, Navarretes,
Núñez, Carvajales, Carillos, Candias, Alegrías,
Parras, Rojas, Lagos, Jiménez, Azócares,
Oyarzunes, Arces, Sepúlvedas, Díaz,
Álvarez, Rodríguez, Zuñigas, Pereiras, Robles, Fuentes, Silvas,
nomes que são homens ou grãos de pólvora ou trigo,
estes são os nomes que assinam as páginas da primavera,
do vinho, do duro torrão, do carvão, do arado,
estes são os nomes de inverno, dos escritórios, dos
ministérios,
nomes de soldados, de agrários, de pobres e muitos, de
entrada cedo
e saída aberta na sombra sem glória e sem ouro:
a estes pertenço e agora na noite de alarma, tão longe
no meio do mar, na noite, os chamo e me chamo;
quem cai cai em mim, o ferido me fere, o que morre me
mata.
Oh pátria, formosura de pedras, tomates, peixes, cereais, abelhas, tonéis,
mulheres de doce cintura que inveja a lua minguante,
metais que formam teu claro esqueleto de espada,
aromas de assados de inverno com luz de guitarras noturnas,
perais carregados de mel cheiroso, cigarras, rumores
de estio repleto como os canastros das chacareiras,
oh amor de rocio do Chile em minha fronte, destrói este sonho de ira,
devolve-me intacta minha pátria pequena, infinita, calada, sonora e profunda!
Oh ramos do Sul quando o trem deixou para trás os limões
e segue para o Sul galopando e ofegando rolando para o Polo,
e passam os rios e entram os vulcões pelas janelinhas
e um cheiro de frio se estende como se a cor da terra
mudasse e minha infância
tomasse seu poncho molhado para percorrer os caminhosde agosto.
Recordo que a folha quebrada do peumo3 em minha boca cantou uma toada
e o cheiro do raulí4 enquanto chove se abriu como uma arca
e todos os sonhos do mundo são um arvoredo
por onde caminha a lembrança pisando as folhas.
Ai canta guitarra do Sul na chuva, no sol lancinante
que lambe os carvalhos queimados pintando-lhes asas,
ai canta, racimo de selvas, a terra empapada, os rápidos rios,
o inabarcável silêncio da primavera molhada,
e que tua canção me devolva a pátria em perigo:
que corram as cordas do canto no vento estrangeiro
porque meu sangue circula no meu canto se cantas,
se cantas, oh pátria terrível, no centro dos terremotos
porque assim necessitas de mim, ressurgida,
porque canta tua boca em minha boca e só o amor ressuscita.
Não sei se morrestes e se morri: esperando sabê-lo te
canto este canto.
Estou longe
É minha a hora infinita da Patagônia,
galopo estendido no tempo como se navegasse,
atravesso os tenros rebanhos trocando de passo
para não ferir as nuvens de espessa roupagem,
a estepe é celeste e cheira o espaço a sino,
à neve e a sol macerados no pasto pobre:
gosto da terra sem habitações, o peso do vento
que busca meu peito curvando a ramagem de minha alma.
De onde caí? E como se chama o planeta que soa como oalumínio
sob as pisadas de um pobre viajante afogado no amplo silêncio?
E busco no rumo sem rumo da oceania terrestre
seguindo as pegadas apagadas das ferraduras,
enquanto sai a lua como o pão da boca de um forno
e se vai pelo campo amarrada ao cavalo mais lento do céu.
Oh anel espaçoso que move contigo seu círculo de ouro
e que, caminhando, te leva em seu centro sem abandonar-te,
quantas sombras trocaram hostis estilos de espinhos queimantes
enquanto tu continuavas no centro do cinzento hemisfério
ou a raposa de pés invisíveis que deslizou resvalando no frio
ou a luz que trocou de bandeira depois de beijar teu cavalo,
ou a folhagem entendida em desditas que aceita tua ausência
ou o póstumo colibri que acendeu seu pequeno relógio de turquesa no braço das solidões
ou o trovão que se desenvolve rolando em sua própria morada
ou os avestruzes de pés militares e olhos de colégio
ou, mais pura que tudo, a terra e suas respirações,
a terra que mostra sua pele de planeta, seu couro de amargo cavalo,
a terra terrestre com o rastro extirpado de alguma fogueira,
sem enfermidades, sem homens, sem ruas, sem pranto nem morte,
com o vento ilustre que limpa de noite e de dia a natureza
e brunhe a hirsuta medalha da tempestuosa pradaria
das patagônias nutridas pela solidão e pelo orvalho.
É dentro, no vazio ou na sombra, na torre angustiada,
que busquei e te encontrei suspirando, bem meu,
foi uma hora em que todo o baluarte tremeu, moribundo,
e no meu peito a dúvida e a morte voavam nuas:
amor meu, cereja, guitarra da primavera,
que doce teu colo desviando as flechas do padecimento
e tua retidão de figura de proa no vento salgado que impõe seu rosto ao navio.
Amada, não foi em extensões e costas, não foi em eriçadas areias,
não foi tua chegada a um castelo rodeado pela geografia,
mas a uma catástrofe pobre que apenas concerne ao
viajante,
a uma greta que multiplicava punhais em minha desventura,
e assim tua saúde vitoriosa inclinando-se sobre o caminho
encontrou minha dor e arrancou as espadas daquela agonia.
Oceana, outra vez com seu nome de onda visito o oceano
e vivente e dormente ao meu lado na luz implacável de Janeiro
não sabemos sofrer, olvidamos a pedra enlutada
que pesou sobre um ano incitando meu peito a pulsar como um agonizante.
Troquei tantas vezes de sol e de arte poética
que ainda estava servindo de exemplo em cadernos de melancolia
quando já me inscreveram nos novos catálogos dos otimistas,
e apenas tinham-me declarado escuro como boca de lobo ou de cão
denunciaram à polícia a simplicidade de meu canto
e mais de um encontrou profissão e saiu a combater meu destino
em chileno, em francês, em inglês, em veneno, em calúnia, em sussurro.
Aqui levo a luz e a estendo para o meu companheiro.
A luz brusca do sol na água multiplica pombas, e canto.
Será tarde, o navio entrará nas trevas, e canto.
Abrirá sua adaga a noite e eu durmo coberto de estrelas.
E canto.
Chegará a manhã com sua rosa redonda na boca. E eu canto.
Eu canto. Eu canto. Eu canto. Eu canto.
19
Menina morena e ágil, o sol que coalha
os trigos, que dá os frutos e que torce as algas,
fez teu corpo alegre, teus olhos luminosos
e tua boca que tem o sorriso da água.
Um sol negro e ansioso te enrola nos raios
de negras madeixas, quando esticas os braços.
Tu brincas com o sol como com o estuário
e ele te põe nos olhos escuros remansos.
Menina morena e ágil, nada em ti acerca.
Tudo de ti me afasta, como do meio dia.
És a delirante juventude da abelha,
a embriaguez da onda, e a força da espiga.
Meu coração sombrio te busca, sem demora,
e amo teu corpo alegre, a voz solta e delgada.
Mariposa morena, doce e inalterável,
como o trigal e o sol, a papoula e a água.
10
Perdemos também este crepúsculo.
Ninguém nos viu esta tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.
Tenho visto da minha janela
a festa do poente entre as serras distantes.
Às vezes como uma moeda
acendia um pedaço de sol em minhas mãos.
Eu te recordava com a alma apertada
dessa tristeza que me conheces.
Então, onde estavas?
Entre que gentes?
Dizendo que palavras?
Por que me chega todo o amor num golpe
quando me sinto triste, e te sinto longe?
Caiu o livro que sempre se toma ao crepúsculo,
e como um cão ferido rodou aos meus pés a capa.
Sempre, sempre te afastas às tardes
até onde o crepúsculo corre apagando estátuas.
Fala a cabeça de Murieta
Ninguém me escuta, posso falar por fim,
um menino nas trevas é um morto.
Não sei por que tinha que morrer
para seguir sem rumo no deserto.
De tanto amar cheguei a tanta tristeza,
de tanto combater fui destruído
e agora entre as mãos de Tereza
dormirá a cabeça de um bandido.
Foi meu corpo primeiro separado,
degolado depois de ter caído,
não clamo pelo crime consumado,
só reclamo por meu amor perdido.
Minha morta me esperava e tenho chegado
pelo caminho duro que tenho seguido
para juntar-me com ela no estado
que matando e morrendo tenho conseguido.
Sou só uma cabeça dessangrada,
não se movem meus lábios com meu acento,
os mortos não deviam dizer nada
a não ser através da chuva e do vento.
Mas como saberão os que virão
entre a névoa, a verdade desnuda?
Daqui a cem anos, peço, companheiros,
que cante para mim Pablo Neruda.
Não pelo mal que tenha ou não tenha feito,
nem pelo bem, tampouco, que sustive,
mas porque a honra foi meu direito
quando perdi o único bem que tive.
E assim na inquebrantável primavera
passará o tempo e se saberá minha vida,
que em sendo amarga também é justiceira
não a dou por ganha nem perdida.
E como toda vida passageira
foi talvez como um sonho confundida.
Os violentos mataram minha quimera
e por herança deixo minhas feridas.
Piedade para sua sombra! Entreguemos a rosa que levam à sua amada adormecida,
a todo o amor e à dor e ao sangue vertido, e nas portas do ódio esperemos
que regresse à sua cova a escura violência e que suba a clara consciência
à altura madura do trigo e o ouro não seja testemunha de crime e fúria e o pão de amanhã na terra
não tenha o sabor do sangue do homem caído na guerra.
Já dorme o adormecido e repousa em sua fossa a rosa.
Já jaz o bandido acossado e caído: descansa na paz de sua esposa.
E sobe a lua escarlate pelas escadas do céu.
A noite engole quem mata e o morto e rolam por seu veludo
as estrelas frias, a sombra estrangeira se enche de espigas de prata
e aqui terminou minha cantata na paz da morte e da noite.
Não é meu o reproche por sua cavalgada de fogo e espanto.
Quem pode julgar seu quebranto? Foi um homem valente e perdido
e para estas almas ardentes não existe um caminho elegido:
o fogo os leva em seus dentes, os queima, os alça, os devolve a seu ninho
e se sustiveram voando na chama; seu fogo os tem consumido.
Murieta violento e rebelde regressa em meu canto ao
metal e às minas do Chile,
já seu juramento termina entre tanta vingança cumprida,
a pátria olvidou aquele espanto e sua pobre cabeça cortada e caída
é só a sombra do sonho distante e errante que foi sua romântica vida.
Regressa e descansa e galopa no ar para o Sul seu cavalo escarlate;
os rios natais o cantam com sua boca de prata e o canta também o poeta.
Foi amargo e violento o destino de Joaquín Murieta.
Desde esse minuto o Povo repete como um sino enterrado minha longa cantata de luto.
Um dia
Foi-se ontem, fez-se luz, fez-se fumaça, foi-se;
e outro dia compacto levanta uma lança no frio:
A quem falto? Que voz que não escuto me chama chorando
ou quem é o perdido no bosque com uma guitarra?
Talvez foge entre ramas molhadas o puma de pés amarelos
ou na rua San Diego, em Santiago do Chile, uma jovem vestida de hera
ao amar entrelaça seu abraço com aqueles jasmins amargos
que treparam em minha adolescência por minha voz quebrantando sacadas.
As Tuas Mãos
Quando as tuas mãos saem,
amor, até mim,
que me traz o seu voo?
Porque se detiveram
na minha boca, de súbito,
porque as reconheço
como se acaso, antes,
lhes tivesse tocado,
como se antes de existirem
tivessem percorrido
a minha testa, a minha cintura?
A sua suavidade vinha
voando sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
sobre a primavera,
e quando as puseste
no meu peito,
reconheci essas asas
de pomba dourada,
reconheci esse giz
e essa cor de trigo.
Os anos da minha vida
percorri-os à sua procura.
Subi as escadas,
atravessei os recifes,
levaram-me os comboios,
as águas trouxeram-me,
e na pele das uvas
senti o teu toque.
A madeira de súbito
trouxe-me o teu contacto,
a amêndoa anunciava-me
a tua suavidade secreta,
até que as tuas mãos
se fecharam no meu peito
e ali como duas asas
chegou ao fim a sua viagem.
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Do ditirambo à raiz do mar
se estende um novo tipo de vazio;
não quero mais, diz a onda,
que não sigam falando,
que não siga crescendo
a massa do concreto
na cidade;
estamos sozinhos,
queremos gritar por fim,
mijar frente ao mar,
ver sete pássaros da mesma cor,
três mil gaivotas verdes,
buscar o amor na areia,
sujar os sapatos,
os livros, o chapéu, o pensamento
até encontrar-te, nada,
até beijar-te, nada,
até cantar-te, nada,
nada sem nada, sem fazer
nada, sem terminar
o verdadeiro.
Rechaça Os Relâmpagos
Centelha, tu me dedicaste
a lentidão de meus trabalhos:
com a advertência equinocial
da tua fosfórica ameaça
recolhi minhas preferências,
renunciei ao que não tinha
e encontrei a meus pés e a meus olhos
as abundâncias do outono.
Me ensinou o raio a ser tranquilo,
a não perder luz no céu,
a procurar dentro de mim
as galerias da terra,
a cavar no solo duro
até encontrar na dureza
o mesmo lugar que buscava,
agonizando, o meteoro.
Aprendi a velocidade
para deixá-la no espaço
e de meu lento movimento
fiz uma escola desnecessária
como uma tertúlia de peixes
cujo passeio cotidiano
se desenvolve entre ameaças,
Este é o estilo das profundezas,
do manifesto submarino.
E não o penso desdenhar
por uma lei da centelha:
cada um com seu sinal,
com o que teve neste mundo,
e me remeto à minha verdade
porque me falta uma mentira.