Escritas

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Pablo Neruda Ano: 1646
Abelha branca zumbe, ébria de mel em minh’alma
e te torce em lentas espirais de fumo.

Sou o desesperado, a palavra sem eco,
o que perdeu tudo, e o que tudo teve.

Última amarra, estala em ti minha ansiedade última.
Em minha terra deserta és a última rosa.

Ah silenciosa!

Cerra teus olhos profundos. Lá esvoaça a noite.
Ah! Despe teu corpo de estátua temerosa.

Tens olhos profundos onde se agita a noite.
Frescos braços de flor e regaço de rosa.

Teus seios parecem os caracóis brancos.
Veio dormir em teu ventre uma mariposa de sombra.

Ah silenciosa!

Eis aqui a solitude de onde estás ausente.
Chove. O vento do mar caça gaivotas errantes.

A água anda descalça pelas ruas molhadas.
Daquela árvore queixam-se, meio enfermas, as folhas.

Abelha branca, ausente, zunindo em minha alma.
Renasces no tempo, delgada e silenciosa.

Ah silenciosa!
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