Lista de Poemas
Explore os poemas da nossa coleção
gioliveira
Ela não era uma mulher vazia!
E ela não sabe se ele vai voltar.
Depois dos olhos tortos
Depois dos lábios mortos
Não sabe se voltará.
Talvez esteja realmente exausto
De insistir em se fazer amado
Talvez só tome fôlego
E retorne ao seu amor renegado.
Mais uma vez ele se foi
E não houve lamentos
Não houve grito
Nem ressentimento
Só um olhar distante
Aquele mesmo olhar vazio de antes.
Não antes de tudo ruir...
Antes de tudo ruir ela sorria,
Ela não era uma mulher vazia
Ela florescia!
E mais uma vez ele se foi
E ela se deita esperando a morte
Porque não se sente com sorte
A ponto de crer
Que ele nunca mais volte.
(Gi Oliveira)
paola_
paranóia
...filmes
Através deles consigo sentir parte daquele frenesi.
Só assim consigo lembrar que ainda existe aquela coisa sentimental, aquela subjetividade…
Há tempos não perco o fôlego, não sinto minha barriga estremecer, aquela ânsia por ver, tocar, beijar, como se aquele fosse o meu único instante, como se o tempo simplesmente parasse por uma fração de segundo.
Me sinto tola por agir assim
Como se fosse uma adolescente
Infelizmente não tenho com quem compartilhar
Os conhecidos diriam que endoidei - talvez estejam certos
Parece uma sede insaciável, busco, miseravelmente, por algum oásis, algum porto, qualquer coisa que me dê conforto.
Carlos Ramos
UM ABRAÇO IMPOSSÍVEL
não estejam mais ao alcance dos meus
ainda que eu nunca te tivesse dito
que os teus olhos
eram as verdes paisagens
que me iluminavam todos os minutos
ainda que só agora o diga
ainda assim abro com doce desespero
esta garrafa de poesia e saúdo-te
mulher da minha vida
na cidade em que o mar tem o teu nome
e todas as pessoas te conhecem em demasia
para te poderem perder como eu te perdi
ainda que este papel
não seja o lugar
onde sublime possas existir
eu digo que se houvesse de louvar-te
buscar-te-ia no vento porque nada sou
e tudo é pouco
para abraçar o impossível
e esconder as minhas dores.
_tuliodias
Roupa colorida
Em dias ruins
pense e racionalize:
A felicidade é logo ali.
No sorriso da vó
na paixão pela vizinha
nas pequenezas do dia a dia.
A tristeza é como um temporal
Vem, trás sua destruição
mas pela manhã temos uma nova vida, reconstrução.
Só depende de nós
e como encararemos a situação.
Beba um vinho
tome um café
ria da situação.
Levar a vida assim é mergulhar-se numa eterna reconcialiação.
yuri petrilli
cigarros emaranhados
Sim, este momento,
Em que o mundo
Afasta-se ao frágil
Gozo que, anestésico,
Esfuma o tempo
Em qualquer dimensão
Alheia ao quarto escuro.
Este momento
Em que esqueço
E que me aqueço.
Este momento em que
Me beijo em ti,
Pensando beijar-te em mim.
Este momento
De profunda solidão.
Não mais que um instante,
Este pobre momento,
Pensado monumento,
Mas em plena ruína jamais vista.
Este momento
Em que nos destruímos,
E nos afagamos em nossos
Próprios estilhaços, refletidos.
Esta ferida,
Esta idealização,
Esta suposta plenitude estúpida,
Esta convulsão patética e egoística,
Este ápice, grão de areia vazio, mas quente,
Bainha do flácido espólio subsequente
Que então queda nulo
Sobre o leito frio.
Este momento,
Esta lágrima adiada,
Um elo partido da corrente inexistente.
O póstumo momento em que te vejo
Sem cor nas faces,
Despida de mim, trajada em si,
E desprezo-me em ti
Sem nem poder sonhar.
Esta hora esvaída...
Esta inquietude serena...
Esta conspurcação breve
Que permanece,
Mesmo não sendo
Nada além
De uma ilusão...
gioliveira
Sobre lições aprendidas.
Qual a verdadeira razão de ser.
Dias e dias buscando respostas
Para questões que nem sempre estão expostas.
Oportunidades de nos tornar melhor
Nem sempre são compreendidas por quem se sente só.
Porém, nenhuma folha cai ao chão
Se o PAI, maior e soberano disser não.
Por trás de tudo há um grande chamado
Que infelizmente nem todos atenderam
Aqueles que desejam fazer a diferença
Auxiliem seu irmão em toda sua carência.
Somos todos irmãos, mas vivemos em guerra
Brigando por questões que só existem na Terra
Fazendo com que a vida seja desperdiçada
E o que realmente importa, parece não valer nada.
Mas cada dia vivido é um grande presente
Ao qual aproveitamos pra seguir em frente.
Façamos aquilo que o PAI nos ensinou:
Amar seu irmão, como ELE nos amou.
(Gi Oliveira)
Carlos Silva
EU VI DEUS.
(OU UM DIA PARA NAO SER ESQUECIDO)
Sim eu vi Deus. Eu vi Deus naquela manhã de sábado no seu santo dia santo, logo pela manhã com uma névoa fria soprada no pé de Serra, lá na Serra do Aporá.
Ao chegar no topo da serra, respirei e os pulmões deram graças se enchendo de ar puro. Olhei ao redor contemplando a beleza daquele dia.
Iria fazer belas fotos num documentário sobre a exploração turística no pé da Serra, que há serviria para expor minha ideia para a implantação de um sistema turístico naquele local.
Estacionei o carro ao lado das torres de transmissão me preparei, troquei de camisa e segui em direção ao local que dá uma vista maravilhosa para o que eu me propusera fazer.
Estava só, feliz e admirando da altura da Serra, um pedaço da minha Itamira, meu berço de infancia onde fui criado.
Alguns urubus me serviam de guardiões daquele pedaço de natureza tao bela, e ao decolar seus voos, faziam um barulho que até assustava.
Quando estamos sozinhos, qualquer barulho assusta.
Fui seguindo, assobiando já imaginando os melhores ângulos para captação das imagens.
Tinha chovido na noite anterior mas naquele momento o tempo estava favorável para aquela incursão solitária.
Já tinha adentrado algumas dezenas de metros mata a dentro, rumo ao local escolhido.
Envolto em meus devaneios com um riso estampado por estar ali, e foi assim que numa fração de segundos,
Derrepente e inesperadamente eu escorreguei, e fui lancado ao chão caindo por cima da perna que dobrara para tras, e meu corpo caiu por sobre ela impactando com força no meu pé direito.
Senti um forte estalo, gemi e gritei de dor, gritei alto de tanta dor sentida, tão alto que chegou ecoar na serra.
Eu só conseguia dizer: MEU DEUS, MEU DEUS MEU DEUS... QUE DOR.
Balbuciei repetidas vezes em total desespero tais palavras, como se buscando nesse gesto, aliviar a dor tão forte causada pela queda
Tentei levantar mas ao tentar colocar o pe no chão, vi e senti a gravidade do meu problema.
Constatei que o pé tinha quebrado,
Aquele estalo denunciava a minha triste e dolorosa suspeita. EU ESTAVA COM O PE DIREITO QUEBRADO.
O desespero aumentou, a adrenalina subiu tanto que a boca resssecou e o pavor toma conta de mim. MEU DEUS, MEU DEUS MEU DEUS... Por vezes tantas eu repetia exteriorizando o meu desespero ao mesmo tempo, exercitando a minha fé em Deus como na passagem bíblica que Jacó entra em luta com o anjo.
O que fazer? Olhei ao redor, ergui a cabeça para o caminho que teria que percorrer de volta. Comecei me arrastar pelo chão orvalhando e sujando as roupas, temendo bichos pessonhentos ou coisa assim.
Lento doloroso e muito comprido era o caminho de volta. Ergui o corpo comecei engatinhar amparando no chinelo, o joelho direito para evitar o atrito das pedras com a pele.
Cada avanço, uma conquista e uma dor. MEU DEUS, MEU DEUS MEU DEUS...E AGORA?
Pensava na família, na situação ali, voltei assustar-me com os urubus. A boca e a garganta seca, temia desmaiar pela dor, pela aflição e por aquela sensação de secura.
Em dado momento, após já percorrer uma certa distância, deitado sobre uma pedra, peguei o celular. Tentei ligar a cobrar pro meu irmao e não consegui. Passei mensagem de Zap, mas eu não tinha crédito, disquei 190 e nada, tentei o 192 sem sucesso.
Psicologicamente eu estava apavorado.
Fiz prece, pedi a Deus que me livrasse daquele tormento, mas em momento algum eu maldisse o ocorrido.
Voltei me concentrar que eu devia continuar engatinhando, e sempre falando com Deus, eu avançava pois sabia que não poderia ficar ali.
Mais algumas investidas engatinhando, foi quando avistei o carro. Meu corpo ja extenuado começava dar sinais de vencido.
Achei o carro mais lindo do mundo, à minha frente, o mais valioso de toda a terra, só bastava mais alguns esforços e eu chegaria.
Nunca me senti tão feliz ao avistar a minha FERRARI SERTANEJA.
Sorri, misturando as minhas lágrimas e dores, com a intensa gratidão ao mantenedor da vida.
Busquei concentrar-me e sabia que o objetivo principal seria chegar até ele, que alheio ao meu padecimento, lá estava estático exibindo sua coloração rubra, que aos meus olhos encantava.
A minha felicidade vibrou, ao tocar a maçaneta. Puxei-a, a porta se abriu, e mais um tremendo esforço seria feito para adentrar ao veículo. As palavras agora mudavam, ao dizer:
MEU DEUS, MEU DEUS MEU DEUS... MUITO OBRIGADO, EU CONSEGUI.
Para trás, ficara os 80 metros mais longos da minha vida e a minha maior ATÉ AQUI, superação de um sofrimento.
Sentado, olhei o pé e comecei imaginar o tamanho do estrago. A dor continuava insuportável.
E agora, o que devo fazer?
O medo agora era outro, se teria como consegui descer a Serra, sem provocar mais algum incidente!
Liguei o carro, coloquei a primeira marcha, resolvido que iria sair dali.
Fui descendo lentamente suportando aos solavancos devido os sulcos da ladeira, mas encostando ao lado do barranco, para evitar o despenhadeiro da direita, temendo numa circunstância qualquer, acelerar ao tentar pisar no freio, se fosse necessário fazê-lo.
Fui descendo suportando a dor, a estrada melhorou um pouco, coloquei a segunda marcha e seguir.
Já próximo da pista, buzinei insistentemente ao lado da casa de um amigo que não me atendeu e resolvi que iria tentar chegar no posto médico da cidade.
Lá cheguei, fui atendido, prestaram-me os primeiros socorros informando que eu iria ser conduzido para o Hospital Dantas Bião da cidade de Alagoinhas.
O problema agora era esperar um carro disponível.
Como não houve fratura exposta, eu não poderia ser transportado na ambulância ou na Samur. Aconselharam-me dizer que eu era residente na cidade de Alagoinhas e que eu não tinha passado por aquele Posto de atendimento de Itamira se não, eles iriam fazer regulação e ninguém poderia garantir quando eu seria atendido.Isso afirmou o Dr.Donizete Filho junto ao técnico de enfermagem Lucas daquela unidade.
O carro demorou, o sangue foi esfriando o nervosismo voltava junto com as dores. Comecei utilizar meus conhecimentos e após a intervenção de 2 pessoas RITA E KARINE,(que inclusive trouxe almoço para mim) tudo foi providenciado junto ao setor de transporte da prefeitura.
Tudo certo, o carro chegou e lá fomos nós. Ao chegar no setor de emergência, o motorista se adiantou na recepção já dizendo de onde vinhamos.
O rapaz me atendeu e perguntou: O Sr. Está vindo de Aporá não é ?
Respondi que sim, mas que eu tinha comigo um endereço como residente na cidade e que ele me ajudasse ser atendido naquela unidade. Foi aí que ele me sossegou dizendo: Fique tranquilo, ao ver a situação que eu me encontrava.
Uma enfermeira perguntou como eu tinha chegado e eu lhe disse. Ela então retrucou indagando: Então lhe abandonaram aqui?
Não! O motorista ainda está aí, eu.lhe respondi.
Fiquei ali aguardando, resolvi fazer a ficha e quando perguntado, disse a recepcionista que morava em Alagoinhas e lhe dei o endereço.
Pensei: Como é que pode, um cidadão contribuinte brasileiro, ter que mentir para receber atendimento pelo melhor e maior plano de saúde que ja fora criado no Brasil, que é o SUS?
Ficha feita, minha sobrinha chega, atendimento, raio x, internação no sábado, cirurgia na segunda, alta na terça e hoje cá estou, agradecido a Deus por Tê-lo ao meu lado, desde as 9:40 da manhã daquele sábado (hora do acidente) até aqueles momentos que hoje descrevo nessa narrativa.
Carlos Silva.
_tuliodias
A LUA ESTÁ LINDA, TEM SEU NOME.
A Lua está linda hoje, tem seu nome
teu lindo nome, a Lua tem, como nome, hoje.
Junto de ti, meus breves minutos
foram intermináveis vidas.
Meu corpo junto do teu,
nossa conexão, foram vivências
que se agarraram na subjetividade da minha existência.
Meu eu agora, precisa de você
e da sua energia.
A Lua, tem a Lua, como Lua.
Nossas existências, por um tempo:
eternizadas
Por uma breve memória,
nós juntos, colados, grudados um ao outro.
É uma energia surreal,
é uma vivência transcendental.
Obrigado por trazer a mim,
mesmo com a tristeza de não ter-te aqui,
vida, vontade, sentimento.
Obrigado por cada singelo toque em meu corpo
que soou como um mar de
existências em mim
eu me transportava, me calava, me exaltava.
Em você, via o que existia de melhor em mim.
Teu corpo me trás e me trazia vida.
Vida, é o que eu precisava,
necessitava, vida.
Necessito de você,
agora, pela Lua, que com sua
maravilhosidade, nos uniu, fundiu,
nos abeençoou.
Pelo amor, pelo toque e pela lua
estamos ligados por toda
nossa existência.
João de Castro Sampaio
Eu, morto de fome
Ressaltar que,
No inverno do corrente ano,
Eu decidi morrer de fome.
Mas isso já foi colocado no papel
Mais de cinco vezes, mas eis
Aqui a sexta tentativa,
Pois este é um tempo que me tem
Negado até mesmo o direito de
Morrer como Homem.
Ademais, não sou melhor do que
Você: nunca fui melhor do que
Ninguém. Acabo sempre sendo o mais
Acomodado. Talvez não por minha culpa
Nunca por falta de esforço ou de vontade.
Sempre termina dessa forma.
Agora, os outros já vieram e passaram,
Mais uns outros estão por vir.
E se os primeiros me enterraram,
Os próximos pisarão em cima de mim.
Já não era tão útil, e ainda
Por cima, transformaram-me num cão
E me deixaram largado nesse frio chão.
E foi assim que eu morri:
Como os antigos poetas que eu conheci!
Tsunamidesaudade63
Amor é
Amor
Amor és tu,
amor sou eu,
amor somos nos dois,
Quando nos enrolamos naquele beijo louco,
quando nossos corpos se entrelaçam,
quando nos amamos na cama ou no chão,
quando temos nos lábios o sabor a suor,
quando sentimos o cintilar do nosso coração,
amor é quando me chamas amor,
e eu te chamo paixão...
Luzern, 11.06.2017, Joao Neves
gioliveira
Sobre se pertencer.
Me fazer parar
Tentaram me impedir
De assumir o meu lugar.
Já tentaram me enganar
E me fazer sentir medo
Já tiraram minha paz
E todo meu sossego.
Mas com toda minha força
E toda minha fé
Resgatei meu minha auto-estima
Que estava lá no pé.
E decidida estou
A não mais permitir
Que decidam por mim
O que cabe a mim decidir.
Frederico de Castro
Hipersensível

A manhã esculpiu um gomo de luz hipersensível
Mediu cada distância entre um eco e um lamento
Que além timidamente fluía tão imprevisível
Uma hora provisória entretanto desfaleceu condoída
Emaranhou-se com a esperança perspícua e sapiente
Manuseou cada emoção prescrita numa lágrima saliente
O tempo agora rejuvenesce entrincheirado no advir de
Tantas palavras dissecadas neste verso proficiente
Até se esvair num impaciente silêncio…quase presciente
Frederico de Castro
A poesia de JRUnder
Iguais
Abra para o mundo, o dom da sua poesia,
Mostre-nos enfim, o seu amor...
Fale com paixão, escreva com alegria,
Deixe o tempo reconhecer seu valor.
A sensibilidade de quem escreve,
Precisa para florescer,
Que encontre também o sensível,
Nos olhos de quem o lê.
Não se iluda poeta,
esta é a verdade final.
Tudo o que escrever,
Só entenderá, um igual.
A poesia de JRUnder
Era tão diferente
Por vezes, a necessidade de escrever que nos assola, tem tamanha força que seria impossível controlar. E então escrevemos... E acontece...
Era tão diferente...
Porque, repentinamente, o ar que se respirava,
Era de uma leveza nunca antes experimentada...
As flores tinham mais aromas e as cores...
Ah! As cores eram vivas! Saltavam aos olhos!
O caminhar era suave. Parecia até que flutuava...
Que sensação mais intensa... Que momento eu vivia.
Em minha mente, um rosto. Em minha lembrança, um sorriso.
E a vida criava de improviso, uma tela em que podia deslumbrar, um futuro...
Vi, nós dois...juntos até o fim. Mãos dadas até o último momento.
Que magia é essa? De onde nasceu essa alquimia?
Onde fui buscar tanta esperança? Onde se escondia tamanha felicidade?
Não...não é somente paixão, porque era intenso demais...
Não é somente amor...era mais...muito mais.
Não fora cantado em canções. Não fora recitado em versos.
Era algo inédito, palpável...
Era um sentimento único, que o universo fez, só para mim...
Um sentimento...uma vida, uma história a se escrever, enfim...
Era como se o destino nos invadisse... era místico, mas real.
Era simplesmente, assim."
paola_
faz de conta
sou assim
aérea
sempre flutuando
1000 roteiros
que não acompanham meus desejos
sempre florindo
pra suportar que existo
fugindo da realidade
na qual faço parte
decidi:
vou transformar isso em arte!
shadowoftheworld
Awakening of the soul
Via tudo o que dizia
Minha alma agora recebia
Minha pele já se partia
Tão iluminado fez o chegar
Tão simples foi a harmonia
Paralelas vidas vi passar
A solidão já não me preenchia
Entre minutos, pensei
Entre mundos, procurei
A cada verso mais amei
A minha essência derramei
Se pudesse dizer o que disse ao mundo
Se pudesse falar o que vivi
Em meu estado mais profundo
Em cada verso, reaprendi
yuri petrilli
parafuso [prosa]
Dava já indícios de ferrugem, que despontava em meio às pequenas sujidades que se acumulavam ao redor de sua cabeça. Cabeça que, por sinal, não ia bem, posto que a fenda encontrava-se espanada. Apesar disso, dava ainda bom aperto. Não seria ele o responsável pela hipotética queda de minha singela prateleira, e eu bem o sabia.
Ainda assim, impelido pelo tédio, propus-me a trocá-lo, simplesmente. Capricho estético de uma tarde vaga.
Então, num súbito ímpeto de boa vontade, fui-me à loja de ferragens mais próxima. Sabia bem o que eu queria. Conhecia a medida exata do que precisava: um parafuso de cinco milímetros de espessura, por trinta de comprimento, banhado a zinco e de cabeça fenda panela, de modo a combinar com os demais.
Paguei trinta e cinco centavos. Voltei para casa.
Removi, cautelosamente, de cima da prateleira, meus livros e demais bugigangas. Apanhei a chave de fenda e extraí o feioso e o colega que o auxiliava. No mesmíssimo buraco, pus o novo parafuso. Contemplei, depois, satisfeito, o novo aspecto da prateleira. Mas, tênue, senti o antigo parafuso espetar minha mão. Olhei-o.
O havia trocado sem qualquer pudor. Afinal, o parafuso novo fará a exata função deste velho que me não serve mais. Nada sinto por ele. Nada, pois todos os parafusos me são o mesmo. Uma única coisa, todos eles: a ideia de que servem para fixar. Assim, este pobre parafuso que arranquei de seu lugar pôde logo ser reposto por um mais novo e aprazível.
E por que haveria de ser diferente?
Nunca teve este mísero parafuso algo de idiossincrático. Nunca teve este parafuso um jeito característico com o qual ajeitava os cabelos por detrás das orelhas, casualmente. Nunca me desferiu este parafuso um sorriso com uma configuração única de dentes (tampouco me cravou a carne do pescoço com a mesma). Nunca sonhei deitado ao lado deste parafuso. Nunca ouvi seus segredos, ou segredei-lhe a minha própria intimidade. Nunca tive, em meus lábios tristes, o sabor de sua mágoa. Nunca o tive enquanto em pranto, nos meus braços, em uma tarde qualquer de maio (tampouco fui eu a causa deste pranto suposto). Nunca me foi ele senão uma utilidade sem alma, substituível, descartável, barata, esquecível. Nunca me poderia deixar um espaço vazio na parede, pois posso comprá-lo a qualquer momento na loja de ferragens, pela bagatela de trinta e cinco centavos.
Um parafusinho de merda. Sujo. Feio. Nada.
E numa comoção repentina e exagerada, envergonho-me e enraiveço-me ao divagar acerca das vezes que pensei, porcamente, que eram não mais que parafusos em minha vida as vivalmas com as quais partilhei de tudo quanto é ausente nas coisas substituíveis.
Vivalmas! Cabelos, dentes, sonhos, mágoas, amores... Vivalmas! Removi-as...
Mas a elas não há peça de reposição.
O vazio do espaço onde um dia se encaixaram me permanece vazio, a despeito de outras peças análogas com quais tentei compensá-las, sem nunca obter, porém, senão novos espaços cravados em lugares distintos.
O que restou: buracos impreenchíveis em minhas paredes internas.
E a ausência dói eternamente.
E os buraquinhos perenes me fazem frouxo.
E eu, ridículo, sujo, encrostado de ferrugem na alma, fico olhando para o velho parafuso, com o pranto constipado, enroscado na garganta.
Mariano.Edimar
Saúde Mental, depoimentos!
Num passado não muito distante, a gente era tratado feito bicho, e às vezes muito pior do que lixo, nos manicômios horripilantes;
A reforma psiquiátrica foi um avanço salutar, mas a mente dos preconceituosos, Ah! Essa é difícil de transformar;
Se uma perna está quebrada ou a cabeça está doendo, todos sabem o que fazer, mas quando digo que estou doente, Ah! Isso é falta do que fazer;
Sempre fiquei à margem da sociedade e você não sabe o quanto isso me dói, ser praticamente invisível é como um câncer que corrói;
Nós também somos "normais", a gente brinca, a gente ama, a gente sorri, a gente chora e, pasmem vocês a gente também sonha, mas o que nos mata sempre um pouquinho é ser para muitos uma vergonha;
Frequentar o Caps é cada dia melhorar um pouco, mas se me vêem saindo daqui, sou logo chamado de louco;
Aqui tem Horta, aqui tem grupos e vários recursos interessantes, e quer saber o que considero mais pertinente? É que para além de tudo isso, aqui ninguém me olha diferente;
Sair de casa, fazer novos amigos, ter um tempo para espairecer, oh! Como é bom esse ambiente! E o que nos deixa bem mais feliz é ser tratado como gente;
Desde o dia em que cheguei ao CAPS em mim brotou uma semente, e hoje meu compromisso é cuidar da minha mente;
Sonhar, sorrir, fazer acontecer, parece que tudo isso tinha ficado para trás, mas se você me der a chance hoje eu lhe mostro do que sou capaz.
Thaís Fontenele
Versailles
A poesia de JRUnder
Soneto ao esquecimento.
Esqueci de esquecer que te amava,
paola_
dermatilomania
me pego olhando pra ela
a vontade começa a aumentar
passo os dedos
e sinto que a casca está no ‘ponto’
sei que não é sadio
e por alguns instantes hesito
quando lembro das marcas
nas pernas
nos braços
no rosto
até desanimo
mas é difícil lutar
com aquilo que não se entende
tenho vergonha!
tento esconder
me cobrir
mas isso não me impede
em continuar a me ferir
Thaís Fontenele
A desordem comum
asliddell
Metamorfo
casa vi um rio que brilhava.
Enquando a luz o batia,
seu hidrogênio piscava
e parecia tremer quando
eu toquei sua água.
Minh'epiderme oscilava,
mas nada podia pará-la,
meu âmago borbulhava
um fervo de água gelada,
meu corpo se dissipava,
eclosão bizarra,
meiose contrária,
forma não-binária,
a célula bastarda,
na água findava e
rompia os gomos
da carne abstrata,
se fazia de novo a
uma nova espécie
humana com asas.
Não éramos anjos,
não éramos fadas,
éramos mundanos
de almas renovadas.
manaira
Fraturas
Há decerto uma oportunidade mais própria,
Uma porta do nosso tamanho
Com um tapete limpo a frente.
Por sobre as sombras de arvores-mães
O vento já desfolha
Os sentidos do amanhã.
Hoje a possibilidade mais próxima
É recolher-se ao sereno
De praças enfeitadas de crianças.
Português
English
Español