Escritas

Eu, morto de fome

João de Castro Sampaio
É de assaz importância
Ressaltar que,
No inverno do corrente ano,
Eu decidi morrer de fome.
Mas isso já foi colocado no papel
Mais de cinco vezes, mas eis
Aqui a sexta tentativa,
Pois este é um tempo que me tem 
Negado até mesmo o direito de
Morrer como Homem.
Ademais, não sou melhor do que
Você: nunca fui melhor do que 
Ninguém. Acabo sempre sendo o mais
Acomodado. Talvez não por minha culpa
Nunca por falta de esforço ou de vontade.
Sempre termina dessa forma.
Agora, os outros já vieram e passaram,
Mais uns outros estão por vir.
E se os primeiros me enterraram,
Os próximos pisarão em cima de mim.
Já não era tão útil, e ainda
Por cima, transformaram-me num cão
E me deixaram largado nesse frio chão.
E foi assim que eu morri:
Como os antigos poetas que eu conheci!
402 Visualizações

Comentários (0)

Iniciar sessão ToPostComment