Escritas

Lista de Poemas

Retrato de uma jovem

É apenas a forma que tens de me olhar,
sem que eu dê por isso, como se entre mim
e ti o espaço não contasse; ou é
o risco no cabelo, antes de chegar à trança,
indicando o caminho para o sonho
em que nos abraçamos; ou é o teu sorriso,
num esboço de algo que se perdeu
entre um e outro café, por entre
perguntas e conversas; ou é o fundo
dos teus olhos em que adivinho
a noite, e tu me dizes que
o dia está para nascer; ou
são as tuas pálpebras, em que me
escondes a inquietação com que
fechas os olhos, quando as certezas
do coração te ferem; ou és tu,
no puro instante em que te vejo,
e só tu existes.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 108 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Uma imagem

Um rosto é feito de acordo com uma ciência,
que não é exacta nem dura como a que se estuda
nas escolas. A sua forma é feita de tempo,
e nos seus traços se moldam os gestos
de que uma vida é feita. Por vezes, há palavras
que nascem da cor que o acompanha, de manhã,
quando o sol o envolve; de outras vezes,
podemos ver o silêncio que se imprime
em volta dos olhos, quando a noite deixa
marcada a sua sombra. E no rosto em que leio
a matéria da primavera, soletrando cada sílaba
com a sua música de aves despertas,
descubro a imagem que me deixaste, uma tarde,
quando as aparências se desfizeram
sobre a mesa, e as tuas mãos se tornaram
a única realidade do mundo.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 105 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Jane com uma boneca japonesa

Entre o escuro das meias e o branco
da combinação, a coxa de Jane situa-se
no enfiamento dos ombros, ao contrário
do seu olhar de perfil, fixo na boneca
japonesa que ela se prepara para limpar
com o algodão seguro nos dedos. Há
algo de decidido no seu gesto, que
contrasta com a fita cor de rosa da
combinação, caída sobre a cadeira
de verga. A esse abandono contrapõem-se,
porém, os pés calçados, como se
tivesse interrompido a toilete para
se ocupar da boneca. Terá acabado
o seu dia? Ou limita-se a olhar a figura
de porcelana, com que ainda brincou, sem
reparar que um caracol se soltou do
cabelo para pontuar o início
do seio com uma interrogação
que oferece a quem, de súbito,
descobre a linha perfeita da perna
que as meias escondem, e revelam?
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Debaixo das bétulas

Na hora amarela do bosque, apanham
flores, passando o tempo. Esperam-nas
em casa; mas elas não pensam nisso,
falando uma com a outra, e sabendo que
o almoço pode esperar, enquanto enchem
os bolsos de pétalas perdidas. Um pássaro, com a
melancolia do fim da tarde, começa a cantar; e
elas nem o ouvem, entretidas com a primavera
que nasce debaixo delas, e que insistem em
apanhar, para a levarem para casa. «A mesa
vai ficar bonita com estas flores.» Oh, as
suas vozes enchendo o campo! Dir-se-ia uma
cena de ninfas, só faltando os faunos para
lhes saltarem às costas, obrigando-as a
esvaziar os bolsos, e a devolverem à terra
as suas flores. Mas os passos que ouviram
dissipam-se na distância; e impõem uma
à outra o silêncio, para que se cansem
de as esperar e se vão embora, e em casa
deixem de pensar nelas, como se já não fossem
deste mundo. «Que importa?», pensam. E a noite
cai, sem que dêem por nada.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 93 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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A arte da melancolia

O olhar desloca-se para as rosas que estão
em primeiro plano, como se tivessem sido acabadas
de colher. A mulher, porém, tem outras
flores na mão; e obriga-nos a hesitar entre o pote
de onde nascem as rosas e o colo em que pousam
as flores. Trata-se de uma hesitação breve,
porque logo o seu rosto leva-nos a divagar
acerca da paisagem. Vemo-la ao fundo,
num semicírculo que tem a forma perfeita
do seio que o vestido esconde, e se poderia
confundir com uma visão do paraíso se
a mulher nos aparecesse como um anjo. Mas
não tem asas; e o seu corpo empurra para
longe a transcendência, mesmo que o seu rosto
se perca numa vaga tristeza que as flores
caídas acentuam. No entanto, se em vez desse
mórbido acento me fixar no brilho das primeiras
rosas, posso transferir a cor das pétalas
para cada uma das faces, e ela levantar-se-á
com uma pose de anjo, transformando
a paisagem, ao fundo, na imagem do paraíso.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 96 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Dia nascente

Ao comparar as flores douradas do sol
com um fruto alucinado, de grainhas de fogo
e polpa de pele, encontro a imagem
da mulher que acorda, lançando para o céu
um olhar que só os deuses recebem.

Neste exercício retórico, abraço o sentimento
da eternidade que ela me dá, por instantes, como
se o seu rosto permanecesse na quietude
que os sonhos transportam, quando a noite
não os enche com a sua nuvem de ocaso.

E levo comigo estas sensações, como um ramo
abstracto que a água do tempo irá alimentar,
para que os lábios que a mulher entreabre
sejam a fonte de onde irá nascer o sumo
que embriaga e alimenta a vida



Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 107 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Carta de Orfeu a Eurídice (4)

Nessas tardes em que despias o coração, e mo
entregavas num gesto de orvalho primaveril, o calor
de um sorriso de olhos fechados atravessava-me
a alma, e misturava-se com a terra húmida
das sensações. Podia dizer-te: este é o pólen que nenhum
insecto poderá roubar da corola onde se fabbrica o éter
do amor; e ouvir o teu riso, dissipando um temporal
de emoções. Nós éramos um - e essa unidade dividia-nos,
quando no seu interior estremecia uma hesitação,
corrompendo o espanto do outro.

Porque não pôde ser assim, sempre, e a ilusão
se dissipou como se uma corrente de ar tivesse atravessado
o quarto, levando com a sua passagem o brilho que
os teus lhos me davam? Ou não existe já, esse amor,
nalgum compartimento do caminho que nos abre
a agonia da ausência? Tu,
na decisão do teu silêncio; e eu, escudado pelo vazio que
envolve os seres que a vida rejeita. Mas que outras provas
querias? Só o teu nome, repetido na clausura
do inferno? Ou a secura dos lábios que o dizem, como
se a palavra não absorvesse o doce bálsamo
do teu corpo?

Vê o que ouso: esta vontade de perecer,
um sonho de eternidade, a ilusão do encontro
para além do humano, onde os deuses se
dissipam com a primeira luz do dia. Falo de mim, então,
como se o meu tempo fosse outro; rompo as fronteiras
que o divino impõe, e essas que eu próprio me coloco,
seguindo o caminho de um astro hostil. Alinho
na berma todas as perguntas que não voltarão a ter resposta: Onde estás? Que negra cortina desceu
sobre o passeio de onde eu te via chegar, enquanto a esplanada
se enchia com os nómadas estivais? Quando voltarei a ouvir a tua voz cansada, agora que um lamento
de pálpebras se sobrepõe a esse fogo de artifício que
batia contra as janelas do norte?

Mas é outro movimento de raízes. Empurra-as
uma fermentação de fogo na fulgurância dos campos. Lembras-te?
O sémen que escorre pela pedra, enquanto o teu rosto
se transforma - ó amante melancólica do outono,
por quem os sinos chamam, e cuja beleza escorre numa pele
de nuvem, encobrindo a tristeza que adivinho
numa súbita inflexão de voz. Falo, por fim, da medida
das palavras: o que te obriga a cortar este tempo que nos resta
com a lâmina do desânimo? Possuí-te sobre a pedra
da vida, limpando o musgo das convicções; e é aí
que te reencontro, como se o céu mantivesse o azul,
imóvel, sugerindo a harmonia do presente.

Falo-te, ainda, ó última das mulheres amadas, como
se me pertencesses! E um sabor de cinza nasce do silêncio
que me responde.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 52 a 54 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018









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Banhista de costas limpando-se com toalha

Adapta-se à paisagem como se fizesse parte dela,
pedaço de natureza, ou simples pormenor de
litoral. Também podia ser uma gaivota em busca
de repouso, esculpida pelas mãos de um deus
provisório. Ou uma sereia transformada em
mulher, num afloramento líquido por entre
rochedos invisíveis. À sua frente, o mar
oferece-lhe o abrigo do seu abismo; mas
ela hesita em avançar, esperando que
a maré se torne propícia, ou que o sol atinja
o zénite para que os seus cabelos fiquem
no ponto exacto de um prumo de luz. E
o seu corpo brilha quando ela o limpa
de sombras, oferecendo-se ao vento que
a empurra para o horizonte, como se fosse
um barco de velas desfraldadas, sem
outro destino para além do coração do dia.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 79 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Primavera

Tem na cabeça um curso de história de arte, mas
quando as flores começam a abrir à sua volta, e
os ramos da árvore se agarram a ela, como braços
obscenos, liberta-se das preocupações teóricas e
oferece o corpo à vista do pintor, para que ele
o transforme numa alegoria da manhã. Entre ela
e o seu corpo, então, surge um conflito que não
consegue resolver: será a mulher do quadro mais
real do que ela? E terão aquelas flores o perfume
que ela respira, enquanto espera que o pintor
termine o seu retrato? As ideias que lhe passam
pela cabeça esvaziam-na de sentimentos; e pode
olhar friamente para aquela situação, pensando
que o próprio pintor se limita a executar o
que vê. Mas aquilo que está em frente dele
é ela; e quando ele se cansa, pousa os pincéis,
e arruma a tela para o fundo do atelier,
resta-lhe vestir-se, receber o que ele lhe
deve, e voltar à sua vida. Porém, já não é
a mesma coisa; e não se esquece da mulher
deitada num canto, respirando o perfume de um
jardim que vai secando, com o tempo, e que
sabe mais do que ela sobre o que é o destino
de quem entregou o seu corpo a quem não soube
o que fazer com ele, depois de o pintar.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 91 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Um doce bilhete

Não sei o que lê; mas atravessa a sala
como se o olhar a empurrasse em direcção
ao céu, onde a espera um destino de nuvem.

E demora-se na travessia das palavras
para a imagem, perdendo-se num beco
de bruma que a impaciência dissipa.

Os seus dedos desenham uma arquitectura
de sensações com o lápis do sonho,
riscando o rosto da melancolia.

E a areia do tempo escorre pelo seu
corpo, levando atrás dela o desejo
que a prende ao papel.



Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 78 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Comentários (5)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-12

Grande Poeta e romancista .... estes então das mulheres loucas é admirável.

Nalva
Nalva
2022-02-11

Eu sou apaixonada pela poesia de Nuno Júdice, magnífico!

Francisca
Francisca
2020-03-12

Bons almoços q partilhei com este senhor, eram reais banquetes.

kj
kj
2020-02-18

alguem que diga as caracteristicas psicologicas dele

João Baptista
João Baptista
2018-02-25

alguem pode analisar o tema e o assunto deste poema, também oxímoro e outros?