Poemas nesta obra
Definição I
Quem esquece o amor, e o dissipa, saberá
que sentimento corrompe, ou apenas se o coração
se encontra no vazio da memória? O vento
não percorre a tarde com o seu canto alucinado,
que só os loucos pressentem, para que tu
o ignores; nem a sabedoria melancólica das árvores
te oferece uma sombra para que lhe
fujas com um riso ágil de quem crê
na superfície da vida. Esses são alguns limites
que a natureza põe a quem resiste à convicção
da noite. O caminho está aberto, porém,
para quem se decida a reconhecê-los; e os próprios
passos encontram a direção fácil nos sulcos
que o poema abriu na erva gasta da linguagem. Então,
entra nesse campo; não receies o horizonte
que a tempestade habita, à tarde, nem o vulto inquieto
cujos braços te chamam. Apropria-te do calor
seco dos vestíbulos. Bebe o licor
das conchas residuais do sexo. Assim, os teus lábios
imprimem nos meus uma marca de sangue, manchando
o verso. Ambos cedemos à promiscuidade do poente,
ignorando as nuvens e os astros. O amor
é esse contacto sem espaço
o quarto fechado das sensações,
a respiração que a terra ouve
pelos ouvidos das trevas.
O homem de Munique
Quem és tu?
num poema que se estuda nas escolas
e se lê em recitais,
tu que te limitaste a ser amada
por um poeta que, se calhar, mais
não te deu em troca do amor
do que esse poema que tu, se calhar,
nunca chegaste a ouvir? Quem és,
ó mulher mais real do que esse
poeta que te cantou, e de cuja vida
ninguém sabe nada - a não ser
que te amou, e te deitou nesse
poema em que ainda vives, e respiras,
como no dia em que ele o escreveu
lembrando-se do teu corpo, e dos
teus lábios, e dos dias, ou noites,
que contigo se passaram? Quem és,
mulher real e sonhada que habitas
todos os poemas que esse poema
inspirou, e todos os sonhos que
nessa bárbara encontraram uma imagem
nesses versos, para que te vejamos
o rosto, e diz-nos o teu nome - o nome
autêntico, e não esse que o poeta
inventou para te chamar num poema
que de ti só guarda o segredo;
e adormece, depois, esquecendo
o que de ti disseram, e os comentários
de que foste o pretexto, e as imagens
em que, cada vez mais, foste perdendo
a tua, e única, imagem.
Sétimo dia
da memória. Ao fundo, a janela abre-se
para deixar entrar a luz do dia: e só uma névoa
branca invade o quarto, salta para o corredor,
avança até às escadas que alguém desceu, outrora,
sabendo que nenhum patamar o esperava.
Encontro um esquecimento cego nos bolsos;
Um fogo consumiu o horizonte; um desejo de absurdo
percorre as cinzas, com brilhos de chama. Porem,
se nada me traz o cheiro de um bosque primaveril,
quando o ar esta seco e uma transparência inicial
invoca o mistério da manha, dou comigo
a desfazer a folha ressequida que caiu do livro
há muito fechado: e um pó abstrato junta-se
a estes restos que o tempo me trouxe.
Tu, imóvel aparição, interpões-te
entre os vultos matinais da casa. A tua sombra
confunde-se com os contornos de um atlas
familiar, conduzindo-me no rumo de um amor
antigo - como se essa navegação tivesse portos
e ilhas...
Chamo-te. Um murmúrio de luz,
por instantes, coincide na ilusão de uma
resposta.
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