Escritas

Lista de Poemas

Rosa

Podia esquecer tudo o que me disseste, ouvir
o canto do pássaro que passou nesta sala,
respirar o perfume do jardim que entra pela
janela, olhar para fora de mim, para aquilo
a que chamam o mundo. No entanto, o que
tenho pela frente são as lembranças que
procurei esquecer, a imagem de que não me
libertarei, a voz que ecoa na minha
memória, dizendo o nome tantas vezes
murmurado. E encosto-me a este instante,
contando o tempo que falta para que a
luz desapareça, e a noite me traga
o silêncio de onde nascem os sonhos.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 77 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018



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Ao cair da noite

No banco do jardim, como numa sala de espera,
pergunta se alguém virá para a buscar, antes
que a noite chegue. E eu, do outro lado do tempo,
abro o caderno para lhe escrever: «Um dia
saberás o que disseram todas as cartas
que não abriste; e perante o vazio a que
a tua vida se resume, responderás que
pouco importa o tempo, quando a eternidade
te cobriu com a sua noite, há muito.»
Depois, vou ao correio. «Esqueceu-se
de pôr a morada», diz-me o empregado.
«Não sei para quem escrevo», digo-lhe.
E meto na caixa o envelope em branco
para que alguém, um dia, o descubra num
fundo de posta restante. E ao ler o que
lhe escrevi, talvez se sente num banco
de jardim, pouco antes da noite, pensando
no que é a vida em que todo o futuro se
fixa nesse instante que não chegou a ser.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 87 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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A mulher das flores

No meio das flores, a mulher encontra o
movimento de rotação da árvore; e à sua volta
as pétalas caem, numa rotação de corolas
de que ela é o centro.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 83 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
👁️ 1 096

Proserpina (variante)

É na terra que se encontra a matéria do poema,
sob estes dedos que afastam pedras e ramos para chegar
à raiz das coisas, mesmo que um carreiro de formigas
se meta pelo meio, ou ervas mortas saltem de dentro
de torrões. Ao fundo, onde as amigas conversam
de assuntos da vida, e uma lembrança de cidade rompe
o hímen da natureza, o céu fecha a estrofe; e
não é preciso procurar um rasto de avião por entre
as nuvens para saber que o horizonte não existe,
ou que a terra é tão redonda como este fruto
que a mulher colhe, com os olhos, ao pensar que o seu corpo
se poderia transformar em árvore. Neste inverno,
porém, limita-se a examinar os caminhos de deus,
que se metem pela terra, como a água da chuva; e desejaria
segui-los, até ao mais fundo dos subterrâneos,
oferecendo o ventre a uma gestação de primavera. As amigas,
porém chamam por ela; e lembram-lhe que o seu lugar
não é entre os mortos, mas nesse ângulo que toca
a luz nascente, onde ela vê a primeira paisagem
do dia, e as modificações que se fazem no mundo quando
sacode as mãos, e regressa à vida.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 94 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Ouvindo o violino

Com o pé na cadeira, prepara-se para se
vestir; e o homem do violino nem repara que
ela está em cima da mesa, onde ainda ficou
a garrafa que ele quase esvaziou, até
ela lhe pedir que tocasse, enquanto
se veste para a noite de S. João. Aí,
nas aldeias junto aos lagos, as raparigas
fogem para as florestas, à espera do escuro
que não há-de chegar; mas não é para isso
que ela se veste. A sua juventude esvazia-se,
como o vinho na garrafa; e ao olhar para
o músico, o que ela pensa é se ele não
será uma pura abstracção, inventando a melodia
que ela gostaria de ouvir. E também poderia
sair atrás dele, para o meio da floresta onde
iria acender uma fogueira, antes que as amigas
chegassem. Mas a roupa que tem não serve
para uma festa; e o cabelo curto descobre-lhe
o pescoço, que a luz envolve, embora o
homem do violino não se preocupe com
a sua presença. Assim, ela sairá de cima da
mesa, deixando-o acabar a sua peça; e
meter-se-á na cama, enterrando os olhos
na almofada para não ver o sol que ainda
entra pela janela, depois do dia acabar, e
de todas as amigas se perderem na floresta.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 88 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
👁️ 1 023

Nu

Transforma-se num objecto místico se
a puser por trás da imagem da deusa; ou
talvez seja ela própria a deusa que
espera o altar, para que a celebrem
sob a tumultuosa doçura dos sentidos.

A sua boca saboreia as palavras
do amor; e vejo-lhe no rosto
um frémito de satisfação, que
lança à terra como semente, ou
simples desejo de primavera.

Corre por dentro dela o vinho
do instante; e recolho-o na taça
do poema, para que ela o beba
na embriaguez da noite, quando
se libertar do lençol que a cobre,
e abrir o seu corpo aos viajantes
do sonho.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 80 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
👁️ 1 235

Estudo de mulher

Esta mulher simplesmente deitada, e colhida com
a colher da tarde, é o fruto que ficou na árvore onde
os pássaros o procuram, e passam de lado, como se
o não sentissem. É o fruto que me resta olhar, com
a sua pele tecida pelos ventos do verão, e a polpa
a sair, como se a terra estivesse pronta para a
receber. Estendo-a com a sua frescura de nuvem,
que pinto com a cor tensa do amanhecer, ouvindo
a música dos seus lábios descer-me para o fundo
da alma, onde lhe dou a guarida dos amantes. É
ela o centro da cedilha que ponho no intervalo
de cada frase, para que um sopro de silêncio se
instale no coração da primavera. E se um
murmúrio o rompe, levem-no os ouvidos em que
pousou, para que alguém o repita, e noutros
lábios se faça o que aqui se vê, e já passou.

Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 73 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
👁️ 1 225

Guia

Irei bater-lhe à porta; e se não me abrir,
repetirei o abecedário das suas mãos, deixando
em cada um dos dedos a cor das vogais que
os seus lábios me ensinaram.

Falar-lhe-ei ao ouvido; e se não me ouvir
farei com que este segredo lhe escorra pelos
ombros, como a lágrima obscura da lua
que ilumina o seu rosto.

Mostrar-lhe-ei o caminho; e se não o vir,
fá-lo-ei sozinho, ouvindo os seus passos atrás
de mim, como se me seguisse, guiando-se
pelas vogais que espalhámos pelo campo.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 101 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
👁️ 647

A caminho da feira

Deito à sorte a sorte que se abre
nas mãos da cigana que lê as cartas
como se fizesse um comércio de destinos.
Pergunto-lhe quanto pode custar
um amanhã que seja igual a ontem;
e ela fala-me das sinas impopulares,
dando-me o tempo que eu quiser como
simples troféu para meter no bolso (e
perder na primeira esquina). Por baixo dela,
as sombras escondem-se; e eu próprio
procuro a minha nos folhos da sua saia,
para onde caem todos os fantasmas que
saltam dos seus olhos. Mas a música
trazida pelo vento começa a inquietá-la;
e espera que passe a carroça que a há-de
levar à feira, onde os homens se irão
juntar à sua volta. «Diz-me o que vou ser»,
perguntam; ou então: «Será este um dia bom
para os negócios?» Ela não abre a boca, e
tira das cartas todas as respostas que eles
pedem, enquanto não pedem a sua boca.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 95 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Sónia de meias brancas

Ei-la, surgindo de um rebordo de cadeira,
como se fosse a onda que brota da mais nua
madrugada, ou lua despertando de um sonho
de salgema. De que navio afundado
foi a figura de proa? Em que brando rochedo
soltou o seu canto de sereia? Colho o fogo
ruivo dos seus cabelos; e desfaço-os,
para ninho de floridas serpentes, ou
ramo de pássaros com asas de algas. E
ela envolve de perfume o horizonte
dos seus braços, imóvel como o círculo
que o seu rosto desenha. Um dia, vê-la-eis
desaguar num frémito de estuário;
e a sua boca abrir-se-á num murmúrio
de maresia, oferecendo ao sol
a fria falésia do seu corpo.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 86 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Comentários (5)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-12

Grande Poeta e romancista .... estes então das mulheres loucas é admirável.

Nalva
Nalva
2022-02-11

Eu sou apaixonada pela poesia de Nuno Júdice, magnífico!

Francisca
Francisca
2020-03-12

Bons almoços q partilhei com este senhor, eram reais banquetes.

kj
kj
2020-02-18

alguem que diga as caracteristicas psicologicas dele

João Baptista
João Baptista
2018-02-25

alguem pode analisar o tema e o assunto deste poema, também oxímoro e outros?