Lista de Poemas
O ídolo, de costas
O ídolo, de costas.
Não é o tempo de acreditar em ídolos,
é senti-los esvoaçar no fantástico.
Voltando-se, devagar.
Nada mais resta.
Tudo está caído pelo chão,
como uma alma morta e ausente
a sentir nos ouvidos a música de ontem.
A pedra, o monumento.
A figura geométrica sobre um papel.
As palavras em leque,
imagens de feiras perpassadas de nevoeiro.
O amigo.
De costas, voltando-se devagar.
Do seu rosto pendem flocos de neve,
e nos seus olhos vibra a música sem sentido.
Estendo a mão, plano.
Nada.
Tudo está acabado,
a caminho de uma grande manhã.
É uma névoa que está na noite.
É um fantasma alado sem olhos e sem braços,
colhendo pétalas de flor de lótus.
É uma criança olhando o poente,
um prado com uma ponte.
A estátua e a estrada para o além,
ladeada de árvores e retiros familiares.
Tudo permanece em movimento.
O chão, as casas.
O plano e o tempo.
O ídolo,
cravando os seus olhos de barro
em teatros mágicos.
Tudo permanece encerrado em si mesmo.
Tudo concentrado em tudo.
Os sons, com braços de outros corpos,
o mar, com reflexos de outras coisas...
O ídolo, a pedra e a memória.
Os horizontes transmutados.
A permutação de tudo.
Fora um pequeno ramo, que baloiça devagar.
Não é o tempo de acreditar em ídolos,
é senti-los esvoaçar no fantástico.
Voltando-se, devagar.
Nada mais resta.
Tudo está caído pelo chão,
como uma alma morta e ausente
a sentir nos ouvidos a música de ontem.
A pedra, o monumento.
A figura geométrica sobre um papel.
As palavras em leque,
imagens de feiras perpassadas de nevoeiro.
O amigo.
De costas, voltando-se devagar.
Do seu rosto pendem flocos de neve,
e nos seus olhos vibra a música sem sentido.
Estendo a mão, plano.
Nada.
Tudo está acabado,
a caminho de uma grande manhã.
É uma névoa que está na noite.
É um fantasma alado sem olhos e sem braços,
colhendo pétalas de flor de lótus.
É uma criança olhando o poente,
um prado com uma ponte.
A estátua e a estrada para o além,
ladeada de árvores e retiros familiares.
Tudo permanece em movimento.
O chão, as casas.
O plano e o tempo.
O ídolo,
cravando os seus olhos de barro
em teatros mágicos.
Tudo permanece encerrado em si mesmo.
Tudo concentrado em tudo.
Os sons, com braços de outros corpos,
o mar, com reflexos de outras coisas...
O ídolo, a pedra e a memória.
Os horizontes transmutados.
A permutação de tudo.
Fora um pequeno ramo, que baloiça devagar.
👁️ 231
Outono revisitado (1993)
Imagino pomares em que os ramos pendem pelo peso dos frutos,
poentes calmos depois de uma tarde ligeira,
não obstante um labor talvez pesado.
Imagino o canto atarefado de aves que esvoaçam,
procurando o abrigo que lhes está reservado.
O amanhã é longínquo como o ontem
mas agora há uma noção suave de regressar ao lar.
E eu sei que esse instante não durará sempre,
será esquecido, será perdido.
Os frutos cairão de podres,
ouvir-se-á falar de parasitas
e os ramos tombarão sobre as ervas daninhas.
Os poentes tomarão tonalidades novas,
mas ninguém estará lá para limpar o suor do rosto.
Nem o lar será mais o que fora outrora.
Aves esvoaçam, sim,
como um elo elemental ligando o passado ao futuro
ou o presente ao passado.
Eu, como um fantasma vivo, observo as árvores,
absorvo o poente e os frutos ao redor de mim
e desconheço profundamente o rumo e o destino
deste teatro tão real...
poentes calmos depois de uma tarde ligeira,
não obstante um labor talvez pesado.
Imagino o canto atarefado de aves que esvoaçam,
procurando o abrigo que lhes está reservado.
O amanhã é longínquo como o ontem
mas agora há uma noção suave de regressar ao lar.
E eu sei que esse instante não durará sempre,
será esquecido, será perdido.
Os frutos cairão de podres,
ouvir-se-á falar de parasitas
e os ramos tombarão sobre as ervas daninhas.
Os poentes tomarão tonalidades novas,
mas ninguém estará lá para limpar o suor do rosto.
Nem o lar será mais o que fora outrora.
Aves esvoaçam, sim,
como um elo elemental ligando o passado ao futuro
ou o presente ao passado.
Eu, como um fantasma vivo, observo as árvores,
absorvo o poente e os frutos ao redor de mim
e desconheço profundamente o rumo e o destino
deste teatro tão real...
👁️ 250
Sorriso medieval
Sorriso medieval estático
a vibrar por dentro das cores
e um gesto hierático
desdobrando-se em diversos amores.
O rio e a floresta
bastante longe disto.
Os ecos de uma festa
em que se escolhe um Cristo.
E a montanha e a neve,
suores cristalizados de um teatro passageiro;
um sonho brusco e leve
mas que nos surge inteiro.
Um arrastar de asa dormente
de um réptil estelar,
a interjeição que persiste na mente
na hora de acordar.
E um riso. E um grito.
Desmaterializar a vida.
Fazer parte do mito
de uma espécie perdida.
Ave voando sobre o mar,
vento inclinando as árvores muito,
o sol outra vez a brilhar
e um silêncio furtuito.
Há um musgo a bater na filha,
sorvendo a vida com grandes colheradas de açucar
e preto-verde à beira-mar
como devem ser todas as algas
à beira-mar,
com um casaco de pescador sobre os ombros
e um cachimbo a flutuar nas marés,
com a voz dos afogados,
das estrelas marinhas,
e de todas as crianças famintas, com as mãos estendidas
a pontuar o luar...
a vibrar por dentro das cores
e um gesto hierático
desdobrando-se em diversos amores.
O rio e a floresta
bastante longe disto.
Os ecos de uma festa
em que se escolhe um Cristo.
E a montanha e a neve,
suores cristalizados de um teatro passageiro;
um sonho brusco e leve
mas que nos surge inteiro.
Um arrastar de asa dormente
de um réptil estelar,
a interjeição que persiste na mente
na hora de acordar.
E um riso. E um grito.
Desmaterializar a vida.
Fazer parte do mito
de uma espécie perdida.
Ave voando sobre o mar,
vento inclinando as árvores muito,
o sol outra vez a brilhar
e um silêncio furtuito.
Há um musgo a bater na filha,
sorvendo a vida com grandes colheradas de açucar
e preto-verde à beira-mar
como devem ser todas as algas
à beira-mar,
com um casaco de pescador sobre os ombros
e um cachimbo a flutuar nas marés,
com a voz dos afogados,
das estrelas marinhas,
e de todas as crianças famintas, com as mãos estendidas
a pontuar o luar...
👁️ 221
Viajo
Viajo sobre uma linha recta sem princípio nem fim, que separa a loucura do mundo da razão. Ao caminhar pela vida, os meus pés pisam
alternadamente um e outro lado, num esforço permanente para manter o equilíbrio.
Mas, ao caminhar sobre esta linha como um funâmbulo, já não sei de que lado é o abismo mais profundo, nem sei se os abismos, reais ou
imaginários, estão para baixo ou para cima de mim.
Para preservar a sanidade mental que me resta, tenho que admitir a existência do cinzento, do meio termo, não obstante a minha inclinação
para pensar a preto e branco: as coisas ou são ou não são; se não são verdadeiras então são falsas, se não são reais então são imaginárias. As
tonalidades das cores serão para os poetas, naquela desmedida ânsia que também é a minha, de imitar o fantástico.
Porque a realidade é absurda, e o absurdo é real.
Aonde está a escuridão pode entrar a luz, mas onde está a luz não pode entrar a escuridão.
O meu destino humano é caminhar sobre aquela linha, sem saber de onde vim nem o que encontrarei amanhã; mas sei que é necessário
manter um passo firme e certo, sem fitar os abismos, sem temores irracionais nem vertigens de espanto.
Arde em mim um profundo sentido de mortalidade, sabendo no entanto que a minha essência é imortal.
alternadamente um e outro lado, num esforço permanente para manter o equilíbrio.
Mas, ao caminhar sobre esta linha como um funâmbulo, já não sei de que lado é o abismo mais profundo, nem sei se os abismos, reais ou
imaginários, estão para baixo ou para cima de mim.
Para preservar a sanidade mental que me resta, tenho que admitir a existência do cinzento, do meio termo, não obstante a minha inclinação
para pensar a preto e branco: as coisas ou são ou não são; se não são verdadeiras então são falsas, se não são reais então são imaginárias. As
tonalidades das cores serão para os poetas, naquela desmedida ânsia que também é a minha, de imitar o fantástico.
Porque a realidade é absurda, e o absurdo é real.
Aonde está a escuridão pode entrar a luz, mas onde está a luz não pode entrar a escuridão.
O meu destino humano é caminhar sobre aquela linha, sem saber de onde vim nem o que encontrarei amanhã; mas sei que é necessário
manter um passo firme e certo, sem fitar os abismos, sem temores irracionais nem vertigens de espanto.
Arde em mim um profundo sentido de mortalidade, sabendo no entanto que a minha essência é imortal.
👁️ 228
Algures há um caminho empoeirado
Algures há um caminho empoeirado,
de um pó feliz, voando em turbilhões.
Feliz porque ignora as multidões,
porque é das gentes frias ignorado.
Nele vagueia um Deus amortalhado,
porque, cansado de tantas ilusões,
o Homem já não crê suas visões,
já não concebe um Ser crucificado.
Mas Ele existe, e é grande a sua história,
porque até mesmo p'ra criar este mundo de escória
foi necessário um Ser de dons supremos.
O tal caminho já o perdeu a Humanidade.
Fica muito longe, na terra da verdade,
e nele habita um Deus. Aonde ? Não sabemos !...
de um pó feliz, voando em turbilhões.
Feliz porque ignora as multidões,
porque é das gentes frias ignorado.
Nele vagueia um Deus amortalhado,
porque, cansado de tantas ilusões,
o Homem já não crê suas visões,
já não concebe um Ser crucificado.
Mas Ele existe, e é grande a sua história,
porque até mesmo p'ra criar este mundo de escória
foi necessário um Ser de dons supremos.
O tal caminho já o perdeu a Humanidade.
Fica muito longe, na terra da verdade,
e nele habita um Deus. Aonde ? Não sabemos !...
👁️ 236
Os tambores já há muito se calaram
Não, os tambores já há muito se calaram
este batuque que oiço e do qual faço parte
é imaginação apenas
eu queria comprar o infinito
-louco, porque ele só dado é bom-
queria não ter nada por descobrir
e vejo coisas estranhas quando olho à minha volta
-vejo tardes de vida insubstancial,
perigosamente intensa e alheia.
Olha, amigo,
tu és tanto que és nada para mim,
um clarão tão violento que apenas vejo azul,
sonho tão forte, tão brusco, tão total,
e descubro que não posso comprar o infinito,
mas amo,
e há estátuas que sorriem...
este batuque que oiço e do qual faço parte
é imaginação apenas
eu queria comprar o infinito
-louco, porque ele só dado é bom-
queria não ter nada por descobrir
e vejo coisas estranhas quando olho à minha volta
-vejo tardes de vida insubstancial,
perigosamente intensa e alheia.
Olha, amigo,
tu és tanto que és nada para mim,
um clarão tão violento que apenas vejo azul,
sonho tão forte, tão brusco, tão total,
e descubro que não posso comprar o infinito,
mas amo,
e há estátuas que sorriem...
👁️ 231
O prado é diferente do abismo
O prado é muito diferente do abismo,
príncipalmente se tem flores,
e a realidade é uma bola de sabão
que vai para onde a leva o vento.
Reparar nisto
é como estar sentado na montanha,
com o sol lá em cima
e o rio lá em baixo,
vendo as casas ao longe
e gostando de as ver longe.
A realidade é deixar o sossego das árvores
e correr para onde a pressa nos chama.
No meio do prado há um abismo.
E é impossível recordar, para lá do horizonte...
príncipalmente se tem flores,
e a realidade é uma bola de sabão
que vai para onde a leva o vento.
Reparar nisto
é como estar sentado na montanha,
com o sol lá em cima
e o rio lá em baixo,
vendo as casas ao longe
e gostando de as ver longe.
A realidade é deixar o sossego das árvores
e correr para onde a pressa nos chama.
No meio do prado há um abismo.
E é impossível recordar, para lá do horizonte...
👁️ 234
Deve haver outro sentido para a vida
Deve haver outro sentido para a realidade lúcida da vida.
Deve haver outro estado de ser
onde a alegria serena não seja só um acidente.
Este mundo pesa-me, cheio de despedidas.
Vejo as cicatrizes e oiço os rufares de realidades bélicas,
tudo isso às vezes só na cabeça de alguns.
E a união aqui toma a forma macabra de rebanhos.
Vejo o sol sempre implacávelmente pontual,
embora por vezes os relógios tenham opinião diferente.
Vejo a lua, os livros cheios de Tao,
e a minha alma sofre com tudo isso,
sofre como se tivesse sangue e sangrasse,
como um louco consciente que não consegue adormecer nunca...
Terei eu a genialidade da poesia ?
E que bem virá ao mundo, se eu a tiver ?
Que espécie de gente serão esses a quem chamam poetas,
que incessantemente pensam em abrir portas e janelas
e querem crer que vêm através das portas e janelas fechadas
que nunca abriram, e provávelmente nunca abrirão ?
Ah! Deve haver por aí outra realidade para a realidade disto !
Deve haver por aí beijos e coisas,
patamares definitivos que nos tirem de vez esta impaciência estúpida,
que nos levem de novo para de onde nunca devíamos ter saído,
para brincarmos de novo
com os berlindes de cristal da realidade verdadeiramente lúcida,
da realidade final que fica para além de todos os enigmas...
Deve haver outro estado de ser
onde a alegria serena não seja só um acidente.
Este mundo pesa-me, cheio de despedidas.
Vejo as cicatrizes e oiço os rufares de realidades bélicas,
tudo isso às vezes só na cabeça de alguns.
E a união aqui toma a forma macabra de rebanhos.
Vejo o sol sempre implacávelmente pontual,
embora por vezes os relógios tenham opinião diferente.
Vejo a lua, os livros cheios de Tao,
e a minha alma sofre com tudo isso,
sofre como se tivesse sangue e sangrasse,
como um louco consciente que não consegue adormecer nunca...
Terei eu a genialidade da poesia ?
E que bem virá ao mundo, se eu a tiver ?
Que espécie de gente serão esses a quem chamam poetas,
que incessantemente pensam em abrir portas e janelas
e querem crer que vêm através das portas e janelas fechadas
que nunca abriram, e provávelmente nunca abrirão ?
Ah! Deve haver por aí outra realidade para a realidade disto !
Deve haver por aí beijos e coisas,
patamares definitivos que nos tirem de vez esta impaciência estúpida,
que nos levem de novo para de onde nunca devíamos ter saído,
para brincarmos de novo
com os berlindes de cristal da realidade verdadeiramente lúcida,
da realidade final que fica para além de todos os enigmas...
👁️ 245
Digam-me que este navio vai chegar amanhã
Digam-me que este navio vai chegar amanhã
a um porto de sol.
Que as gaivotas virão comer à nossa mão.
Digam-me que a bruxa Fiama está morta,
que sorri, mas que o seu sorriso é de morte.
Digam-me que brincaram,
que apenas pretendiam jogar à cabra-cega.
Hoje, os cães ladraram como se não fosse hoje.
Se eu fosse cão, tinha mordido.
Se eu fosse gato, tinha arranhado.
Se eu fosse sonho, tinha fugido para os pés do Senhor Krishna.
Se eu fosse eu, tinha sentido montanhas de amor.
a um porto de sol.
Que as gaivotas virão comer à nossa mão.
Digam-me que a bruxa Fiama está morta,
que sorri, mas que o seu sorriso é de morte.
Digam-me que brincaram,
que apenas pretendiam jogar à cabra-cega.
Hoje, os cães ladraram como se não fosse hoje.
Se eu fosse cão, tinha mordido.
Se eu fosse gato, tinha arranhado.
Se eu fosse sonho, tinha fugido para os pés do Senhor Krishna.
Se eu fosse eu, tinha sentido montanhas de amor.
👁️ 240
Como passou, Sr. Alberto Caeiro ?
Como passou, Sr. Alberto Caeiro ?
Aperte aí a mão,
mas tire os óculos primeiro.
Então esses poemas de solidão ?
Aperte aí a mão como sabe fazer,
e mostre lá o poema que ainda não mostrou
a todos nós, que o queremos ler...
os outros, foi uma núvem que passou...
Não vale a pena ler o que escreveu,
porque foi só o que teria que ser.
Mas o tal poema em que viveu,
esse é que queremos ver.
É um fantasma, o Sr. Alberto Caeiro !
Aperte aí a mão,
mas tire os óculos primeiro.
Então esses poemas de solidão ?
Aperte aí a mão como sabe fazer,
e mostre lá o poema que ainda não mostrou
a todos nós, que o queremos ler...
os outros, foi uma núvem que passou...
Não vale a pena ler o que escreveu,
porque foi só o que teria que ser.
Mas o tal poema em que viveu,
esse é que queremos ver.
É um fantasma, o Sr. Alberto Caeiro !
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