Outono revisitado (1993)

Imagino pomares em que os ramos pendem pelo peso dos frutos,
poentes calmos depois de uma tarde ligeira,
não obstante um labor talvez pesado.
Imagino o canto atarefado de aves que esvoaçam,
procurando o abrigo que lhes está reservado.
O amanhã é longínquo como o ontem
mas agora há uma noção suave de regressar ao lar.
E eu sei que esse instante não durará sempre,
será esquecido, será perdido.
Os frutos cairão de podres,
ouvir-se-á falar de parasitas
e os ramos tombarão sobre as ervas daninhas.
Os poentes tomarão tonalidades novas,
mas ninguém estará lá para limpar o suor do rosto.
Nem o lar será mais o que fora outrora.
Aves esvoaçam, sim,
como um elo elemental ligando o passado ao futuro
ou o presente ao passado.
Eu, como um fantasma vivo, observo as árvores,
absorvo o poente e os frutos ao redor de mim
e desconheço profundamente o rumo e o destino
deste teatro tão real...
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