Sorriso medieval

Sorriso medieval estático
a vibrar por dentro das cores
e um gesto hierático
desdobrando-se em diversos amores.

O rio e a floresta
bastante longe disto.
Os ecos de uma festa
em que se escolhe um Cristo.

E a montanha e a neve,
suores cristalizados de um teatro passageiro;
um sonho brusco e leve
mas que nos surge inteiro.

Um arrastar de asa dormente
de um réptil estelar,
a interjeição que persiste na mente
na hora de acordar.

E um riso. E um grito.
Desmaterializar a vida.
Fazer parte do mito
de uma espécie perdida.

Ave voando sobre o mar,
vento inclinando as árvores muito,
o sol outra vez a brilhar
e um silêncio furtuito.

Há um musgo a bater na filha,
sorvendo a vida com grandes colheradas de açucar
e preto-verde à beira-mar
como devem ser todas as algas
à beira-mar,
com um casaco de pescador sobre os ombros
e um cachimbo a flutuar nas marés,
com a voz dos afogados,
das estrelas marinhas,
e de todas as crianças famintas, com as mãos estendidas
a pontuar o luar...
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