Lista de Poemas

Lendo Pessoa

Ah, Fernando, ainda um dia gostaria de conversar contigo, sem pressas, ao entardecer sereno de Lisboa.
A nossa conversa seria entre os espaços das palavras e a sua sombra em nós, entre o teu tempo e o meu, espíritos
partilhando algo universal, algo que transcende carpinteiros e poetas.

          Se eu não sei o que é ser poeta, porque não mo explicas tu ? Mas tu não podes, viveste em Lisboa e partiste
para o indefinido muito antes de eu nascer. E, mesmo que tivéssemos sido contemporâneos, igual seria. Suspeito
que também tu não sabias o que é ser poeta.
           Serias tu poeta ? Que fazias naquele tempo em Portugal, na Rua dos Douradores, discorrendo sobre assuntos
tão removidos do tempo e do espaço, sobretudo do espaço ? Ninguém te entendeu, ninguém jamais te entenderá.
Eu, serei apenas um leitor confuso, ou um escritor confuso, que julga ver nas entrelinhas de ti algo de real, ou o que
de real têm os sonhos.
           O que tu não conseguiste dizer, nem eu nem ninguém o conseguirá nunca, mas tu tentáste-o sem medo e
sem escrúpulos, com toda a força da tua alma e da tua inteligência. Está aí o teu génio. Talvez, no entanto, o
tivesses dito, e muitas vezes, mas é que, afinal, tudo se esbateu por entre o sol poente.
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Luz ao fundo do tunel

A luz ao fundo do tunel pode ser a de um combóio.
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Eu e o mundo

Verto sobre este papel sensações que me ultrapassam. O que sou eu para o mundo, e o que é ele para mim ?
   Do meu percurso apenas mal conheço uma parte, e sei que é efémera e transitória, na escala maior do Universo. O mundo, onde nasci e onde hei-de perecer, existe há biliões de anos e o seu fim, se o tiver, está fora da nossa compreensão.
   Se alguma vez compreendi o mundo não o poderia dizer, e suspeito que nem ele me compreendeu nunca. Cheguei por um acidente que afinal nada tinha de acidental; tinha que chegar e cheguei, nada mais.
   Mas o correr dos anos não me harmonizou com o mundo, antes pelo contrário nos distanciou cada vez mais; inconsequente o facto de eu viver nele.
   A minha infância e juventude foram peculiares, mas não muito distantes do que é entendido por normal. Os meus pais, que não eram analfabetos, tinham qualidades e defeitos como todos os outros, e ensinaram-me a viver da melhor maneira que sabiam. Nunca cheguei a duvidar do seu amor, mesmo quando
a prática dos seus ensinamentos lançou sombras sobre mim.
   Mas entendo que o mundo nunca foi criado para ser perfeito; a verdade é que me encontrei aqui, onde tenho que viver sob leis que nunca aceitei e de que discordo. Eu e o mundo, como amantes que se uniram num momento de paixão mas que um dia se chegaram a detestar sem remédio nem apaziguamento.
   Dentro da minha alma, a dúvida e o espanto são quase tão vastos como a minha ignorância; não sei o que deixei para trás nem o que encontrarei adiante.
E este momento em que escrevo é-me tão estranho como tudo mais, um sonho do qual nunca se acorda senão quando dormimos, um sonho que me fala de
amor, egoísta, imperfeito e incompleto.
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DELÍRIO OU IMAGINAÇÃO (1973)

Arrastado, ergo-me violentamente contra o poema,
poema cintilante de cristal, de orvalho colorido
doiradas as palavras afluem em gritos eléctrónicos
em génesis de medo e êxodos
pela estrada da imaginação, nebulosa e fria,
grotescas formas saltam, e acusam, e correm,
longas vestes transparentes e infinitas
repletas de minúsculos espelhos multicores...
no ar do meu poema, gaivotas cospem restos de fascismo,
adornadas de estrelas, livres, vermelhas...
rochas de plástico marginam o mar fotografado,
irisadas de sal, nenúfares e arvéolas,
sonhando que o Homem já chegou à lua !...
suor cristalizado escorre nas faces dos palhaços,
que não representam mas vivem a sua vida,
com estilhaços de bandeiras que não puderam aproveitar.
eu, sem derrotar o poema estereoscópico,
ponho-lhe no túmulo uma flor fresca de papel
e digo-lhe que ninguém é culpado da minha
imaginação
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TERRA (1973)

Terra da paranóia do amor
nunca mais te verão como eras dantes
acabaste, terra distante,
nunca mais te verão com mulheres nuas
com gatafunhos de vida vomitada
não, nunca mais te verão
como tu realmente eras, louca profundamente
terra da paranóia do amor
onde os dias se jogam e a derrota é tempo perdido
onde se bebe e onde se delira
onde se é tudo para além do monstro consciente
não              nunca mais te verão
o sol à sexta-feira não fará de ti uma sombra
o sol não mais brincará contigo
porque não mais te verá...
ri-te agora dos que te chamaram louca
continuas a sê-lo, mas podes rir bem alto
és finalmente corpo enganador
e nunca mais te verão como eras
abstraíndo tudo ficam os que se riram de ti
os que te puderam tocar com as mãos
os que te viram
os que se julgaram um pouco mais acima
os que nunca mais te verão
na primavera das praias quentes abertas
das grutas       das ondas       da obscuridade
das estrelas amigas que nada puderam fazer por ti...
nunca mais te verão
país da paranóia do amor
onde o sol não surge à sexta-feira
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As coisas nem sempre são tão más como parecem

As coisas nem sempre são tão más como parecem; às vezes são muito, muito piores.
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A Verdade

A Verdade pode ser pura, mas nunca é simples.
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NAVEGAR (1984)

Navego pela consciência de não pensar nisto.
   a tentar mascarar a minha solidão
   e a sonhar com o inverso do que me pesa
   pela janela aberta voam borboletas
   de dentro para fora
   e o ar é frio
   e eu estou do lado de dentro mas sei que o ar é frio do lado de fora. 
   a minha mente ultrapassa-me
   nesta corrida sem meta real
   e eu, o atleta que nunca vence,
   atiro-me abaixo do precipício de me cantarem na pela a vitória...
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JARDIM PARADISÍACO (1978)

Jardim paradisíaco
onde as mãos se encontravam,
e os sonhos passeavam
num horizonte idílico...
espessuras onde as aves
assomavam no céu,
e das franjas de um véu
pendiam risos graves.

Jardim nocturno onde à noite as árvores caminhavam libertas
pelas sombras das fontes,
em passos vegetais de raízes
e movimentos sincrónicos com a luz,
sorrindo no jardim
e mostrando o caminho para a casa de duendes amigos
que nos abriam na floresta a sua porta
e nos ofereciam à mesa os seus manjares mais raros,
partilhados com aves
e ocultos nas curvas acidentadas do jardim da cidade...
jardim onde a música escorria dos bancos e atravessava a praça,
às horas mortas em que os namorados tinham ido para casa
e o céu começava, com mãos amigas,
a lembrar que era tempo de recolher ao descanço da noite...
jardim louco onde se dançava à chuva, ignorando os espectros que passavam ao lado,
estendendo a mão e mostrando os olhos fixos no vazio,
enquanto procissões de formas sem conteúdo explodiam no espaço
e deixavam cores vivas no céu,
lá em cima no céu, no céu azul tão cheio de estrelas,
no doce céu que, sorrindo, nos viu nascer e crescer,
em banhos de azul que se perderam com o tempo...
jardim de dança onde se pousava o fardo por alguns momentos,
fingindo beber um pouco de água fresca
e encher o peito de brisas trigueiras e quentes,
para depis voltar à ceifa
e aos trabalhos pesados da faina...
jardim, jardim onde as palavras dançavam connosco,
em danças embalantes e sem sentido,
suando duramente das entranhas do ritmo
e atingindo cumes que nos eram proibídos,
dos quais tentávamos avistar a paisagem que sabíamos distante,
a paisagem que sabíamos invisível e oculta,
e por isso ali estávamos no jardim 
bebendo as sombras e o céu e as estrelas e a cidade e a luz,
à espera que a procissão passasse,
à espera de caírmos para dentro do beijo infinito e ilimitado,
sem jardins nem visões, nem estrelas, nem ânsias,
sem cidades nem céus...










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NÃO HÁ ESPAÇO (1979)

Não há espaço para as paredes subirem verticais até ao sol que nasce.
Não há escalas para a desentoação  original das palavras.
Não há nada concreto que tenha para vos dizer.,
apenas as silhuetas altas dos meus poemas
e rios que correm, formando um espelho à superfície,
mariposas breves que andam a abraçar as flores,
aromas que os céus trazem nas tardes chilreantes de verão,
paisagens brancas que vêm com o inverno.
Não há espaço para nada, as realidades acutilam-se
como se estivessem todas fechadas numa sala pequena e escura.
Só as planícies do além é que devem ser amplas e belas.
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