Lista de Poemas

Te vi, te vi indo.

Tenho-lhe?

Ou dormes diante de mim, que vivo sob duro manto da insônia, assolado em minhas tristezas, desprezando as intuições, para me opor ao materialismo e mergulhar na subjetividade do amor.

Martírio, machuco-me, transporto-me de dores. Sinto. Sinto. Sinto. Eu vivo sentindo tudo.

Você, eu sinto, eu, eu sinto.
Tua dor é a minha dor, logo, dores eu coleciono, dores eu sinto.

A insegurança te leva, me leva, nos leva, não releva, não eleva, só leva, me alerta, maceta.

Descasca, me encasca, me transpassa como uma lança, me chaga por dentro.

Vê, lá, nao dorme de novo, tá linda a paisagem, não dá pra esperar. Mas a quanto tempo eu espero, eu sou a sofrível espera, a partida, as idas e não vindas, as não chegadas, as deixas à bera da estrada, o descaso, o machucado.

Desagreguei, me apeguei, me levei. Eu fiquei, fiquei, é o dito deixei. Pra fora da cama, pra fora de casa, no meio da chuva, largado, no descompasso, desanimado, afogado, exacerbado, deixado.



*ao som de Silva - Duas da Tarde
https://www.youtube.com/watch?v=RCQCsoNNZQM
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O CONTRATO SOCIAL

Fadipa, 10 de Novembro de 2017, período da noite, após às 22h.


Eles realmente oprimem muito
O negro, 'fudido', nascido no morro do matanzal
sem escola, saúde, educação 
sente-se atraído pelo crime, e vira 'marginal'

Assalta a madame
transporta a droga
agride o guarda municipal

13 anos insanos
pura malandragem,
adrenalina, tudo sensacional

15 anos e meio,
dez de janeiro
assaltou a mão armada
um estrangeiro que veio a um encontro empresarial

Preso, passou 3 anos na Fébem
apanhou, recuperou, apanhou, revoltou

Saiu de lá
ainda mais obcecado
transtornado pelo ódio, por um terror malignado

Em 2003, dia 21 de março
foi abordado por policiais

Negro, pobre, 'reincidente', bandoleiro

Foi revistado e agredido

Sem nenhum tipo de precedente,
os 'homi' mesmo sem nada encontrar
o colocaram na viatura,
o algemram, e a 'lição' começou a aplicar

'Mermão',
o que foi de cacetada, porretada, cusparada
não foi brincadeira não.
O levaram pra um lugar afastado
meio do mato, sem chance de ação.

Deram porrada, 
deram cusparada,
deram joelhada

Passado um 'tempin',
o gatilho foi apertado.
Passáros voaram, completamente assustados.

Naquele projétil,
não tinha só pólvora, calor, dor.
Tinha a falta de uma infraestrutura,
calor, amor.

Falta de atenção, de carinho, de cor
falta de uma escola, um posto de saúde, médico, professor.

Falta de tudo, tudo mesmo, meu 'sinhô'

O povão ainda falava:
- Ainda bem que o demônio parô,
agora sim, enfim, temos paz, amor.

Iludidos, mal sabem que todos os dias,
a história re repete com muito ardor.
Quando não é a pólvora que define o fim,
é a ferrugem da grade que rege o andor.

Esta é a vingança da sociedade.
Crua, cega e selvagem
o ódio é contínuo
contínuo é o ódio,
contra a 'malandragem'.

Quanta ilusão da verdade
reprimir ainda mais o oprimido
e sentir ser feliz de verdade

Que maldade, hein, 'justa sociedade'
Parabéns, parabéns, parabéns
pela Igualdade, Liberdade e Fraternidade.


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despedida.

Bom, me endosso a cada vez mais escrever uma carta de despedida. Despedida de quê? Pra quê? Pra quem? Não tem tudo que ama mas nem ama tudo que tem. Eu me desdenho, me soterro, me afogo, não me acaloro. Quando penso que vou, volto. Quando penso que grito, me calo. Quando penso que ando, me agacho. Estou farto, farto como uma pós ceia de natal, farto como um pulmão cheio de água após estar imerso no rio Goose. Confesso-lhes, são longevos e terríveis dias onde meu labor interno se exausta em me auto fazer bem, mas, assim como tudo que começa, eu paro. Eu paro por ser machucado, por não ser amado, por estar à margem, por ser desprezado. Eu conheci o desprezo, o toquei, o beijei e ainda o toco pelos mais variados, tóxicos e insensíveis toques ao meu celular. Como em tantas outras ocasiões, mas sempre como um sentimento novo, eu vejo muito o desprezo, sempre muito, é como se este estivesse agarrado em uma de minhas pernas enquanto eu caminho vagarosamente pelo mesmo caminho que percorrera Dante Alighieri no Inferno da Divina Comédia. Estou exausto do externo, logo, de mim me exausto. As escritas, que estavam acaloradas pela energia da afroncentricidade, agora se resumem como contínuas, lamuriosas e incontáveis lástimas, que preenchem cada pedaço do dito Marco Túlio. O eu lírico sou eu mesmo, eu sofro, as partidas me partem, as partidas me partem, como se já tivesse ido, mas ainda não fui. Como um passo com uma perna, e restara o pé de trás como apoio, eu fui, mas não vou, eu vou, mas não fui. O início é meio instantâneo para o fim. O massivo, protetivo, abrangido lugar do Amor que pensei que meu fora, tornou-se minha perdição. Eu me perdi, fizeram-me me perder. Aonde esta agora você aqui, perto de mim? Onde, onde, onde.  Sem as escritas, eu sou devorado, ainda mais devorado, porque elas me permitem falar, por mais que o eu lírico se esconda dentro de marionetes como a de Kankurō, pelas escritas eu grito, não pastoreio, eu grito porque no mundo real não me é permitido gritar, muito pelo contrário, sou forçado a silenciar-me a todo o momento, todo momento.  As minhas escritas são um estádio lotado após o gol do time amado, é o amontoado de almas perdidas no fogo do inferno de Dante, é uma sala de aula lotada de uma escola pública na periferia, é o encarceramento de negros dentro de uma cela do sistema prisional brasileiro, não são potentes, são ardentes, porque em mim, me chagam continuamente. Se eu escrevo, é porque a vida muito tem me machucado.
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Despedindo-me de ti, meu amor.

Eu me encontrei no seu toque, 
no seu riso, na sua simplicidade e maturidade. 

O teu carinho iluminou a escura solidão da minha organicidade
eu te sentia, com você vivia, revivia.

Nossa longa e breve conversa,
o meu profundo e abismático amor,
me fizeram olhar pra ti, e de ti ter sede
eu quis, eu ainda quero, até o final deste poema, embriagar-me de ti.

Ainda aqui, até aqui, desejo-te
sinto a necessidade de ter teu corpo colado ao meu
da minha alma presa a sua, encarceradas na beleza e na tragédia
que resumem uma relação entre pessoas de cores distintas
mas não quero resumir-me a isto, 
quero expressar a minha subjetividade, e sim, pretos amam, pretos choram, pretos sofrem.

Meus dedos sentirão falta de tocar-lhe carinhosamente,
de acariciar-lhe por todo o corpo, de junto da tua mão, embarçar-lhes.

Meu corpo, até aqui, anseia o teu
meu prazer pulsa com teu prazer em cima do meu
entre sons de satisfação, eu me perdi totalmente naquilo que me ofereceste.

Contigo, vivi aquilo que entendi ser meu espaço também, o amor:
Meu amor, meu jeito de amar, de sentir, minhas singularidades.

Eu quero, até o fim deste poema, sentir-lhe dentro de mim,
eu anseio a tua existência junto a minha, eu quero estar dentro de você.

Mas. Mas. Mas, como eu norteio em viciosos ciclos do 'mas', despeço-me de ti, neste quente e congelativo poema, recordando-me das duas afetivas vivências juntos, mas é preciso seguir, seguir, seguir.

Nosso desencontro perdeu o encanto para você.
nosso desencontro perdeu o encanto para você.
nosso desencontro perdeu o encanto para você.

Despeço-me de ti na minha arte,
porque nela encontro refúgio
e encontro o amor da minha subjetividade: A solidão.

Nosso encontro sem lucidez,
tornou-se lúcido
e entre nós, esse espaço perdeu alguns passos.

Até o ponto final deste texto, amei-te
mas após este, segui entendendo que a minha existência não se condiciona a tudo que de fato quero, e que é preciso continuar sempre.

Obrigado. 
Eu segui.


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Para minha amada e querida amiga Bruna.

14 de Junho de 2020,

num claro ponto de ônibus do Panorama.

 

 

Lembro-me das nossas risadas

Lembro-me das suas falazadas.

 

Recordo-me de toques, abraços, consentimentos.

 

Resgato todas as memórias contigo como um mar de existência, de sobrevivências.

 

Busco-te em cada alegria, em cada tristeza, tudo isso, sem nenhum tipo de destreza.

 

Amo-te e agarro nas nossas tão felizes memórias.

 

Nem claro, claro, é tudo.

 

Recordo-me das obscuridades,

da pedra maldita

da conversa sobre a grade

da família que não te aceitava de verdade

da ausência de oportunidade

na ausência de bondade pelas outras pessoas

pela não existência de um coração disposto a ajudar.

 

Despeço-me de ti com

o coração machucado,

enraivado, alucinado e bagunçado.

 

Teu rosto, tua feição, teu sofrimento.

 

És luta, aprendizado

és vivências, alucinados

 

Agarro em tua luz,

Amparo-me na tua gloriosa existência

 

Entro-me em lugares onde não sou avistado, mas eu tô lá.

Por você, pelos vives, por todos que eu amo e gosto de estar perto.

 

Estamos ligados pelo amor cultivado por toda nossa existência física e subjetiva.

 

Um pouco niilista, desprezo este meu pedaço por um momento, para socorrer-me ao plano não compreendido, para afirmar e agradecer:

 

Obrigado por toda amor e vivências cultivades.

 

Obrigado, minha amada e querida amiga Bruna.
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Eu e Marielle compactuamos com a mesma maneira de como as coisas devem proceder dentro da sociedade, onde nossos corpos devem e podem estar,  e de como podemos articular os nossos semelhantes, ela, do outro lado, pela subjetividade, do berço de sua ancestralidade. O fato aqui repulsivo é que ela fora assassinada, a morte dela, me ameaça, violenta e deturpa a existência dos meus. Ela era nossa. Nosso povo quer saber tudo, não pode haver retrocessos no caso Marielle e Anderson, muito pelo contrário, queremos saber tudo, tudo, e estendo aqui a todos os companheiros que defendem a terra, o meio ambiente, os menos favorecidos, os extremamente humildes, as mais diversas pastorais, os mais variados coletivos, movimentos da sociedade civil organizada, que são assasinados diariamente, onde não há cobertura da mídia, onde a investigação retrata a precariedade da polícia brasileira, que não soluciona os casos, até porque, culturalmente pra eles, é mais fácil botar preto na cadeia do que de fato apreender o infrator de verdade, e se este for preto, há problematização também; por que somos colocados na subalternidade? Por que ainda estamos mais expostos a violência social? Dessa forma, com esta indagação, com este desafogo, cumprimento a todos (com o jeito maroto de ser). Estaremos acompanhando tudo. É necessário estar nas bases. É necessário estar nas bases. Dorothy Stang, presente. Bruna, presente.
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Eu carrego o peso de ter que ser foda e isso é uma experiência muito diferente.
Abismo-me com as minhas irresponsabilidades, afogo-me com os meus próprios erros,
mas eu sei que um futuro afrocentrado esta por vir, por isso, eu não me impeço,
eu não me meço,
eu me arremesso,
eu converso, eu recomeço,
recomeço, recomeço.
Que voltemos atrás para entender que por mais que doa, o sentido da vida é para frente sempre. Espero que você, viva, sobreviva, que sobrevivamos ao máximo possível, que espalhemos um diálogo maduro, libertador, voltado as africanidades.
Que nós nos libertemos cada vez pela educação, pelo diálogo, e claro, como bom organicistas, pelo amor.

 
Escritas do dia 05.10.2020,
1° encontro do pensado Coletivo Negro Vale do Aço.
As escritas, feitas ao som de 'Liberdade' -  Alisso.
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Em cada encontro eu me desencontro, me desencontrando em encontros.
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Dizendo adeus para várias pessoas vivas.
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sem título.

12/06/2020

Todos, todos nós temos o direito de sermos inconsequentes ao menos uma vez nesta breve e mecanizada vida.

(reflexão de quem circunda em viciosos ciclos, detento de um imenso panóptico).
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Comentários (2)

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thaisftnl
2020-07-08

Tulio, mande mais poemas! Seus escritos são um documento, poesia de cunho social, uma denuncia que precisa ser ouvida. Alias, Adorei a carta para sua amiga, Bruna! Beijos e amei seus escritos!

10012019
2020-06-15

Olá, irmão!