Lista de Poemas

Rearranjamos



Mas olha o que está


à frente



ou aqui atrás.


Vê o que lá está e que veio,
veio de uma origem,
de onde se puxam as veias,
veias retesadas, a retinir,
em paralelo, ao comprido.

As guitarras já lá estavam,
já as tinham ouvido,
já as tinham tocado
como quem se enfia na toca.

Os acorrentados,
nas correntes de ar,
portas e janelas abertas,
saltam das dobradiças,
e, contra nós, aos pedaços
de maçã
podre

fermentada num licor
doce
aos golinhos.


E depois cantamos,
acompanhamos a cigarra,
dedilhamos as veias,
rearranjamos a guitarra.



Escrito a 30/03/2017
👁️ 649

Mártir de verga



Vozes de longe chamam, num som,

Velho e vulgar leve velejar.
Alto, lacrimejante, som,
amarelo escorregadio,
tão frio.

Flamejante, arquejante.
Se respira, mata-o.
Por Deus, corta-o.
Nos céus, apaga-o.

Quem és tu, flor biliar?
Amargas as dores,
dos sons dos horrores,
rindo e rodando,
verde vento a urrar.

Azul o marulhar, a espumar.
A agarrar e a sorrir, encrustado,
numas rochas que não tens.
Em ti, não as tens.

São sãs e os sóis sibilam.
Que te queimes e afogues,
no vermelho da tua fé.
às chamas que lambes,
pede que te matem de pé.

és uma árvore, lilás.
Podre e pungente.
Nessas raízes jaz
esse amor demente.



15/06/2018

Vagamente inspirado no filme 'The Wicker Man' (1973)
👁️ 653

Estados Alterados

Estados alterados

consciência inconsistente

mole, mel, melancolia

calmo, canto, quente

uma melodia

manto de mascaras

verdes de verdade

ansiedade

imaturidade

medo do medo do medo

antes do sono

a harmonia

com a morte

da cotovia.



Escrito a 27/09/2017
👁️ 612

Sentido contido



Pétalas de tempestade vermelhas,
com a fúria incandescente da vida,
é a calma silenciosa da morte,
que da boca me arranca a língua.

E oiço berros incontidos nos céus,
amarelos, aterrados, incinerados.
E não há nada para dizer.
Não há nada para dizer.



Escrito a 18/06/2017
👁️ 626

desarticulação

"Levanta a cabeça princesa, senão a coroa cai"
a cabeça caiu no chão, nunca teve coroa, e já lá vai
rebolou para tão, tão longe que se perdeu
deu vontade de rir, mas chorar foi o que aconteceu.

"Será que algum dia vou vencer na vida? Eu tenho certeza que não"
grande filósofo, poeta e pobre, e sentindo, o grande, Paulo, Juão
a fotossíntese de que ele fala não posso
porque não tenho nem osso.

Na pele rasteja a dúvida e o cansaço
como vermes
verdes, viscosos, vagos
e dos olhos desliza o embaraço
rebolam grossas como bagos.

Espreme-as, espreme-as e bebe-as
como um sumo patético como és
como és tu, o sumo, o teu
dos teus olhos mortiços
doentes
e cercados de breu.

Está escuro, aqui, aqui no fundo
onde se perde tudo e só há cacos
está cheio, mas sem ver, o mundo
aqui em baixo, não há buracos,
é uma massa de medo e merda
o que alguém como tu herda
porque é isso que mereces.
É só isso que mereces.



04/07/2018
👁️ 593

Estagnação

Queria agora estar
num comboio, vagão
para qualquer lugar.
As janelas sem vidros
no frio do Inverno
os pés as mãos
doridos.
Gelo, do vento,
das janelas,
do vagão,
escancarado e escuro,
na noite.
Para qualquer lugar.
Mas aqui vais ficar.

Escrito a 08/01/2018
👁️ 507

O nascer do pôr-do-sol

Nasce o pôr-do-sol ao cair da manhã
e as gotas secas a dormir no divã,
uma caminha num caminho à esquerda,
como do céu, um torvelinho de merda.

Sabidas as subidas e as descidas
mas caem como potes de papel
mascaradas de patos, despidas
descendo por fitas de rapel.

Fitando o horizonte onde nasce
o sol poente, a ocidente
e os olhos vesgos onde renasce
a ansiedade ardente.



Escrito a 02/07/2018
👁️ 582

O que pode ser poesia

Se não são de amor,
de paixão e afeição,
de se perder, ardor,
de se dissolver, não,
de se entregar, dor,
de dor de amar em vão...
então,
então não é poesia?

Se cai em abismos
pastosos e sem,
sem sentidos
nem aforismos.
Sem ouvidos,
nem olhos.
Sem bocas
nem inimigos.
Com tocas,
com umbigos
onde não,
onde não liga
um mamífero
bipede que,
que te pede que,
que o abraces,
que o acaricies
e o leves ao mais,
ao mais alto dos,
dos sonhos
então,
então não é poesia?

Se de toques e carícias,
perdidos os sentidos,
de doces e breves malícias,
os dedos ainda tidos,
como que estando,
estando na pele,
e o ritmo acelerando...
E depois um frio
porque se apaga.
A vela come o pavio
e tudo apaga e vai,
e vai sem desaparecer.
Deixa só nas mãos,
nas mãos a vontade,
a saudade,
os dedos para escrever
então,
então é, é poesia?

Mas e se, e se, e se...
e se nos peitos
não acelerados
pelos efeitos,
desses toques e bafejos,
doces, divinos,
mas acelerados
pela ausência,
vazios, perdidos,
desvairados.
Nesses também pulsa
uma febre,
febre incandescente
vulcões explodindo sós!
Sós, sem som, sem sentido.
E esses dedos, esses dedos
buscam,
buscam e buscam
e buscam e buscam!
Nos estilhaços,
pedaços,
pedaços desconexos que juntar
malformados, sempre,
sempre, malformados.
Flores não saudosas
com hastes e dentaduras
esgaçando sorrisos
coloridos
de verdes de esmeraldas
de olhos
e azuis de cerúleo céu
de cabelos

e ao vento, nas espaldas
folhosas
um cinzento, brilhante véu.

Não pode?
Não pode?
Não pode essa também?
Não pode essa também ser?
Não pode essa também ser poesia?



Escrito a 26/06/2018
👁️ 578

Conta-Gotas



Se me acusas,

de coisas,
coisas que eu
NãO FIZ,
ninguém diz
que não és tu
quem as faz.

Porque és tu.
és tu.
és tu.
Sempre,
SEMPRE,
foste tu.

O ataque palavroso
que me atiras a mim,
achando que o que fazes,
nunca fizeste.

Que me atinges
Agora.
Agora que abri a boca.
Que não me quero mais,
CALAR.
Não consegues.

Se antes não aceitava,
se repudiava,
agora abomino.
Não tolero.
NãO TOLERO.




Escrito a 07/07/2017
👁️ 583

Superstição

A minha resposta cega no final dum caminho
longo e ostentoso e asas de um véu aquoso.
No fim, um ponto sem penas, nem carinho
uma ave aveludada, depenada e desgraçada.

Graças divinas de olhos, suaves lamparinas
de onde escorre óleo de palavras por papel.
Papel que não tens nessa peça que escreveste.
Rabiscos autorizados pelas deusas felinas.

Ronronam de leve a se esticar e a enrolar
um fio de novelo grosseiro e embaraçado,
como o carmim da tua cara quente e clara,
em luz tornada, voltas a rir e a cantar.

Canta uma moda, uma qualquer, não sei.
Nem tu, nem ninguém, não sabemos nada.
Nadamos por aqui e por ali em limos
e limamos arestas para agradar ao rei.

A coroa não é nossa, nem o será.
Cera escorre-nos pelos dedos trémulos.
Terminados e assustados e medrosos.
O medo que nos nasce nos ouvidos.

E se a superstição queimares,
o melhor e que com mais dor puderes,
esperando por sortes melhores,
nasce-te alento pare te deitares.


Escrito a 24/06/2018
👁️ 507

Comentários (1)

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cianeto
2018-07-27

feliz pelo seu like, pois és muito bom!