Lista de Poemas

MIL MOTIVOS PARA AMAR

Por mais que existam estradas, por mais que existam destinos,

Um instante muda tudo, deixa agudo o que antes adormecera,

O que antes se perdera entre atalhos, entre galhos envergados

Pelas mãos que buscam frutos prontos a deliciarem seu paladar.

Quem plantou, quem descuidou, quem, ainda assim, o viu brotar

No pomar, o melhor lugar, ao luar, ao chegar perto, no despertar

Do sorriso que não finda, enquanto há, ainda, um beijo latejante,

O frio incessante das madrugadas, dos madrigais e, dos pardais.

Mil motivos para amar, para deixar para lá o que só machucava,

Eu só precisei de um e você vai pensando o quanto é suficiente,

Se o tempo ausente apagou tudo deixando escuro todo o quarto

Que reparto com a solidão e com os poucos livros que acumulei.

O sim rápido se arrepende se intacto o pacto não quer consolidar

Enquanto o não arrastado deixa arrasado o olhar, fica a esperar,

Irá transformar terras ávidas em ácidas e, como você bem sabe,

Pouca coisa cresce em solo hostil, perceba, até o sabiá desistiu.
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FOGO

Quando o coração fica apertado e não tem ninguém ao seu lado, fica o vazio,

Fica o rio com a calha exposta, uma vida sem resposta, sem saída, represada;

Quanto tempo mais se faz necessário, qual será o melhor itinerário para fugir,

Para rugir e espantar fantasmas do passado, sorrir, revigorar o rosto cansado.

A janela se abriu e tem bastante sol lá fora, a flor aflora com graça sem igual,

Tudo fica muito especial, quando uma barreira é transposta e, aquela encosta

Não vai mais desmoronar e soterrar sonhos cultivados com tamanho cuidado,

Deixar verde o gramado, o jardim colorido foi concebido para tê-la à sua volta.

Estou mais forte, como as raízes deste chão e pronto para segurar as rédeas,

Fazer escolhas e encher as folhas com novas histórias, atrizes e finais felizes,

Tão parecidos com este novo momento e, sinto o vento como sendo um sinal

Para seguir em frente e, fazer diferente, subir um degrau, tocar o céu, resistir.

Segure a minha mão e não tente escapar desta velha prisão, é início de verão

E de férias que pareciam nunca chegar, sinto o gosto do mar e macia a areia,

Preparativos para a ceia, enquanto olhares se aproximam e bocas confirmam

Ao se tocarem, ao se molharem, que, corpos tão acesos, continuam a queimar.
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MUITO ACIMA DA MESQUINHEZ HUMANA

Tenho quase tantas horas de dores quanto de vida, vida comprida,

Ainda me causa espanto essa capacidade de pessoas suportarem

Por dias, horas, meses e até anos, sensações extremas, algemas

Apertam cada vez mais e quem saberá ou poderá enxergar o fim?

Fim de tarde, não do dissabor, chamaria de heróis, dizem que não,

Mas, quem resiste ao que lateja sem cessar, sem dizer se irá parar,

Tudo vira loucura, é tanta tortura, é tanta tontura e, mesmo o ferro

Se curva ao fogo, eu já sinto o cheiro de sangue após o bangbang.

Olho tantas covas prontas e enterros, aqueles aterros a céu aberto,

Minha hora ainda não chegou, quem apostou perdeu, essa não deu

E nem vai dar certo conspirar, pois sei que o poder de Deus é maior

Do que o esforço concentrado, executado por pessoas más e ruins.

Para quem perdeu tempo não tentando ser feliz, saiba que eu estou,

Sem me preocupar ou até lembrar da existência, sobram aparências

Em interiores vazios, tão frios, que não sabem ainda o quanto é bom

Não dever nada para ninguém e olhar este horizonte lindo, bem azul.
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AMARRAS

Nunca desejei mal a ninguém e não seria agora que o faria,

Sei que já existe alguém, se me visse lá fora, será que viria?

Persigo idéias, você bromélias, camélias, as cores do jardim,

Gosto do ar, do pomar, até de invariavelmente estar contigo,

Faz tempo, um carinho, vinho, o imponderável, inimaginável,

Ficou pelo caminho, no Minho, está lá no quintal de Portugal.

Já estive melhor, estou acometido por lembranças e danças,

Típicas e regionais, do gosto das uvas, conheci o lado frugal.

Uma viagem é realmente uma imersão na cultura, a procura

Às vezes vem acompanhada de surpresas, cravas e presas,

Fica tudo tridimensional, visceral, seria só o último encontro,

Mas, a partir deste ponto, eu não conto com a menor lucidez.

Olhares no saguão miraram direções, as nossas são opostas,

Não há mais perguntas, nem respostas, só fraturas expostas

E vida que segue, só regue se quiser ver florescer, conhecer,

Quem sabe da próxima vez, eu encontre a porta destrancada.
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TOALHAS

Tem um céu abrindo, tá lindo, vem ver, vem comer na varanda,

Sujar o chão onde tantas vezes nos esparramamos feito idiotas,

Porque juízo não combina com nossa rotina, crianças travessas

Se atiram à mesa, esquecem os vizinhos, simplesmente amam.

É tão leve este vento e o momento, atmosfera que nos envolve,

Somos tão sedentos e ardentes, vertentes de algumas sombras

Que o tempo sepultou e são pontos finais, temporais passaram,

Agora é onda, é surf todo dia, alegria, uma dose de espumante.

A banheira tão cheia, preparei a ceia, quero mais a sobremesa,

Sempre foi desse jeito, estou ainda mais previsível ou sensível,

Só não canso de rolar e de soltar as toalhas que nos envolviam,

Elas pediam para ficar pelo caminho, tamanho carinho e, caíram.

Agora são ângulos e pontos de vista, falta pista e sobram aviões,

Viagens inconsequentes, olhos reluzentes, as mentes extasiadas,

Fomos feitos para isso, o compromisso mesmo é com a verdade,

Não dá para enganar um desejo ou fazer de conta que ele sumiu.
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RECADO A UMA MULHER INDEPENDENTE

Ouço sobre conquistas, independência, empoderamento, autossuficiência,

Respeito todas essas coisas, fruto do trabalho notável de grandes pessoas,

Vejo também como constatação cruel de que o sustento único, não basta,

Hoje o casal precisa abrir mão da proximidade dos filhos para alimentá-los.

Enquanto fala em liberdade, providenciei asas para os seus próximos vôos,

Apesar de não precisar, peço licença para cuidar como uma criança frágil,

Acho notável a coragem para fazer mil coisas ao mesmo tempo, namorar,

Dizer que não precisa de ninguém, por já ser feliz, pequena alma inocente.

A vida deixa as pessoas tão duras, quando percebem, já perderam o brilho,

Gastam os melhores anos atrás do mesmo conforto que sufoca suas almas,

A maternidade, colocam no armário enquanto a carreira decola, esquecem

Que esse tempo é um ciclo que não volta, perdê-lo é morrer bem devagar.

A mulher não depende mais do homem, parece com ele, no melhor e pior,

O homem se permite a cuidados que não tinha, sensibilidade incorporada,

Entre tantas mudanças, apaixonam-se por quem as entende, às vezes elas,

Quero dizer com a maior sinceridade possível, vou cuidar tão bem de você!
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BOM-BOCADO

Seu carinho é manhã que nasce e clareia tudo, quero acordar com ela, contigo,
Viver o risco de acostumar com o doce antes do salgado, gostoso bom–bocado,
Que não enjoa, coisa boa que só me faz bem, aglutina almas, me faz seu refém
Com ar de desdém, de quem já sabe que rege tudo ao redor neste ritmo próprio.
Óbvio que não será fácil, melodias complexas requerem mais suor na execução,
Misto de técnica e paixão, paciência, aderência a coexistências mais singulares,
Perdidas entre olhares que se buscam em todos os lugares e alheias ao mundo,
Transformando medos em cortinas de fumaça frente à iminência de um furacão.
Veja o tempo implacável, irredutível com seus muros de proteção, toda arguição
Desmentida pelo beijo sorrateiro, desejado, sem rumo, agora visitante costumaz,
Que de tanto fez como tanto faz, quis ser mais que uma simples, bela divagação,
Repousou no coração, tão acostumado a viver com o pouco que lhe destinavam.
Redesenhado o viver enlouquece, se esquece que acumulará mil compromissos,
Ri do novo início, homéricas confusões, corridas de bastões que vivem no chão,
Aos que já tenham passado por isso, desatino juvenil, bagunçado e pueril, sorry,
O cabeça de vento quer consertar mas, segue amando a causadora de tudo isto.
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BEATRIZ

Esse sorriso preguiçoso fica ainda mais gostoso se perto quer chegar,
Já sabe que não precisa de convite, a minha porta fica sempre aberta,
Na certa, você já percebeu o quanto é aguardada, basta aqui chegar.
Fiz malabarismos, contorcionismos, paguei micos, por sorte sobrevivi
Ao silêncio cortante dos dias, madrugadas frias a espera de um sinal,
Afinal, toda resistência encontra sua motivação, essência para seguir.
Alimentado por acenos da musa, reclusa em sua rede, parede digital,
Mero mortal aprendendo a navegar no mundo louco, peno um pouco,
Até desvendar as senhas, criptografias, fotografias tão lindas do perfil.
Não posso falar mal de aplicativos e julgá-los nocivos, até superficiais,
São atalhos sensacionais para quem aceita exposição e sair do porão,
Aventurar-se neste mar de pessoas sem par, só um antídoto à solidão.
Quem sabe se desfaça da distância, haja consonância durante o jantar
Para lembrar, ao olhar da pessoa à minha frente, o que ele bem sabe,
Que pode se tornar freqüente, presente que me permita desembrulhar.
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O VENTO NÃO PERCEBE A BRISA

No começo tudo era lindo, o seu pai na calçada

O muro ruindo a três quadras da minha casa

O ônibus subindo e eu sempre atrasado

Quanto entrei afobado, meu mundo parou

 

E dando tudo certo, eu sempre quis você na minha vida

E ela aturdida te acenou na multidão

Quem sabe você me dê alguma pista

E encha então de paz o meu coração

 

No domingo sessão de cinema, eu sentado ao seu lado

A pipoca caindo, me deixando encabulado

Num gesto inusitado, apoiei o dedo em sua mão

Ela aninhou-se por baixo e um beijo selou

 

A herança que eu trago desse dia são duas maravilhas

É por elas que eu vou atravessar o turbilhão

Foi duro ter que abrir a porta da saída

Agora vou seguir sem direção

 

E se tudo der errado, saiba o vento não percebe a brisa

E ela, por sua vez, vencida, se perde no furacão

Quem sabe ainda exista uma fagulha viva

Mas, sei, choveu demais neste verão
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QUINTA-FEIRA

Meus olhos choram o mar quando penso que ele já levou muitas vidas,

Quem sonhou águas tranquilas e se deparou com ondas intimidadoras,

Não sabe ainda, mandar que elas obedeçam aos sinais, dores e medos.

Sempre guardei segredo, temendo que ele ouvisse, que se aproveitasse

De qualquer fraqueza, qualquer insegurança, desta criança livre e pura,

Que estendeu as mãos, que trouxe o verão, que ofereceu sua amizade.

Já é quinta-feira e o barco partiu como proposto, com gosto de navegar,

O vento se engraçou pela vela, bela, envolta apenas nela e dela quis mais,

Acariciá-la por vezes, agitá-la demais, fazê-la seguir para onde se recusara.

E veio a aurora, quando a noite selou a tarde e sem alarde te avistou feliz,

Não era a sua primeira vez, mas, era como se fosse, tamanha a descoberta,

Tamanha a oferta de gemidos e sussurros, de gritos que já não eram de dor.

Foi quando se deu conta que era hora de voltar, de aceitar que acabou,

De contabilizar o que restou depois de tantos naufrágios e presságios,

Era só você, a porta destrancada e um frio gostoso na pele e na alma.
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Comentários (2)

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sergios
2020-02-03

Ania, querida! Muito obrigado pelos carinhosos elogios, apesar do tanto que me falta melhorar e que sigo em busca. Tenhas dias lindos e inspirados!

ania
ania
2020-02-03

Poeta, bom dia! Obrigada pelo carinhoso comentário ue me ensejou teus versos ler. Li alguns, e todos a alma me tocaram pelo lirismo, pela sensibilidade, parabéns! abraços, ania..