Escritas

Lista de Poemas

MARCHA NA AREIA

Me despi do medo dos meus desencontros
Me desfiz dos sonhos da trilha da ilusão
Esqueci os motivos de todos assombros
Me livrei do amor e também da paixão

Sigo nova marcha por trilhas na rocha
Onde a flor não brota e pássaros não há
Lá de veios d'água, só marcas remotas
Sombras, só de pedras, vento a assoviar

É uma marcha triste, mas é livre e solta
Nenhum espinho nasce nessa sequidão
Meu calçado é velho, minha veste é rota
Mas lá mágoas não atingem o meu coração
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BREVE JORNADA

Olhai as sombras,
A marcha do sol é contínua

Vede as dunas,
Nada é perene ao reger do tempo

Observai os ninhos,
A vida se renova a cada alvorada

Contemplai o espelho,
O tempo arrasta os vagões da vida

Olhai o crepúsculo,
O dia se apaga, mesmo ante sonhos inconclusos

Olhai o mar,
Para lá se vão todas as águas

Vede os peixes,
O frenesi acaba quando a ração termina

Lavai os olhos,
Cada dia merece seu novo alento

Amai ao próximo,
Quem sabe, seu último amigo no caminho

Dobrai os joelhos,
Há bálsamo pra toda dor no trono eterno

Olhai o esquife,
Toda soberba é vazia, ante o clarim da morte

Olhai para cima,
Alguém te espera ao final da jornada

Abra uma semente,
Só há um que detém o poder da vida

Olhai para a cruz,
Há quem alveje vossas veste manchadas
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ODISSÉIA

Depois de longa jornada, parei!
Contei meus passos e tropeços
No mapa da vida as mudanças de rota

Subi nas asas do tempo, voltei!
Revi cada decisão tomada
Agora como quem já conhece a dor

Percorri os sonhos da juventude, pasmei!
Vivi as glórias de quem com alma ama
Nada ousei mudar no meu percurso

De volta ao porto da realidade, chorei!
Tudo o que fiz, faria de novo
Senti orgulho em ser quem sou
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FOLHAS AO VENTO

Em nada me admires
Nem sequer me censures
Ao meu ego não afagues
Nem também me esmurres

De herói não me faças
Nem também de bandido
Sou um vulto que passa
Para ser esquecido

Minhas marcas no mundo
Vem o tempo e apaga
O que te parece profundo
Lá no fundo é nada

Nada fiz de concreto
Tudo foi passageiro
No que pus meu afeto
Foi-se em vento ligeiro

Que importa escrituras
Do que alguém veio a ter?
Tempo, vento e chuva
A tudo faz perecer

Só há um que merece
A vossa admiração
Exaltai-o nas preces
Ele reina em Sião
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DEUS NÃO AINDA

Deus não ainda cura
Deus não ainda restaura
Deus não ainda perdoa
Deus não ainda fala

Você ainda pode nele crer!
Ainda pode ser curado!
Ainda pode o receber!
E ser por Ele resgatado!

Deus cura, Deus faz; Deus rege;
Mas Ele vos ama, vede isto,
Oh efêmeros, tais quais vermes!

Deus era; Deus é e sempre o será
Quem assim crê, desfruta disto
Mas quem não o crê, constatará
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OVELHA CAMPESTRE

Às vezes tu pensas que não prezo por de ti
Pois te deixo tão solta, não vivo a ti seguir
Eu sei que há perigo em meio à cerração
Atrás de uma rocha pode haver um leão

Que uivem os lobos ao vê-la passar
A ovelha esperta não se deixa levar
Ovelha em cabresto é que deseja fugir
Mas a livre e feliz, não é vista a mugir

Lobos e raposas há em todo lugar
O coelho ou a lebre tem é que se cuidar
Da gaiola a loucura, nunca foi proteção

A ovelha da relva, a correr e saltitar
Corre riscos de fato, pode se machucar
Mas é livre e feliz, longe da escravidão
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PAISAGEM DE NATAL

Não sei exatamente porque, mas para mim a melhor paisagem de Natal está associada à imagem de umas casinhas num recanto da serra, cobertas de neve e com suas chaminés esfumaçando num céu cheio de estrelas. É estranho como a imaginação nos transporta para este mundo irreal, bucólico e fantasioso, pois nunca estive num lugar assim. Muitos dizem que as paisagens de Natal são assim definidas porque foram apregoadas pelos europeus e, como é inverno na Europa no mês de dezembro, as imagens de natal ficam assim associadas a ele. Todavia, eu ouso pensar diferente.

Para mim o Natal é aconchego. É o momento da busca de braços fraternos, familiares ou não. É a lembrança da humanidade dos homens. É a hora de nos lembrarmos que não somos só umas máquinas ferozes, lutando por espaço num mundo egoísta e competitivo. A vida é mais que uma disputa, é uma tela vazia onde cabe a nós definir as cores. Somos humanos, precisamos de afeto, carinho, amor, perdão e fraternidade. A alegria autóctone não existe e a beleza só toma forma na instrumentalidade de seus admiradores.

Independente das guloseimas, nenhuma ceia é plena sem os seus convidados. O sorriso para o espelho loucura e nada mais que isso. É o brilho dos olhos alheios que dá realização as almas. Tudo o que temos e fazemos é com o propósito de encontrar nos olhares de outrem o brilho do orgulho, o sorriso do reconhecimento e o gesto da gratidão pela nossa existência. É esta a emoção que dá sabor a vida e coroa de louros a nossa jornada. Sem isto, toda carreia é inútil e toda a glória alcançada é vã. O Natal representa o aquecer dos corações pela lareira do amor divino, num mundo frio, injusto e mesquinho. Feliz Natal
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APARTHEID

Eu sei que no altar tu a mim juraste
Amar-me com toda a força do teu ser
Mas põe, por favor, a jura à parte
E cumpra tão somente o teu querer

Não a quero junto a mim por compromisso
Sem que a tua alma aqui queira estar
Amar é devoção, não sacrifício
Nem cruz que se pegou pra carregar

Não posso mais viver da nostalgia
Nem na tristeza perenemente arrastar
Indiferença, dor, segregação

Não quero mais do descaso a companhia
Nem o lamento a marcar meu caminhar
À afronta, eu prefiro a solidão
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FATOS E FOTOS

Que faço das fotos?
Perguntas a mim.
- O que já a tudo fizeste,
Pisar e dar fim.

Para que recordar,
O que não soube manter?
Por acaso o lembrar,
As fará reviver?

Não carregue na mente
O que da alma tirou
Nem mais chore ou lamente
O que consciente deixou

Vá te entregue as loucuras
Que ousaste criar
Mas, por favor, me exclua
Deste teu vadiar

Tenho um rumo sincero
Para o meu prosseguir
Por isso esqueço e renego
Quem ousou me cuspir

De minha alma arrancada
Tua imagem findou
Tuas cinzas cremadas
Já o vento levou
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FANTASIAS DE NATAL

Apesar do mercantismo - coisa que eu detesto por princípio, acho o natal um período mágico maravilhoso. É claro que está cheio de símbolos sem fundamentação histórica ou religiosa, mas o quechamo aqui a atenção é ao poder da fantasia. Para os adultos pode ser babaquice, mas para uma criança a fantasia talvez seja a única válvula de escape que lhe resta em um mundo de desilusões e tragédias.

Esqueçamos as tragédias, quero lembrar aqui da minha primeira arvore de natal. Primeira? Talvez não, mas a primeira a ser fotografada na tela do meu mundo infantil e a me transportar além das fronteiras de uma realidade dura e cruel. Lembro-me como se fosse hoje. Nunca imaginei que houvesse algo assim: bolas coloridas espelhadas e resplandecentes que cintilavam ao piscar de estrelinhas mágicas numa visão de encanto que jamais esqueci. Transportei-me para o mundo dos sonhos. Conclui que o paraíso deveria era daquele jeito. Nunca havia visto luz elétrica nem bolas espelhadas em cores tão divinas. Fiquei preso ali por horas sem que nada conseguisse tirar a minha atenção até que me tirassem a força. Senti-me como Adão sendo expulso do paraíso. Jamais esquecerei aquele dia.

Interessante, o que coisas simples como bolas de lantejoulas e uma bateria ligada há um pisca-pisca podem fazer com a mente de uma criança carente? Neste Natal, pegue uma criança da periferia e leve ao shopping, pague-lhe uma volta na pista de gelo e um sorvete de morango e estarás eternizado no mundo de suas fantasias! Feliz Natal. Ho, ho, ho, ho!
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Comentários (2)

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2014-09-07

Obrigado Eusébio, espero vê-lo cheio de inspirações felizes.

2014-09-06

Que bom ler teus poemas meu amigo estive andando por ai a procura de inspiração e voltei cheio de desejos e para começar quiz ler algo novo algo que me encante assim como teus poemas um abraço