Lista de Poemas
INSÔNIA
Quando a angústia o peito invade e rouba-te o sono
Pergunta então a tua alma: Quem está no trono?
Sendo o Senhor o teu guia, o teu destino e teu norte
Porque te afliges minh’alma e temes assim tua sorte?
Quem no Senhor confia e tem nele a esperança
Põe nas mãos dele sua vida e assim em paz descansa
Se o teu projeto arruína e aos poucos desvanece
Desce depressa do trono e assenta nele o Mestre
FRATERNIDADE
Que o tempo a muito de sua mente apagou.
E não franzas a testa, mas lhe esboça um sorriso.
Volta a ser o garoto que com ele brincou
Mata o frango cevado, prepara-lhe um jantar.
O melhor vinho da adega te apressa em tirar.
Não lhe conte os problemas nem os seus dissabores,
Não lhe esnobe riqueza nem lhe peça favores
Não perguntes o que quer nem o que veio fazer,
Não o inquiras acima do que ele quer te dizer.
Não censures os caminhos que tomou em sua vida.
Oferece-lhe chinelo, banho quente e dormida.
Não perguntes quanto tempo ele pretende ficar,
Nem lhe indagues a que hora pensa em se levantar.
Deixa-lhe um chave da casa, informa o seu celular,
Não restrinja os horários para ele te procurar.
Se for agradecido, devolve-lhe um abraço,
Mas se não for educado não lhe pregues um sermão,
E na sua saída, não contabilize seus gastos.
Se te perguntarem quem era, dize apenas: um irmão.
SONHO EM SEIS SEXTOS
Em mais dois sextos cresceu
No quarto sexto, enfadado morreu
Por todo o quinto sexto o dono sofreu
Mas no ultimo sexto esqueceu

JORNADA CAPITAL
Não sei como é que cabia
Caminhão pau-de-arara, em cima as três famílias.
Lá de casa seis filhos, de outras: mais oito,
No mais, sacos de mantimentos e latas de biscoitos
Estrada, só buraco e poeira
Fronhas no rosto prá o pó e lona por cabeceira
Era de quinhentos quilômetros a estrada
Mas naquelas condições, uma eterna jornada
Saímos de madrugada, viagem difícil, a noite não tarda
Farois no carro não tinha e a caravana é parada.
Prender não resolvia, melhor cuidar da criançada,
Mingau para os lactentes, pros demais: paçoca e água
Ao clarear saímos de Anápolis, a jornada prosseguia
Mais oito horas de estrada, por fim chegamos à Brasília
Só barro vermelho e mato, no mais tragédia e agonia
O céu por acampamento e um mar de gente sem guia
Assim chegaram os candangos, nos dias de cinquenta e nove
Metade arranja um emprego, quase outra metade morre
Doenças, pestes, acidentes e por seguro um enterro
Pra poucos foi sorte grande, pra muitos só morte cedo

CALMARIA
Às vezes o vento se aquieta para dar espaço a calmaria. As folhas secas caem e ressurgem as flores. Um branco de paz nos cobre a alma a nos lembrar que fomos feitos para amar e sorrir.

PASÁRGADA - Atualizada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho o dinheiro que quero
E tribunos que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a decência é loucura
De tal modo inconsequente
Uma farra louca na Esplana
Com a rainha falsa e demente
Vão contratar meus parentes
E a nora que nunca tive
E como farei proezas
Andarei com gente esperta
Chamado por burro broco
Subirei a rampa cedo
Tomarei pinga no bar!
E quando estiver saciado
Ou o País tiver falido
Mando chamar a mãe-d'égua
Pra inventar falsas histórias
Viro herói pra os meninos
Contra o regime militar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a condenação
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostituta bonita
A mil gabinetes ocupar
E quando em presídio triste
De sair não tiver jeito
Simulo uma dor no peito
E vou pra casa farrear
— Lá sou amigo do rei —
Terei o dinheiro que quero
E tribunos que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

FASES DA LUA
(Samuel da Mata)
Eu vi a tristeza no rosto da lua
Dilacerada, sofrendo em dor
Calada e sozinha na noite escura
Nenhuma estrela a seu favor
Eu vi a esperança na face da lua
Sua boca larga, tentando sorrir
Estrelas alinhadas na volta sua
Vestido de noiva pra ela vestir
Eu vi a lua, em um sorriso crescente
Desfilando na noite em excelso glamour
Esqueceu suas dores, olhava pra frente
Passado de mágoas a muito deixou
Eu vi a lua em plena alegria
Reluzindo no céu e sorrindo a brilhar
Refletindo nos mares cores de fantasias
E aos amantes da noite fazendo sonhar
SOMBRAS
TORRÃO DA ILUSÃO
Encantado por ti eu estendi meus braços
Buscando em teus abraços o realizar de sonhos
Mas entre eu e tu, um cruel espaço
E de alçar asas, um pavor medonho
Ah meu torrão que adoro e que me faz cativo
Que meus sonhos de amores faz desvanecer
Quem me fez seu dono em conto primitivo
Que por ti insano, pronto até a morrer?
Quimeras de sonhos e de falsas posses
Monturo de estórias contos de ilusão
Terra ingrata e triste, de minha alma entorse
Raízes das mágoas em meu coração
ALDRAVA
Pressione-me, fazendo prevalecer o seu desejo
Sufoque a lucidez e use de artimanha atroz
Silencie minha boca com a doçura dos seus beijos
Ignore em sorrisos o admoestar de minha voz
Estique a mola ao limite de seu intento
Comprima a lucidez e escarneça da caução
Exacerbe na certeza de juras e sentimentos
E de súbito conheça os limites da razão
No esgarçar da confiança surge a ruptura
O abuso da certeza é o sepulcro da paixão
Nos braços da boa é que é se ceva a loucura
No abusar do amor é onde nasce a solidão
Comentários (2)
Obrigado Eusébio, espero vê-lo cheio de inspirações felizes.
Que bom ler teus poemas meu amigo estive andando por ai a procura de inspiração e voltei cheio de desejos e para começar quiz ler algo novo algo que me encante assim como teus poemas um abraço
Sonhei com um mundo livre e justo. Acreditei que as oportunidades eram uma questão de esforço e que o sucesso só dependia da capacidade e do desprendimento. Pensei que os homens bons transformariam o mundo e que as injustiças seriam aniquiladas pela educação e a sensatez
Infelizmente, a maturidade revelou-me que os pobres são mais pobres de espírito que de oportunidades. Que os ricos, pra se fazerem ricos, já venderam a alma. Que as oportunidades não surgem, são compradas às escuras. Que a decência, quase sempre, sucumbe à propina e ao favorecimento. Que os idealistas se vendem ao poder. Que os justos não subsistem no trono. Que a caridade quase sempre não é cega. Que a violência e a miséria são orquestradas do trono. Que a abnegação tem a infâmia como troco. Que as pessoas amam mais imundícia que a dignidade. Que os insanos são mais aplaudidos que os sensatos. Que a morte é triste, mas sem ela os homens seriam eternos escravos de seus páreos.
Hoje eu luto, não mais para reformar o mundo, mas para não ser sucumbido por ele. Sofro para provar que nem toda dignidade está à venda. Combato a indecência e imoralidade, mesmo sabendo que perderei a batalha. Quero morrer com orgulho, não de ter vencido a guerra, mas de ter lutado sempre em defesa do que é correto. Não quero ser lembrado por ter mudado o mundo, mas apenas por não ter feito coro com aqueles que o tornam fétido.
Algum dia, espero que ainda longe, esta será apenas mais uma página esquecida e provavelmente apagada por falta de manutenção ou custeio. Todavia, antes que este dia chegue, quero fazer transbordar nela as inquietudes da minha alma; fazer soar os clarins da vida, sem ter a presunção de ser o dono da verdade, mas convicto de que proclamei meus erros como alerta aos jovens e chamei à reflexão os pensadores em busca de uma vida mais digna e próspera para as gerações vindouras.
Português
English
Español