Escritas

Lista de Poemas

ANGLO-SAXÃO

O macho adulto branco anglofalante
Tão claramente enxerga o mundo todo,
Que pouco ou nada toca de seu lodo,
Enquanto lhe consome especulante.

O lucro -- funcional ou exorbitante --
Lhe alimenta os instintos, sobremodo
Quando sabe vender algum engodo,
Cuja cotação muda a cada instante.

O mérito, decerto desde o gene
Traduz-se na indecência tão solene
Da fortuna de séculos qu'ele herda.

Pois, se o sucesso mede-se em dinheiro,
Tão claramente enxerga o mundo inteiro,
Que pouco ou nada toca de sua merda.

Betim - 17 04 2018
👁️ 256

LAMPEJOS

Eu pouco a pouco volto à realidade.
Ao acordar, lamento antes o sonho perdido,
Que o sono bruscamente interrompido:
Sim, outra sensação pela metade...

É bem como se alguma alteridade
Se colocasse diante do sentido
E me perdesse vago em meio ao Olvido,
Ao quase revelar d'uma verdade.

D'olhos abertos, cerra-se minh'alma.
Permanecem imagens interiores...
Talvez reminiscência ou mesmo trauma.

Já segue o quotidiano e seus rigores.
Ainda qu'eu, por sob a face calma,
Passe o dia à procura d'esplendores.

Betim - 26 04 2018
👁️ 315

A CIDADE AO MEU REDOR - Crônicas d'Anteontem

De repente paro no canteiro central da avenida e me sinto rodeado pela cidade. Como se desperto de um sono conturbado, deixo de seguir o fluxo que me impelia a seguir em frente. Paro e observo. Rostos desconhecidos passam por onde também eu acabei de passar: "Eu fora mais um" -- pensei comigo -- enquanto lidava confuso com meu súbito despertar. Carros vêm e vão pelo asfalto sinalizado enquanto a sombra dos edifícios se projeta sobre os largos. Escurecia aos poucos e havia pressa, muita pressa, em tudo e todos que passavam por ali. Apenas eu estava parado.

Embora não fizesse sentido minha hesitação -- se é que se podia chamar de hesitação àquela actitude -- decidi não retornar ao caminho imediatamente. Ao contrário, deixei que o bulício da cidade me envolvesse n'um estranho abandono contemplativo. Era interessante ver a pressa dos outros em contraste com minha apatia, como se eu tivesse conseguido me colocar à parte d'aquela realidade e fosse capaz de percebê-la sem a sentir em mim. Eu era um observador, mas o que observava? Fosse outra a situação, decerto projetaria sobre a cidade em movimento novos espledores e peculiaridades. Mas, não. Tampouco me coloquei ali como cientista social a descrever conflitos urbanos ou como publicitário de agências de viagens para apregoar as excelências do lugar. Humildemente, estava ali com minhas inquietudes e misérias a reconhecer-me no anonimato de cada pessoa que passava, de cada auto que trafegava. Distinguia-me apenas por não ter pressa de sair d'ali. Há quem defenda que o ser humano tenha aversão ao vazio e, por isso, se ocupe em inventar adornos de bom gosto ou histórias tranquilizantes para cada vão percebido no espaço que habita. A cidade ao meu redor, porém -- cenário de existências comuns -- talvez escape d'essa avidez em dar sentido a tudo que caracteriza a existência humana. Ao contrário, tudo o que vejo é a lento decantar de ações humanas n'um lugar que é antes resultado que intenção. É como a poeira que o movimento constante agita indefinidamente por quilômetros até pousar sobre o concreto e encardi-lo, pintando de cinza escuro todas as superfícies aparentes e apagando todas as marcas individuais capazes de indicar pessoalidade: Monumentos, publicidades, pichações, ornamentos, sinalizações, paisagismos... Qualquer esboço de assinatura de pessoal que tente se impor ao olhar coletivo é continuamente coberto e recoberto pela pátina acinzentada de minúsculos sólidos em suspensão.

Percebo que a cidade resiste a ser obra de indivíduos, apagando nervosa os traços d'este ou d'aquele em sua tecitura. E toda arquitetura e todo urbanismo e todo paisagismo são, no fundo, tentativas meios desesperadas de criar o extraordinário da arte dentro do ordinário da vida metropolitana. O espalhafatoso, o confortável, o dispendioso e o elegante são jogados no espaço urbano no afã de fazer com que o citadino abra seus olhos diante da paisagem quotidiana, mas, sobretudo, são jogados ali para se fazerem assinatura d'um indivíduo cercado por oceano de anônimos. Debalde: Assim como a poeira homogeniza a cidade com seu cinza-carvão, também o olhar cansado do cidadão apressado em deixar a metrópole ruidosa o faz insensível ao diferente. Ninguém enxerga nada.

Essa incapacidade de beleza, essa estoica afirmação do funcional e essa negação contínua do individual me exasperavam às vezes: A cidade ao meu redor não é bela senão enquanto paisagem vista de longe. Não é bela aqui n'essa esquina escura cercada de prédios altos e cinzentos. Sem embargo, dou-me conta que essa impessoalidade é mais justa e realista que a assinatura de algum mestre do desenho. Sim, a cidade ao meu redor é matéria modelada por milhões de pés e mãos, não pelo gênio de um só. Quem quiser ver a arte do indivíduo, não será aqui. Ei-lo: O prédio colorido e ousado que causou espécie em minha juventude hoje passa quase desapercebido após envelhecer como eu... Mal se distingue dos demais para evocar qualquer lembrança de seus ideadores. Está ali, mas não estava até eu parar para vê-lo coberto pela mesma poeira cinza que o fez semelhante ao cubo de concreto armado que lhe ladeia.

É esse espetáculo do indistinto que a cidade ao meu redor me oferece. Eu me sento na guia da calçada e aplaudo.

Belo Horizonte - 20 04 2018
👁️ 136

FRANCO-CANADENSE

Desenharam um país de costa à costa
à revelia então de quem se importe:
Era a província entregue à própria sorte,
Enquanto d'além-mar buscam resposta...

A paz que pelas armas foi imposta
Por britânicos e yanques lhe conforte
Se nem a independência e nem a morte
à suave flor-de-lis por fim desgosta.

O grande norte branco se conquista
A partir da corrida imperialista
à Passagem Noroeste indescoberta!

Mas a gente que estava no caminho
Em face de interesse tão daninho
Da própria identidade viu-se incerta...

Betim - 22 04 2018
👁️ 325

AFRO-AMERICANO

Terra da Liberdade, a Norte-América
Tornou republicana a escravidão:
A todo "homem de cor", honesto ou não,
Fez a face da lei sempre colérica.

A livre iniciativa, algo quimérica,
Se lhe parece ao fim a exploração
D'esse país que se crê grande nação,
Embora a negra face cadavérica...

A África qu'ele traz em sua pele
E a América qu'ele tem por sob os pés
Inconciliáveis são aos olhos d'ele.

Mas, a um só tempo síntese e revés,
A sua resiliência lhes revele,
Da História dos vencidos, o outro viés.

Betim - 23 04 2018
👁️ 322

JUDAICO-CRISTÃO

O Deus de Judá reina sobre a Terra
Como se uma consciência colectiva!...
E o respiro de cada coisa viva,
Creem que de seu espírito algo encerra.

Deus d'exércitos sim; Senhor da guerra,
Em seu nome vêm ter com mão ativa
Os corações e as mentes à deriva,
Indiferentes se Ele existe ou se erra:

A ferro e fogo, todos os gentios
Fizeram batizar em turvos rios
Como fizera Cristo entre os judeus.

Foi assim que passadas eras plenas
Ao deus desconhecido, desde Atenas,
O Ocidente O elevou a único Deus...

Betim - 18 04 2018
👁️ 302

GRECO-ROMANO

Os deuses se confundem nas histórias
Dos povos que se fundem n'um só povo:
O vencedor se vê como o renovo
Capaz de reviver antigas glórias.

De modo que se veem premonitórias
As conquistas do velho para o novo...
No afã de descrever tudo de novo,
E ao fim prevalecer por tais vitórias.

A civilização assim transita
D'um povo que melhor se lhe acredita
Para o povo que maior se compreende...

O que resulta d'isso, por cultura
Se divulgue em vã nomenclatura,
Face àquilo que mítico s'estende.

Betim - 19 04 2018
👁️ 341

PERTENCES (vilanela)

Algo que permanece d'aura extensa
Como a essência invisível dos objetos,
Cujo longo uso indicam-nos pertença:

Além do que se faz ou que se pensa
De nós em nossos gostos prediletos,
Algo que permanece d'aura extensa.

Desgastadas relíquias d'uma crença,
Onde os dedos premiram, inquietos,
Algo que permanece d'aura extensa.

Alguma fé absurda mas imensa,
A fazer-nos abstratos mais concretos...
Algo que permanece d'aura extensa.

Os óculos, a pena, o terno, a prensa...
Visto de humanidade já repletos,
Algo que permanece d'aura extensa.

Em tudo que estivemos nós completos,
Quando da ausência, seja-nos presença
Nos ressignificando em amuletos,
Algo que permanece d'aura extensa...

Betim - 15 04 2018
👁️ 365

OS OUTROS - Crônicas d'anteontem

OS OUTROS

Sim, agora que estamos apenas nós aqui, podemos falar d'eles: Coitados, tão estúpidos... tão simplórios... tão idiotas... Nós, que não somos como eles, é que sabemos a verdade! Como eles não sabem? Quando vão se calar e fingir que concordam conosco? Afinal, temos méritos intelectuais inquestionáveis e sistemas filosóficos inteiros! E eles, oras!...

Quem eles pensam que são? Eles pensam? Doutrinados que foram para repetir frases feitas e acreditar em historinhas infundadas!... Ao contrário de nós, que temos verdades sólidas e perfeitas, mas, justamente por isso, universais: Servem para tudo e todos! Ai d'aqueles que não entendem!... Como podem se cegar diante dos factos que elencamos e, sobretudo, da força de nossas convicções?! Até quando serão escravos de ideias alheias? Até quando se submeterão às ideologias apressadas ou aos maniqueísmos primários que os líderes vociferam continuamente?! A propósito, seus líderes: Que ridículos! Matéria para caricaturas! Contradições ambulantes, tangem feito gado a massa buliçosa...

Que espetáculo patético! Quanta manipulação interessante-interesseira! Quantos pseudo-pensadores!!!

Os outros estão lá e nós aqui. Entre iguais, falamos e somos compreendidos: Todos como um! Democracia?! O exaustivo debate com quem só escuta a si mesmo e contra-argumenta lugares comuns me esgota: Falar, discutir, parlamentar... É inútil! Muito mais produtivo impor nosso ponto de vista e eliminar as contradições, internas ou externas.

O curioso é que, saindo d'aqui, nos misturamos... Na multidão da metrópole, parecemos todos iguais: As cores simbólicas dão lugar às roupas do dia a dia. Difícil dizer quem é isto ou aquilo: Coexistimos.

E, embora não concordemos em quase nada, nossa humanidade nos exige ao menos a consciência de nosso destino comum, isto é, a morte. Ah, que excepcional a condição humana... Não basta aos homens morrer: É preciso viver tendo consciência de quão breve pode ser a vida!...

Talvez não sejamos, nós e os outros, tão diferentes assim.

Mas, o que estou dizendo? Onde estão os nossos princípios? Onde estão os nossos hinos e bandeiras? Onde as nossas palavras de ordem! Não devemos baixar a guarda jamais!

Pelas palavras ou pela força, venceremos!

(Mesmo que vitória provisória à espera da próximo entrevero...).

Betim - 15 04 2018
👁️ 295

GESTUAL

Vontade d'expressar tudo sem falar nada
E n'algo inconsequente, igual um soco no ar,
Pôr tamanha energia onde fosse esmurrar
As fuças do sujeito atrás da papelada!...

Sem embargo, traduza a minha dor calada
N'um acesso tão amplo quanto sem lugar...
Como protesto eu fique a lhe gesticular
Com fúria me chispando ainda a má mirada.

Pareça-lhe agressivo ao passo que, agredido,
Consigo me indignar n'esse gesto incontido
Contra quanto me cala e me oprime e me aliena.

Eu, todavia, expresse algo quase inumano
Como explodisse então, pouco republicano,
Sem lhe verbalizar sequer palavra plena...

Belo Horizonte - 10 04 2018
👁️ 318

Comentários (5)

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2024-11-27

Lindos poemas ,meu caro!

Maria Antonieta Matos
Maria Antonieta Matos
2022-03-11

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns<br />

edu2018
edu2018
2018-06-11

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

namastibet
namastibet
2018-04-21

bom vê-lo por aqui

rosafogo
rosafogo
2017-12-27

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!