Escritas

Lista de Poemas

AMPUTADA

A parte que me falta não me impede
De qu'eu m'entregue toda em cada gesto.
E o louco rodopio a que me presto
Me faz com que do peito a dor se arrede.

Eu bailo sobre a bruma que antecede
O tombo sempre em risco manifesto.
Mas aproveito a luz de modo honesto
Ao sorrir quando a câmera me pede.

Pareço ser mais forte do que sou...
Mas, ou seguia então minha vida; ou
Logo a vida seguia mas sem mim.

E a alegria que tenho não é minha,
Mas sim da convicção que me sustinha
De que este não seria já meu fim.

Betim - 09 05 2018
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MEGAFONE

Eleva-se-lhe a voz como a dos profetas
Com vãs palavras de ordem pelas ruas.
Caiba n'uma só frase as ideias suas,
Valendo então por páginas completas.

Espalhe luz nas mentes irrequietas,
E rememore o havido há muitas luas.
Mas mostre do oprimido as faces nuas
E do opressor as máscaras abjetas.

Ao transformar monólogo em discurso,
Projete-se como o último recurso,
Que contasse a verdade dos vencidos.

Insistente, não deixe se calar,
Ainda que a cidade a fervilhar
Responda com buzinas e alaridos.

Belo Horizonte - 08 05 2018
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EU SOU O UNIVERSAL - Crônicas d'Anteontem

Digo e repito: Após dois mil anos o Deus cristão envelheceu. E sou humilde o bastante para admitir que tal constatação sequer é minha, mas do poeta Guerra Junqueira, ainda nas brumas do novecentos. Aliás, preferiria fazer dessa crônica uma releitura honesta dos poemas de Guerra, o que provavelmente enriqueceria o leitor. Contudo, forçado a destrinchar esse Credo às avessas que proferi recentemente, premio o leitor com algumas páginas de reflexão enmimesmada sob o olhar raivoso de crentes e a esguelha desconfiada de não-crentes. Não que eu não acredite em Deus -- o cristão ou outro. Ao contrário, torço para que exista. Admito que muito me conforta ser grato a esse amigo talvez imaginário quando algo dá certo e poder evocá-lo em meu favor quando dá errado, mas é preciso admitir que a ideia do Deus uno-e-trino da doutrina cristã parece ter se desgastado a ponto de não fazer mais sentido na intelectualidade ocidental. E a culpa, mais do que da secularização da sociedade, é sobretudo das instituições religiosas que se denominam cristãs. Religião já teve a função de moralizar os costumes e dar um sentido maior para a existência humana. Hoje em dia, parece apenas um esforço pragmático por poder, seja econômico; seja político. Incapazes de olhar para as contradições da própria doutrina quando confrontada com os conflitos e emergências da pós-modernidade, religiosos simplesmente se esquivam de pensar.

Mas, e daí? Bem, eu tenho andado obcecado faz alguns anos pela ideia de "ordem social". Sim, aquela irmã do "mercado" smithiniano cuja mão invisível nos oferta, dia após dia, víveres bem diante de nossos narizes sem que uma grande e complexa estrutura estatal actue nos bastidores da coisa. Irmã bastarda, reconheço, visto que falem tão pouco d'ela, a ordem social sintetiza uma ideia ainda mais impressionante, a saber, como milhões de seres humanos convivendo face a face na exíguo espaço d'uma mesma cidade conseguem não se trucidar. Se não convencem boas intenções ou livros de autoajuda, tampouco vão adiantar visões positivas sobre a índole (o coisa que o valha) d'esse animal excepcional que é o homem em sociedade. Para a compreensão de tal fenômeno urbano, é possível se perceber duas grandes fontes de normatizações pré-modernas que estabeleceram os parâmetros para uma "cultura da ordem social": O poder secular e o poder temporal. N'outras palavras, diante dos conflitos e injustiças do dia a dia (que incluem a convivência muito próxima de fome, miséria e ignorância com luxo, opulência e expertise), as regras que são incutidas nos corações e mentes das pessoas evocam "Poderes Maiores" capazes de punir quem decide sair da linha. Com efeito, se todo injustiçado decidisse responder com violência ao querelante, teríamos banhos de sangue nas ruas, não automóveis.

O Estado pune o violento e, se este falhar, Deus punirá. Bem, ao menos essa era a lógica do sistema: Seguir as regras para que todos consigam conviver ainda que ofendidos e incomodados pelas impertinências do próximo. A ordem social, portanto, é baseada no temor ao Estado e no amor a Deus. Seguimos as regras para evitar sermos submetidos pelo "monopólio da violência" que o Estado com suas forças armadas e policiais impõe e procuramos "agradar a Deus" (ou, para além da tradição ocidental, os deuses) na esperança que repetidos sacrifícios, orações e ritos O sensibilizem para nossa condição de seres humanos. Em larga medida, tudo o que fazemos para viver em sociedade depende de regras definidas pelos poderes estabelecidos pela colectividade, neste mundo e no outro.

O problema é que não parece ser o bastante, haja vista que a felicidade e o sucesso pessoal parecem independer do seguimento honesto de tais regras. E, sendo a sociedade um agrupamento de indivíduos focados em suas necessidade e vontades, a ideia de sacrificar o próprio bem-estar ou sanidade em nome do bem comum (nos termos do que as autoridades assim o consideram) soa simplesmente absurda para as pessoas hoje em dia. O Deus de Jesus Cristo, após acompanhar e abençoar a progressiva expansão dos valores culturais -- a ferro, fogo e vil metal -- do Ocidente mundo afora, chega ao terceiro milênio envelhecido, quase senil. Escrevo não para causar espécie (não apenas, ao menos), mas sim para admitir que mesmo que Sua importância no imaginário colectivo ainda seja perceptível, ninguém mais em sã consciência tem medo de ir para o Inferno bíblico. Por outro lado, se a esperança do Céu ou do Paraíso persistem, ninguém parece estar disposto a fazer muito mais que confiar no amor de Deus para se safar do julgamento de seus hábitos, actos, palavras e pensamentos. Mesmo os ortodoxos -- que, admitamos, são uma minoria quase folclórica -- não resistem ao cinismo para confrontar suas crenças religiosas com as práticas da sociedade secularizada.

Se a velhice de Deus é resultado de dois mil anos de espera na conclusão do cumprimento das Escrituras com a Encarnação do Verbo Divino em Jesus Cristo, Sua senilidade é percebida com a incoerência d'aqueles que exigem Sua presença no mundo, via de regra, por meio das armas e do dinheiro. O que assistimos no mundo, sobretudo a partir de dois mil e um, não é uma odisseia no espaço, sim uma guerra contra o terror. Religiosos ressentidos com a secularização da sociedade decidiram aterrorizá-la ao invés de revisar sua doutrina e e dialogar com não-crentes. Saliente-se, porém, que o fundamentalismo não é um privilégio de muçulmanos, mas ainda um movimento reaccionário também perceptível em grupos de orientação judaico-cristãos, cuja resposta para qualquer questão contemporânea ainda é restrita aos seus livros sagrados. Mais uma vez na História, em nome de Deus, religiosos apresentam um projeto de poder e se organizam para nos governar com o discurso de que são sumamente honestos diante d'um sistema político-estatal corrompido. Não explodem bombas (ainda...), mas perseguem com violência as religiões afro-brasileiras e o catolicismo sincrético, além de abençoar veladamente a barbárie contra minorias LGBT.

Definitivamente, os religiosos do terceiro milênio não são santos! Longe d'isso: São empresários do entretenimento e do jornalismo que mergulham a opinião publica n'uma sensação de urgência constante e artificial. No império das certezas, há pouco ou nenhum lugar para a reflexão, apenas para a acção. Seus jornais, filmes, telenovelas e mesmo propagandas manifestam esse contínuo empoderamento para enfrentar o mundo.

E Deus, se existir, está vendo isso tudo, velho e senil...
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BISMILÉSIMOS ANOS

Embora não findasse ainda o mundo,
Os anos que seguiram ao dois mil
Viram o transtornar quase febril
Do terror mudar tudo n'um segundo.

O ódio nos corações se fez fecundo,
Mostrando-se ora fútil; ora vil.
Mas Deus envelhecera... E já senil
Evocam-no do abismo mais profundo.

Sim, mais do que vigias p'la manhã
Esperaram p'la aurora do Milênio
Que se mostrou ao fim um tanto vã.

Quando mal se difere o tolo e o gênio
É porque toda esperança jaz mal-sã
Frustrada em meio aos fogos do proscênio...

Betim - 06 05 2018
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AS PAZES (fado)

Sei que não sei evitar
Teus olhos vorazes.
Mas, se quiseres voltar,
Faz-me como fazes:
Amando-me após brigar,
Façamos as pazes.

Ama-me com tal furor,
Que quando te fores
Te guarde saudade, ou pior:
Eu caia d'amores!...
E ao voltares, sem pudor,
Já te aceite as flores.

Fala-me assim envolvente,
Qu'eu nada te nego.
Cala-me mais frequente
Em teu aconchego.
Vem e serás tão-somente
A quem eu m'entrego.

Sei que não sei evitar
Teus olhos vorazes.
Mas, se quiseres voltar,
Faz-me como fazes:
Amando-me após brigar,
Façamos as pazes.

Betim - 05 05 2018
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DEVERAS

Seus olhos reluzindo o entardecer
Davam-lhe uma beleza quase triste,
-- Se é que, deveras, algo assim existe
E, mesmo se existir, se possa ver... --

Talvez lhe contemplasse sem saber
Que algo triste no belo 'inda persiste
E mesmo que sorrisse d'algum chiste
Não lhe perceberia um bem sequer.

Estando o belo e o triste pouco distos,
Talvez não fosse nada de estupendo
A luz n'aqueles olhos tão benquistos.

Deveras, tal tristeza ali havendo,
Não estava em seus belos olhos vistos,
Mas antes em meus tristes olhos vendo.

Betim - 04 05 2018
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MIGO COMIGO

Tenho o estranho costume de sozinho
Falar comigo mesmo a pensar alto.
Talvez porque emoções vindas de assalto
Deem voz ao sentimento em desalinho.

Talvez, em solidão, de mim mesquinho.
Ou ainda extravagância d'um incauto...
Verbalizar-me ao abismo n'outro salto,
Que de mim sobre mim faz descaminho.

Assim -- meio neologismo; meio pleonasmo:
Migo comigo, ou seja, enmimesmado
E em autocompanhia ante o marasmo...

Chamem como quiser!... O mais errado
É nunca a si falar para se ouvir
Exacto o que lhe está a consumir.

Belo Horizonte - 19 10 2005
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REMORSOS

Se alguma utilidade têm os erros,
Está no evidenciar a imperfeição...
Tem consciência da própria condição
Quem vaga taciturno pelos serros.

Na noite mais escura anda aos berros
Em busca da impossível redenção.
D'um abismo a outro, ecoa em cantochão
O lamentar uivante dos desterros.

As pegadas que deixa pela terra
São as mesmas que todo aquele que erra,
Indo sem saber onde e sem porquê.

E os recordos d'escolhas infelizes
Leva consigo feito cicatrizes
Ao vazio que em seus olhos se vê.

Betim - 30 04 2018
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LUSO-BRASILEIRO

Assim como a cor d'olho não colore
Aquilo que se tem à sua frente,
Tampouco a cor da pele ao que se sente
Altera o quanto ria e o quanto chore.

Não me queiram, portanto, que deplore
A língua como força d'essa gente
Na voz de quem não cala e não consente
E à luz de quanto a mente rememore.

Ao contrário, mestiço que sou eu,
Reconheçam pela híbrida linguagem
O vernáculo audaz do verso meu.

Pois certo de que não tão bom selvagem
-- Cujo belo paraíso se perdeu... --
Transmito mais além minha mensagem!

Betim - 24 04 2018
👁️ 300

SÍRIO-LIBANÊS

Quando a guerra tornou-se realidade
Despatriar-se foi a única saída.
Por ironia, quem lhe deu guarida
Chamava-lhe de "turco"... Na verdade,

Tomaram d'ele até a identidade
Para que então seguisse sua vida.
Aqui, a sua guerra foi vencida
No trabalho, não na insanidade.

Hoje em dia, no campo damasceno
De novo vê-se a guerra e seu veneno
Como há séculos tem acontecido.

Entretanto, tamanha é a mudança
Que essa terra que fora d'esperança
Também agora o deixa desvalido.

Betim - 25 04 2018
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Comentários (5)

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2024-11-27

Lindos poemas ,meu caro!

Maria Antonieta Matos
Maria Antonieta Matos
2022-03-11

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns<br />

edu2018
edu2018
2018-06-11

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

namastibet
namastibet
2018-04-21

bom vê-lo por aqui

rosafogo
rosafogo
2017-12-27

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!