Escritas

Lista de Poemas

UBÚNTU

Não adormeças sobre os teus anseios,
Tampouco deixes sonhos embotados.
A solidão ligeira faz passados
Os princípios e os fins quando sem meios.

Andaste tu perdido em devaneios
A ver como se d'olhos já vendados...
Não julgues de antemão desencontrados
Tanto os desejos teus quanto os alheios.

Desde que o mundo é mundo, as pessoas
Têm para si razões sempre tão boas
Que nos outros não veem senão conflitos.

Se, contudo, a verdade se partilha
Crescer co'os outros é a maravilha
Que faz os nossos dias mais bonitos.

Belo Horizonte - 05 04 2018
👁️ 317

POR ENGANO

Cumprimentou-me sem saber quem era.
Acenava, sorrindo-me sem graça.
Há tempos não o via e n'uma praça
Calhou de reencontrá-lo: --"Besta-fera!..."

Com efeito, das brumas da quimera
Retorno balbuciando uma chalaça.
E, antes que da surpresa se refaça,
Pede-me um adjutório e fica à espera.

Recordo-me do amigo qu'ele fora
No tempo qu'eu o tinha como amigo
E da distância havida vida afora.

"Mas que cara de pau!" -- pensei comigo --
"Nem se lembra de mim". Digo-lhe, embora:
-- "Perdão, foi por engano." -- e fui embora.

Belo Horizonte - 25 03 2018
👁️ 297

MALFADADO

Todo dia o dia todo,
Ando contrariado
Por saber-me d'algum modo
No amor malfadado...
Tanto que nem me incomodo,
Quando dá errado.

Eu mais dia, menos dia
Desisto de tudo:
Qualquer mínima alegria,
D'amor sobretudo,
Me põe em má companhia
E eu me desiludo.

Tal e qual jogo d'azar
Outro amor em vão
Me fez quase acreditar...
No fim, bem ou não,
Tão-só soube revirar
O meu coração.

Todo dia o dia todo,
Ando contrariado
Por saber-me d'algum modo
No amor malfadado...
Tanto que nem me incomodo,
Quando dá errado.

Betim - 02 04 2018
👁️ 354

OLARIAS

Do barro que sou feito, eu também faço:
Tijolos, telhas, vasos, santos, gentes...
Viver a amassar lama -- sãos ou doentes! --
Mesmo que o pão se veja sempre escasso.

Mas, da casa humilde ao grande paço,
Haverão-d'encontrar bem aparentes
Os sulcos de meus dedos! Entrementes,
Definham meus costados de cansaço...

Isto de ao abstrato dar mais concretude
Traz-me a incomensurável solitude
Com a qual lido desde que m'entendo.

Sem embargo, trabalho por obrar
Até que um dia enfim tenham lugar
Os lares que nos sonhos sigo vendo.

Betim - 31 03 2018
👁️ 323

SEM SAÍDA

Convém me repetir todos os dias
As razões que me levam a deixar
Os caminhos que seguem sem chegar,
Enquanto muros cercam fantasias.

Em becos; pelas vielas mais sombrias,
Andei a me perder sem encontrar:
Bati em cada porta do lugar!...
Por horas devassei casas vazias.

Debalde... Sem saída nem entrada,
A cada tentativa em derredor
Só vendo todo o esforço dar em nada.

Sequer se trata já de amor ou dor,
Sim de saber findar uma jornada,
Que há muito não tem nada em seu favor.

Betim - 20 12 2003
👁️ 340

LUNÁTICO

Enquanto quatro fases mostra a lua,
Também eu apresento aos meus iguais
Mais personalidades disformais,
Onde algum mal da mente se insinua.

Penso que quando um eu meu s'extenua
Outro o sucede e, assim, um outro mais...
De modo que com modos impessoais
Evite enfim expor minh'alma nua.

Em vão: Muitos me têm por louco à solta!
Como se fosse à lua alguém sujeito
E andasse sempre ao léu não sem revolta.

Embora não o negue, contrafeito,
Sinto a lua afastar-se a cada volta
D'um mundo cada vez mais imperfeito.

Betim - 24 03 2018
👁️ 347

LUPERCÁLIA (écloga)

LUPERCÁLIA (écloga)

I
Tinha uns olhos buliçosos
D'enxergar tão-só malícias...
Salivando d'antegozos
As rebuscadas delícias
De jovens belas mulheres.

Face a seus rostos mimosos
Imaginava as carícias
Que, virgens, guardam a esposos...
E busca, mesmo a sevícias,
Arrancar-se-lhes prazeres!

II
Dissimulava, contudo,
A sua extrema avidez,
Passando por sério e mudo
Àquelas que por sua vez
Lhe admiravam a prudência.

Tomado de cupidez,
Bastava um ombro desnudo,
Ou algum decote talvez,
Para esquecer-se de tudo
E perder-se na indecência.

III
Ele -- homem de meia-idade --
Sempre em roda às raparigas
Quase um lobo, na verdade,
Como o de velhas cantigas,
À espera da hora mais certa...

Dava-se tal liberdade
Que, com palavras amigas,
Impunha-se a outra beldade
Em meio a suas fadigas
Ou quando menos alerta.

IV
E, obtendo sua confiança,
Sugere um fácil desvio
Que de dedo em dedo avança
Por sobre o peito arredio
Até que revele um seio...

Ao pôr as ideias em dança
E o corpo donzel no cio,
Goza a súbita mudança,
Com um sorriso sombrio,
Visto seu secreto anseio.

V
Ao fauno s'entrega a ninfa
Nas folhas de doce outono...
Junto à translúcida linfa
Das florestas sem dono
E seu borbulhar constante.

Longe, uma andorinha grinfa
A despertá-la do sono
Como fosse a paraninfa
D'esse seu só abandono
Por tão sedutor amante.

VI
Clama em vão de tal desdouro
Após que a virtude lhe falha...
Ignora o passo vindouro
E até se chora ou gargalha
Em face do acontecido.

O outro, grinalda de louro,
Orna-lhe a fronte grisalha!...
Da mesma andorinha, o agouro
Escuta sem que lhe valha
Mais que um olhar atrevido.

VII
Ela seguirá co'a vida
E ele seguirá co'a sua.
Mas a inocência perdida
Para o fauno se insinua
Tão-somente canalhice.

Já a ninfa adormecida,
Sempre pálida e nua,
Ser-lhe-á a imagem retida
Que em lembranças atenua
A solidão da velhice.

Contagem - 22 03 2018
👁️ 146

OÁSIS

No meio do meu caminho, haja um lugar
Onde eu queira parar quando cansado.
Lá, me ocupe em estar desocupado
E em contemplar os céus me demorar.

A vida ali transcorra devagar
Como se, sem futuro nem passado,
Pudesse meus pesares pôr de lado
Para mais docemente repousar.

Quedas d'água brilhando contra o sol
N'um chiado permanente mas tranquilo,
Enquanto olho o ir e vir do meu anzol.

E, indiferente em ser eu isto ou aquilo,
Inclinar-me tal-qual o girassol
Grato pela ventura d'este asilo.


Betim - 08 03 2018



👁️ 334

SARAU

Vinde bem todo aquele que é bem-vindo!
Assim que atravesseis os meus umbrais,
Comigo o bom da vida desfrutais
Antes que o nosso tempo seja findo.

Se não me acompanhais pelo que é lindo,
Ao menos não choreis d'estes meus ais...
Retribuo-vos com ósculos cordiais
Mil salves ao vestíbulo se ouvindo!

Trazei vossa alegria para a festa,
Certos de que a verdade que nos resta
Cabe inteira n'um cálice de vinho.

Pois, quando vós enfim fordes embora,
Sabereis de mim quanto sei agora:
Eu tão-somente andando tão sozinho.

Betim - 15 03 2018
👁️ 370

LIVRÍSSIMO

Eu no livro me livro do que ignoro,
E me transporto então para além-mim...
Tudo que era verdade -- não e sim --
Ora soa como um vago desaforo.

Pois não importa se escrito ao riso ou choro,
Letra a letra me leva para o fim;
Aonde o olhar avança ainda assim
A perder-se nos vãos que rememoro.

Porém no livro tomo a liberdade
De ser quem nunca fui (jamais serei!...);
Seja eu herói, vilão, guerreiro ou rei...

Se em sua fantasia outra verdade,
Que já da realidade me desperta
E, para o bem e o mal, a mim liberta.

Belo Horizonte - 20 03 2018
👁️ 363

Comentários (5)

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2024-11-27

Lindos poemas ,meu caro!

Maria Antonieta Matos
Maria Antonieta Matos
2022-03-11

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns<br />

edu2018
edu2018
2018-06-11

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

namastibet
namastibet
2018-04-21

bom vê-lo por aqui

rosafogo
rosafogo
2017-12-27

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!