Escritas

Lista de Poemas

ZODÍACO

Quem sou senão aquele iluminado,
Cujo Fado era escrito nas estrelas?...
Na noite em que nasci, haviam elas
Por asterismo Touro desenhado.

E desde então as tenho procurado
Na abóboda celeste por sabê-las
Contando a minha história sempre belas,
Em tudo a qu'eu estava destinado.

Assim, quando a Fortuna me sorri
Com os dons e as venturas que pedi,
Eu elevo meus olhos ao Infinito

Do mesmo modo, quando uma desgraça
Por sobre a minha vida inteira passa,
Ao fim eu só observo: "Estava escrito...".

Betim - 15 09 2018
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METAFÍSICAS À PARTE

Sempre tive dificuldade em entender o discurso metafísico tanto quanto as grandezas astronômicas. De facto, os conceitos absolutos e transcendentes do Ser pareciam não caber nas palavras comuns, constrangendo os filósofos a lançarem mão de neologismos ou, como faziam normalmente, à ressignificância dos vocábulos disponíveis mediante à redação pormenorizada de conceitos. Assim, na Psicanálise e no Existencialismo, assistimos a contínua criação de categorias ontológicas que fossem capazes de explicar o ser humano em sua condição, em sua dor e, sobretudo, em sua contradição. Sem embargo, atravessados pelo desenvolvimento da Neurologia em particular e das Bio-medicinas em geral, somos convidados n'esse Milênio que mal se inicia a reduzir o Ser Humano à Química Molecular. Sim, nada mais prosaico: "Tenho múltiplas personalidades? Vamos começar com Diazepan 10mg!" - ou ainda: "Odeio tudo e todos, inclusive a mim!" - diz um outro - "Melhor suspender os opioides e entrar direto com o Lítio" - e por ai vai... Que decepção para a intelectualidade dos novecentos! Que absurdo admitir os esforços dos homens e mulheres mais brilhantes do século XX relativizados por um burocrático vade-mécum de medicamentos!... Fazer o quê?...

Bem, seria prudente não desdenhar tamanha produção filosófica ontológica apenas porque outros meios apareceram. Pode-se argumentar que a Filosofia não prescinde de aplicação na solução de problemas práticos ou que a Psicanálise continua à serviço da Medicina na missão de investigar Consciência, Interioridade, Alma ou qualquer coisa que o valha. A realidade, porém, é a latente perda de prestígio de disciplinas diante d'um público que, ao invés de autoconhecimento, prefere buscar narcóticos. O que resta à Metafísica é seu olhar desmistificador, capaz de reduzir discursos pretensiosos a papagaidas conforme o interesse do intelectual de plantão. Por essa e outras qu'eu, faz muitos anos, desisti de procurar verdade em debates intelectuais, sejam os acadêmicos; sejam os judiciários, afinal, mesmo os arrazoados mais rigorosos são contrapostos indefinidamente em réplicas e tréplicas apenas como condição para haver o pensamento ("Vaidade de vaidade! Tudo é vaidade" - já dizia o Eclesiastes...). Não deveria haver vencedores no debate de ideias, sim mútua influência para que cada um dos debatedores saia d'ali com uma percepção diferente da que tinha quando entrou. Refugiados no pensamento abstrato acerca do indivíduo, os metafísicos assistem as disputas ideológicas propostas pela Mídia Eletrônica como se árbitros não autorizados enquanto o público consome avidamente aquela baixaria como se um desporto qualquer, torcendo para um vencedor... Demonstrar incoerências tornou-se um passatempo infeliz para filósofos existencialistas desencantados com seu objeto de estudo já um tanto avacalhado, a saber, o homem contemporâneo em sua interioridade subjetiva.

Não havendo concordâncias, a construção de sínteses também se torna inviável, ou pior, arbitrária. Pelas armas, pelo voto, pelo medo, pela ilusão coletiva, pelas estatísticas, pelas mentiras condescendentes etc... D'um modo ou de outro os fortes dominarão os fracos até que novos e mais fortes dominem os então enfraquecidos, eis como ciclicamente a História se repete há milênios. O povo - a multidão plebeia de desfavorecidos - esse há-de passar de mão em mão, indiferente ou persuadido, observando à distância o xadrez dos grandes... Para alguns, esclarecidos ou nem tanto, restará a antropofagia criativa da Metafísica pela Arte. Evocada pelos artistas em seu caos, a Metafísica senta-se na galeria e se congratula em espalhar abstrações conceituais capazes de dar sentido àquelas pinceladas nervosas ou ainda a instalações provocativas. O vago se encontra com o vazio e as estranhezas se completam, celebrando o casamento entre Metafísica e Arte Contemporânea.

Mas, exactamente por se pôr a serviço dos poderosos, discordo que seja missão da Arte buscar a verdade. Desde entreter até fazer pensar, o que a Arte faz é especular e descrever subjetivamente. Aliás, esse é o poder do método artístico: É livre e mesmo irresponsável no que se propõe. Ninguém em sã consciência deveria acreditar que Deus existe apenas porque um artista tentou imaginar como seria sua aparência e a materializou n'uma tela. Tal liberdade, todavia, é sedutora e continuamente ao longo da História fora convocada pelos Donos do Poder para induzir ao erro seus governados. Celebrizando as imagens de Deus, as monarquias e repúblicas mundo afora buscavam tão-somente um equilíbrio moral capaz de construir a Ordem Social de que necessitavam para continuarem tendo o que governar. O grande argumento em favor da limitação das liberdades individuais sempre foi o temor de assistir a sociedade se fragmentar em tribos, clãs e, por fim, famílias, n'um estado contínuo de todos contra todos, como apresentou tão vivamente Maquiavel em sua "História de Florença". Ou seja, a tutela do Estado e dependência do Mercado são admitidas amplamente pelos homens e mulheres pós-modernos por desilusão ou comodismo ou ambas as coisas. O caos que advém ao rompimento da Ordem Social tal como assistimos on-line desde a Síria, o Iraque e o Afeganistão em seus rios de sangue infindáveis parecem carregar dentro de si a advertência plena contra o cidadão, exortando-o a viver ordeiramente na "terra que lhe cabe d'esse latifúndio" e, por bem ou por mal, viver pagando os boletos que lhe chegam pelos Correios. Em última análise, existir é pagar para ver.

Sempre me causou profunda espécie que justamente a Alemanha de Weimar - Pátria da Bauhaus, da Fenomenologia e da Psicanálise, junto com seus satélites germanófonos - viesse a se tornar berço do Nazismo e túmulo de etnias inteiras em plena era da Modernidade! Sim, pasmo de ver os aforismas de Nietzsche sendo usados para modelar um Super-Homem ariano, nobre e ilimitado visto que livre de Deus e inteligente o bastante para sepultar moralidades pré-industriais. Oh sim, pasmo de reconhecer o carácter de Heidegger como nazista de carteirinha e alçado a Reitor-substituto por seus pares nazistas. Aparentemente, a Metafísica do século XX renunciou à tentativa de entender o homem moderno pós-cristão e passou subsidiar fundamentalismos desastrosos como o Eurocentrismo... Esvaziadas as ideologias pelo embate francamente militar da Guerra Fria, o desinteresse pela possibilidade de entender o homem sem Deus em sua moral relativista tornou a Metafísica um território paradoxalmente desabitado e vazio, pois, à margem das questões levantadas pelo Socialismo Internacionalista d'um mundo pós-colonial mas repartido em distintos níveis de desenvolvimento econômico. A questão já não era apenas "o que é a vida/existência" - como provocava até bem recentemente o saudoso Abujamra - mas antes: "quando a tecnologia e o conforto material serão para todos?" ... Sem Deus, a grande ambição humana passa ser o acesso aos bens de consumo e o registro exaustivo de suas "experiências" sejam elas psicodélicas, intelectuais, artísticas, gastronômicas, sexuais, espirituais, corporativas, internacionais... O humano, em sua interioridade, passa a ser sobretudo a frustração de não participar desse "Admirável Mundo Novo" - que, aliás, se afasta conscientemente do mundo cinza, cientificista e totalitário pintado por Aldous Huxley... - onde o valor continuamente agregado aos objetos de consumo pela tecnologia, pelo design e pela publicidade torna a existência um silenciar contínuo de qualquer voz que possa ter a Consciência. Não há certo ou errado e tampouco questões de consciência para quem a felicidade consiste em ostentar o novo iPhone XS | Apple‎... Tudo d'uma simplicidade espantosa quando se considera o ser humano em seu tédio e busca de reconhecimento. Afinal, qualquer coisa serve para adquirir celebridade ou ao menos fazer sentir o coração, ainda que seja atirar a esmo n'um cinema ou n'uma escola infantil. Somos bilhões e bilhões ordenados por aplicativos de celular, d'olhos vidrados nas telas azuis que nos bombardeiam com informações interessantíssimas enquanto nossos pensamentos aguardam n'um eterno estado de alheamento. Não pensamos, não sentimos, logo, não sofremos. Vamos morrer um dia, e dai? Façamos um meme idiota para trabalhar objetivamente nosso medo da morte, da dor e da solidão enquanto enchemos a cara de álcool e cannabis. É como diria mestre Alberto Caieiro: "Há Metafísica bastante em não se pensar em nada".

É isso.
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ASAS DE BORBOLETA

Quem me tocou roubou-me de mim mesma.
Co'as asas aleijadas, não me movo;
Pois sempre a reviver tudo de novo,
Triste e pálida feito uma avantesma...

Não regrido à lagarta, sim à lesma!
(Por mim, regressaria antes até do ovo...):
Tudo envelhece ainda muito novo;
De luto em flores roxas de quaresma.

Como pôde enodar-me por capricho?
Como?! Abandonar-me que nem lixo,
Quando pousada alvíssima entre os lírios?!...

Por cupidez estúpida e mal-sã,
Não fez mais que deixar sem amanhã,
Minh'alma obscurecida de delírios...

Belo Horizonte - 10 09 2018
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ARTIMANHAS

Se me deixo enganar por aparências,
É porque o olhar carece de bom senso.
Vai quanto sinto à frente do que penso
E adquiro por más artes boas ciências...

Foi por tentativa e erro que experiências
M'ensinaram a ver quanto é pretenso
Ser e parecer ser diante do imenso
Jogo das circunstâncias e consciências.

Explico-me: O que a vida faz conosco
É nos pôr as vontades indefesas,
Mostrando reluzente o que era fosco.

E ao fim, ao cobiçar sem subtilezas,
Torna-se um espetáculo tão tosco,
Que só faz ludibriar nossas certezas.

Betim - 12 09 2018
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CALEIDOSCÓPIO

A imagem que s'espelha tantas vezes
Geometriza-se em formas coloridas,
Repetindo ao infinito as divertidas
Impressões d'uma mente sem reveses.

Microcósmico palco de entremeses
Ao girogirar fábulas perdidas,
Qual personas nos mostram nossas vidas
Por miríades d'outros vãos talvezes...

Tudo passa como óptica ilusão,
Embora eu saiba ver co'o coração
Verdades intuídas ali dentro.

E busco, embasbacado, uma beleza
Que me revele a própria natureza
Em padrões repetidos desde o centro.

Betim - 13 09 2018
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PERFUROCORTANTE

A lâmina aprofunda pelo ventre
O talho que divide todo um povo.
E eu, embora lamente, me comovo
Que a Nação à direita se descentre.

Mais as opiniões divergem entre
O medo e o medo do medo de novo...
Já nem a fala nem a acção aprovo
Do que tão-só nos danos se concentre.

Quem com o ferro fere, mal ferido
Ver-se-á pelo discurso ultraviolento,
Que sustenta contra o outro desvalido.

Opor o bem e o mal todo momento
Desconhece não ter armas partido,
Bem como ter sangue o sanguinolento.

Betim - 06 09 2018
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EM SÃ CONSCIÊNCIA

Nunca! A não ser que já de todo louco...
Nada nem ninguém há-de me mudar
De ideia se as ideias fora do lugar,
Falando até que fique quase rouco.

Não que das razões faça muito pouco:
-- Razões que a Razão sabe ignorar... --
O facto é contra os factos eu sonhar,
Ouvindo até deixar o ouvido mouco.

Sandice! Parvoíce!! Insanidade!!!
Não há quem seja sábio de verdade
Sem um grão de loucura mais fecundo.

Assim, para curar a mente insã,
Há-que se andar ao sol cada manhã,
Poetando para Deus e todo mundo.

Betim - 05 09 2018
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DEUS E TODO MUNDO

Não venham me falar do que inexiste
Ou aquilo que está muito além de mim.
Pois Deus e todo mundo veem, por fim,
Que o que conta é tão-só não ser tão triste.

Certo que mais feliz é quem insiste
Em jamais deixar tudo ser tão ruim
E, sem se perturbar se não ou sim,
Faz das próprias misérias algum chiste.

Todo mundo se faz mais crente ou casto,
Na fé de que o Divino lhe acompanha
E tem que Deus é pai; não é padrasto.

Mas a vida reduz-se a um perde-ganha,
No qual as paixões levam-nos de arrasto
E ao fim gozo por pranto se barganha...

Betim - 06 09 2018
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ATEUS NÃO DIZEM ADEUS

Ateus não dizem adeus,
Eles só dizem "ao nada"...
Estes que vivem sem Deus
Despedindo-se dos seus
Creem vazia sua estrada.

Não que nada lhes importe
Ou que a ausência lhes console,
Só não veem facto mais forte
Sobre a vida após a morte
Ou que ao Universo controle.

O que veem é o infinito...
Bilhões e bilhões d'estrelas
Onde, nem feio nem bonito,
O homem como um mosquito
Se apequena diante d'elas.

Necessitam ver para crer
E pensar ao demonstrar
As verdades d'um saber,
Em vez de sem entender
Bem ou mal acreditar.

Enfim uma explicação
Que a religião se lhes nega.
Ao que, embora sem paixão,
Veem tão-só escuridão
Na luz a que a fé se cega.

Betim - 08 09 2018
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O EXTRAORDINÁRIO SR. GENTIL

Certas coisas nos emocionam sem que a gente consiga explicar por quê. Toma-se conhecimento de figuras quase anônimas no tecido da sociedade com vidas que pouco ou nada têm a ver co'as nossas e, inexplicavelmente, a notícia de sua existência atrai de modo misterioso à nossa sensibilidade e atenção. Foi assim com o extraordinário Sr. Gentil. O homem viveu uma vida desinteressada e desinteressante até o dia em que decidiu que seria feliz. Sim, feliz, mas não uma felicidade vulgar como tantas que se vê por aí. Não. Não desejava o extraordinário Sr. Gentil a fumaça de uma carreira amplamente reconhecida ou a fantasia de um amor perfeito correspondido. Tampouco era a felicidade dos que se dizem autossuficientes e veem alegria e beleza em qualquer coisa que aparecesse diante de seus olhos, n'um engano de si mesmos que beira o patológico. Com efeito, a felicidade buscada por ele era muito peculiar, mas nada tinha da resignação afetada de tantos que, sendo infelizes, preferem sistematicamente ignorá-lo.

Se o extraordinário Sr. Gentil não se contentava com pequenas coisas, tampouco se iludia com as grandes. Via o mundo como era, com uma lucidez que raras vezes a maioria de nós se permite. Ele tinha sua família e seu trabalho, como tantos, mas jamais os idealizava a ponto de afirmar que lhe bastavam. Sabia precisar de mais. Sabia haver em sua interioridade um universo inteiro a explorar e isso o divertia imensamente. Sem embargo, desconfiava sumamente dos sorrisos fáceis para embelezar rostos sob os holofotes, não confundindo nunca alegria com felicidade: ser admirado pelos outros lhe produzia uma indiferença absoluta e desejar tal disparate lhe parecia quase imbecilidade. Esperar pela aprovação de estranhos não contribuía em nada com seu desejo de ser feliz, ao contrário, parecia-lhe outra amarra na qual o espírito humano se prende para não lidar com o aleatório da vida. Ser livre, entendeu o extraordinário Sr. Gentil, era gostar do imprevisto e admirar a pessoa que nos tornamos à medida que as circunstâncias vão nos exigindo.

Mas tudo isto, embora filosófico, não era nada demais. O que fizera o Sr. Gentil, portanto, para se tornar extraordinário? Sim, vivera uma vida única, no limite entre a moralidade e o crime. Seu extraordinário feito fora d'uma ambiguidade absoluta, onde certo e errado não apenas se confundiam como se complementavam. Difícil dizer algo sobre a sua história senão que era extraordinária: Amor, dor, ódio, sexo, egoísmo, conveniência, ira, canalhice... Todas estas abstrações descrevem adequadamente sua vida sem esgotá-la. Eu mesmo, cada vez que recordo do Sr. Gentil, deparo-me com um viés novo cuja pertinência faz mudar radicalmente meu juízo sobre sua existência. No fundo é apenas por isso qu'eu, na falta de palavra melhor, qualifico a ele e sua vida de extraordinários. Escrevendo, convido o leitor a tirar as suas próprias conclusões.

........

Gentil era um homem de quase cinquenta anos quando o conheci na casa de minha sogra. Era um solteirão bem apessoado com uma fala algo janota; algo aristocrática... Lembro-me que não me causara grandes impressões a princípio. Apertei-lhe a mão como a de tantos n'aquele dia em que conhecera a ele e seus irmãos. Era, com efeito, o mais expansivo e bem trajado dos três. Conhecera-os por ocasião do meu noivado, visto serem parentes ricos e distantes de minha noiva. Ela, muito jovem ainda, apresentara-me aqueles seus três primos com idade para serem tios dos quais jamais comentava, todos bem sucedidos e fora do seu círculo de convivência familiar. Quanto a mim, com vinte e poucos anos, eu não me interessava absolutamente pelos seus parentes. O Sr. Gentil, porém, tinha um hábito que logo me deu o que pensar: Usava ele uma espécie de piteira para fumar, de modo que seus dedos tão tinham as manchas de nicotina comuns aos fumantes. Embora não fosse inédito para mim saber de pessoas que evitassem tal nódoa, confesso que jamais tive notícia d'um homem não afeminado que o fizesse... Esta fora uma peculiaridade entre tantas que conheci a seu respeito, à medida que tomava conhecimento de sua vida. N'um segundo ou terceiro encontro -- tivemos uma convivência esporádica antes do meu casamento -- conheci sua filha e a mãe dela. Causou-me espécie o facto de que ele não só não usava aliança como demonstrava morar tanto com a filha -- uma menina tímida d'uns onze anos -- quanto com a mãe -- uma senhora quase tão velha quanto Gentil, mas que ele tratava como se sua empregada fosse... Engoli em seco minha curiosidade ao longo de todo aquele encontro e qual não foi minha surpresa ao indagar de minha sogra, que era tia d'ele, o porquê d'aquela estranha convivência. E ela, para meu pasmo, confirmou que aquela senhora era efectivamente a empregada doméstica de Gentil! Insisti, perguntando da filha, ao que ela se furtou de fazer qualquer comentário além do óbvio: "Era filha d'ele com a empregada"...

Aquela revelação esdrúxula me fez revisitar cada detalhe da fugaz convivência que tive com o Sr. Gentil. Marcara-me o carinho que tinha com a filha em contraste com a secura reservava à mãe. Sim, era uma coisa quase palpável o estranhamento que aquela singular família causava a todos ao redor. Ninguém comentava, como se a situação não fosse nenhuma novidade, mas todos pareciam pisar em ovos cada vez que falavam com o Sr. Gentil e ninguém, absolutamente ninguém, ousava dirigir a palavra à sua filha ou para a mãe d'ela. Apenas Gentil conversava com as duas, alternando o tom da voz entre uma e outra de modo quase bipolar, expressando ora o amor de pai; ora o rigor de patrão. Parecera-me ele junto d'elas uma pessoa assaz diversa d'aquela que conhecera em companhia só dos irmãos: Suas maneiras foram mais reservadas, muito pouco participando das conversas então. A filha, muito bem vestida e comportada, não se misturava às outras crianças que reinavam em brinquedos aqui e ali. Quanto a mãe, servia-o em tudo que se mostrasse, obsequiando-lhe os petiscos e as bebidas servidos no buffet da casa de minha sogra. Aos quais ele jamais agradecia! Julguei-o a partir de então da pior forma possível, como um canalha! Bem como a pobre mulher como uma espécie de prisioneira de circunstâncias inconfessáveis. Muito me aborreci com aquelas cenas que somente após o encontro lograva compreender minimamente: Sim, o Sr. Gentil era um miserável misógino a torturar a mãe da própria filha com uma servidão absurda, apenas isso explicava!

Passaram-se dez anos e muita coisa mudou, sobretudo eu. Meu casamento não dera certo e, embora dois filhos, separamo-nos após sete anos de convivência. Fora uma separação muito difícil, pois, havia apostado tudo que construí n'aquele casamento. Ao fim, fiquei sem patrimônio e sem a convivência diária com meus filhos. Todos os dias, levantar-me para trabalhar era um fardo, visto que quase tudo que obtivesse seria para o sustento de meus filhos longe de mim com minha ex-mulher... Não foi uma nem duas vezes em que perambulei pela cidade sem buscar senão distração para a insônia que me acometia. Vivia deprimido e angustiado n'um período a que chamava de "a noite mais escura" em versos ruins de mau perdedor. Fiz-me íntimo de bêbados, prostitutas e andarilhos na imensidão da cidade noite afora. Tinha trinta e poucos, mas parecia ter cinquenta! Foi então que, do nada, encontrei o velho Sr. Gentil n'um inferninho. A princípio, fingi não o reconhecer, mas ele saiu de sua mesa e veio em minha direção com seu inconfundível cigarro na piteira seguro entre os dedos.

Era ele, indubitavelmente. Saudou-me com um largo: "Há quanto tempo!", ao que eu me encolhi junto ao balcão do bar enquanto uma gostosa seminua rebolava no palco ao som de "Promiscuous" e afins. Sempre muito constrangedor encontrar alguém do passado n'um lugar como aquele... Em todo caso, se quem está na chuva é para se molhar, quem está no inferno é para se queimar: Retribui a saudação do Sr. Gentil com toda a intimidade que jamais tivemos e o convidei a se sentar ao meu lado. Eu bebia uma cerveja qualquer mais uma dose de pinga e ele pediu o mesmo para si.

Começou falando exacto do que não queria falar: -- "Soube do fim de seu casamento com minha priminha." -- calhou-lhe de introdução -- "Desculpe-me a franqueza, mas você parece bem melhor agora.

Aquilo caiu em meus ouvidos como um imenso contrassenso, afinal, não enxergava em mim senão decadência. Pedi que ele continuasse: -- "Mulheres são complicadas. Não digo que sejam inimigas, mas com certeza não são companheiras. Ou melhor, digo "companheiras" no sentido primitivo da palavra, isto é, "com-pão-eiro": aquele com quem se reparte o pão". Respondi-lhe intrigado: "Um tanto paroquial essa sua colocação..." E ele: "Sim, já fui um homem religioso.".

Bebericávamos a cerveja e, de tempos em tempos, entornávamos a cachaça. A noite só estava começando em as belas se sucediam no palco exibindo caras, bocas, pernas e bundas. Ele fumava seu cigarro na piteira enquanto eu olhava para as garotas encabulado: "Será que ele vai contar que me viu aqui para a família da minha ex? Quer saber: Foda-se!" E tornava a enxugar o lagoinha. Ele riu para si e comentou: -- "Quando lhe conheci, você parecia um ingênuo; um pato para ser depenado. E você não me decepcionou!". Cada vez mais desconfiado com o caminho que aquela conversa tomava, resolvi dar vazão à minha antiga curiosidade e quis saber mais de sua vida, até para eu não dizer nada que comprometesse com a família da mãe de meus filhos: -- "Isso agora é passado, mas, e o senhor, casou-se com a mãe de sua filha?" -- Ele gargalhou como se eu lhe houvesse contado a maior piada do mundo. Ficou vermelho, sem fôlego, de tanto rir e exclamou interrogando: -- "O quê?!" -- e voltou gargalhar até chamar a atenção em volta e me deixar sem graça -- "Quer dizer que você tinha interesse em minha vidinha, heim?!" -- e completou -- "Mas que surpresa!" -- Para não ficar mais sem graça ainda (e tirar de mim o foco d'aquela conversa), concordei com ele: -- "É verdade: Aquela ocasião em que conheci sua filha e a mãe d'ela nunca me saiu da cabeça." -- ao que o Sr. Gentil, com o mínimo de palavras, me desmascarou: -- "Mas, por quê?..." -- Pronto! Eu seria obrigado a lhe revelar meu mau julgamento d'antanho... Para que revirar o lixo humano do passado? Céus, se eu não tivesse bebido tanto, eu pagava uma garota d'essas para subir para algum quarto! Mas, do jeito que estou, será só para broxar e queimar dinheiro... Não estou em condições para comprar uma trepada. Aliás, já apertei o botão de FODA-SE com esse cara mesmo: -- "Apenas achei fora do comum o facto de a mãe de sua filha ser sua empregada..." -- saí-me com esta. Ele não se intimidou. Acendeu outro cigarro e contou-me sua história.

.....

-- "Acho que você não sabe de nada. Então, vou começar do começo. Meu pai foi um homem tão rico quanto mal casado. Vivia como se fosse o mais miserável dos homens sob a tirania de minha mãe que, aliás, fora a fonte de sua fortuna e carreira. Trabalhava nas empresas de meu avô materno e lhe herdou a filha, o nome e a riqueza. Minha mãe o tratava pior do que você me vira tratando a mãe de minha filha. Se aos seus olhos ela era uma empregada; aos meus olhos meu pai era pouco menos que um escravo de minha mãe.". Falava d'aquelas coisas íntimas e tristes sem qualquer emoção, com uma indiferença didática, dir-se-ia: -- "Meu pai me fez prometer que jamais passaria pelo que ele passou e tenho cumprido minha promessa com louvor." -- e ainda -- "Jamais me casei nem me casarei."

-- "Mas, e sua filha" insisti. -- "O que é que tem?" -- indagou -- "Eu prometi nunca ser marido, não pai." Ele pediu outra cachaça e virou n'uma talagada: -- "Eu contratei uma empregada e comecei a trepar com ela: Simples assim." -- eu o olhava como se diante d'um lampejo de lucidez. Ele continuou: --"Eu sabia que ela queria dar o golpe, mas eu queria ser pai. Quando ela veio me depenar, a menina já havia nascido. Eu a despedi com todos os direitos empregatícios e tomei a guarda dela alegando que a pobre não tinha como educar a menina. Ela se desesperou e eu me mantive impassível. Até que ela, para ficar perto da filha e tornar ter casa e emprego, se sujeitou a assinar de novo a carteira de trabalho como minha empregada. E foi a melhor mãe e mulher que alguém poderia desejar, paga com salário mínimo, décimo terceiro e férias!"

Ouvi aquilo embasbacado e, não podia negar, com certa inveja. Afinal, o que eu mesmo deixara e deixava com a mãe de meus filhos era muito mais para eu ter muito menos... Ele, o extraordinário Sr. Gentil, em sua canalhice dera um golpe de mestre. Ou melhor, um contra-golpe!

-- "Mas, e o amor?!" perguntei, embora a pergunta soasse tola desde o instante em que saíra de minha boca... Mesmo assim, ele respondeu: -- "O amor é um luxo a que nos permitimos quando moços. Olha para ti mesmo" -- a intimidade ébria já lhe permitia tratar por "tu" -- "Aqui n'este antro" -- olhou-me nos olhos frisando as palavras -- "a intimidade comprada que tens com qualquer uma d'estas garotas é incomparavelmente maior que a que tiveste com minha priminha!" E continuou: -- "Sexo é um encontro humano. É algo concreto; é um acontecimento. Já amor é uma abstração" -- e sorveu o resto da cerveja.

Pedi mais uma e fui para o banheiro. Esvaziei a bexiga que já doía de tão cheia e me olhei demoradamente no espelho: "Quem sou eu?". Foi então que eu tive o meu momento de lucidez: "Percebo, enfim, que aquela história de piteira para não enodar os dedos era, nada mais nada menos, que a metáfora perfeita d'uma vida onde os vícios não deviam deixar marcas". Perguntei-me em voz alta, ainda diante do espelho, feito demente: -- "Quem diria que um canalha, no final das contas, teria razão?".

Não sei quanto tempo permaneci ali parado, olhando-me. Só sei que quando retornei ao balcão do bar o extraordinário Sr. Gentil já havia ido embora.. E -- o melhor -- pago a conta toda! Saí d'aquela espelunca de alma lavada, livre, enquanto assobiava um samba antigo sob a luz da lua.

Betim - 08 09 2018
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Comentários (5)

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2024-11-27

Lindos poemas ,meu caro!

Maria Antonieta Matos
Maria Antonieta Matos
2022-03-11

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns<br />

edu2018
edu2018
2018-06-11

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

namastibet
namastibet
2018-04-21

bom vê-lo por aqui

rosafogo
rosafogo
2017-12-27

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!