Escritas

Lista de Poemas

CHORAMINGAS

Ela enxugava as lágrimas n'um lenço
E depois balbuciava alguma queixa.
Também caras e bocas feito gueixa
Fazia ao me mostrar despeito imenso.

Se sempre tinha seus motivos, penso,
Bem maiores do que eram ela os deixa.
Deveras, contrariada a mim se queixa
Após pôr as verdades em suspenso.

Tenho para mim qu'ela nem é triste
E chora tão clamosa porque insiste
Em ver sua vontade realizada.

Logo eu, que sou tão triste, lhe sorrio
E enxugo as suas lágrimas por brio:
-- "Não chores, meu neném, não muda nada..."

Belo Horizonte - 04 06 2018
👁️ 292

GRÃOS DE POESIA

Não me interessa ser mais e melhor
N'esse mundo onde tantos são tão bons.
Cuido de m'expressar tendo ou não dons
Sem lhes pedir licença nem louvor.

Àqueles que me leem peço o favor
Que não me julgueis mal em meus frissons
Se entre preto e branco há mil entretons,
Mesmo maus versos têm o seu valor...

Escrevo mal e pouco, mas escrevo.
Ao menos do que faço nunca devo
Inspiração a quem mais quer que seja.

Mas podem não gostar... Ninguém obrigo!
Só obrigado estou de mim comigo
Em dar grãos de poesia a quem deseja.

Betim - 23 09 2018
👁️ 345

ARREPENDIMENTOS

Tudo o que todos querem nos ouvir
É que as coisas vão dar certo no fim.
Fiz quanto pude; dei tudo de mim,
Mas hoje desconfio inexistir...

Do que vi e vivi deixo ao porvir
Esse passado tantas vezes ruim,
Que quase não distingo não e sim,
Receoso de que vá me ressentir.

Andando sem olhar mais para trás,
Passei a acreditar que tanto faz
O ponto aonde a gente vai chegar.

Talvez me reconheça arrependido
De tudo que podia ou não ter sido
Até poder de facto m'encontrar.

Betim - 24 09 2018
👁️ 302

D'OLHOS FECHADOS

Deixo... Não sei se beijo ou sou beijado.
Eu apenas te sinto e após me sinto...
Pratico e o sofro o acto que desminto
Tão-logo me percebo do teu lado.

Não deixo... Tudo ainda está errado!
Sim, o amor vence tudo, mas pressinto
Não ser a hora tão bela quanto pinto,
Amando um olho aberto e outro fechado.

Não cuido se questão de sim ou não:
É preciso cegar-me para cair
D'amores e de dores pelo chão.

Mas busco o teu punhal a me ferir...
E quando enfim partir meu coração
Sei eu, d'olhos fechados, te sorrir.

Betim - 18 09 2018
👁️ 312

POR TI (fado)

Eu por ti fiz quanto pude...
Fosse muito ou não,
Passei de gentil a rude
Ao estender-te a mão.
D'oravante, Deus te ajude
Co'a tua ilusão!

Sem nunca te negar nada,
Sequer tu me és grata!
Passas por mim enfeitada
Toda em ouro e prata
Como eu fosse pela estrada
Um cão vira-lata.
 
Vistas altas quem se crê
Ou princesa ou rainha.
Quem te viu e quem te vê:
Tu, quando eras minha,
Rias sem quê nem p'ra quê
Co'o pouco qu'eu tinha.
 
Cuida que por teus caminhos
Zelem mais por ti
Do qu'eu com os meus carinhos
Em vão consegui.
Hoje junto dos sozinhos
Choro quanto eu ri... 
 
Eu por ti fiz quanto pude...
Fosse muito ou não,
Passei de gentil a rude
Ao estender-te a mão.
D'oravante, Deus te ajude
Co'a tua ilusão!

Betim - 18 09 2018
👁️ 115

À BEIRA-MAR

Ritmado em agudo martelo, o galope
Por metro pretende n'um verso onze pés
Mais rimas de décimas postas de viés
E adeuses na beira do mar onde eu tope
O sábio Ulisses co'o grande ciclope:
Partindo com pressa d'aquele lugar,
Contém Polifemo depois de o cegar,
E brada 'inda impávido contra o homicida
Dos crimes havidos lá dentro da ermida,
Enquanto s'evade na beira do mar.

Aquele, porém, de Neptuno era filho
E evoca em desgraça desditas sem fim
D'encontro aos helenos com tempo ruim
Os mares extremos fechando o seu trilho
E estrelas no céu renegando-lhes brilho
Até que, perdidos, se veem naufragar
E Ulisses sozinho ali vindo chegar:
Saúda, entretanto, às gaivotas pairando
E às ondas insãs que ao quebrar quando em quando
S'espraiam em espumas na beira do mar.

Chegara estrangeiro na própria cidade,
Oculto d'aqueles que lhe andam em roda
Da esposa tão só que jamais se incomoda
P'la espera do rei cuja imensa saudade
Tecendo ao tear vê passar sua idade
Refém de mesquinhos no eterno manjar:
Enquanto conspiram tomar seu lugar
No trono que vago demanda outro rei…
Embora buscando ao arrepio da lei
Um novo senhor para a beira do mar!

Consuma a vingança e a vontade dos deuses
Quem fora escolhido p'ra ser vencedor!
Conquiste da glória o mais alto penhor
Deixando na beira do mar os adeuses!
No mais, os mercados com vis enfiteuses
Arrendem as naus para além navegar
E busquem colônias por onde habitar
Nas terras distantes que o nauta pisou
E cheguem tão longe quanto ele chegou
Nas praias extremas da beira do mar.

Peruíbe - 24 07 2018
👁️ 135

FLORES INÚTEIS

Sinto como se tudo à minha volta
Fosse uma epifania ainda adiada
Ou meus olhos olhando para o nada
Ardessem de desejo e de revolta.

Eu vago pela noite sem escolta
A surpreender azuis na madrugada,
E ignoraria o afã da caminhada
Não fosse o eco d'alguma frase solta:

No altar d'um deus finado me persigno
Enquanto velhos fiéis cantando um hino
Ornam flores inúteis para os mortos.

Contribuo com meu cravo na lapela
E deixo enternecido essa capela
Aonde vieram dar meus passos tortos.

Belo Horizonte - 16 09 2018
👁️ 281

ANDRÓGINO

Nem homem nem mulher, eu sou humano;
Sou um pouco de tudo e mais além...
Posso ser quem desejo, mas também
Quem s'encontrara só e por engano.

Se não tenho p'ra mim um grande plano,
Tampouco mudo como me convém:
Somente o coração conhece bem
A luz e a escuridão do quotidiano.

Os meus dias são noites na berlinda
Onde me quero mais; me quero linda
Como reflexo d'olhos cobiçosos.

E ainda que meus anos sejam poucos
Não me furto a vivê-los muitos loucos,
À margem de caminhos tortuosos.

Belo Horizonte - 12 09 2018
👁️ 124

TROCA-TROCA

As carícias seduzem por cambiantes,
Alternando dos pares seus papéis.
Perdidos, vão-se os dedos e os anéis...
No afã com que se beijam dois amantes.

Tocar e ser tocado, por instantes,
Faz o mundo e seus medos menos cruéis.
N'um retinir de espadas e broquéis,
àquele que se rende melhor e antes.

Certo de que, afinal, o encontro humano
Afasta para além do desengano
Cada pequena morte com barganhas,

Em dar e receber sentir-se vivo,
Sem importar se activo ou se passivo
O gozo que lhe sobe das entranhas.

Betim - 14 09 2018
👁️ 315

DESBOCADO

Aperto a tecla "FODA-SE!", e depois
S'ejecta a alma do corpo e vira luz.
Posto para morrer co'os olhos nus,
Não me resta senão dar nome aos bois:

-- "Vinde e vede, fascistas, por quem sois!
Após tomardes fogo pelos cus,
Servireis de repasto aos urubus!
Logo o inferno ireis ver de dois em dois."

Eles riem perfilando o pelotão.
E, abrindo fogo contra um paredão,
Tombam-me n'alguma cova rasa...

Entanto, se tiverem ainda alma
Carregarão consigo a culpa e o trauma,
Retornando assassinos para casa.

Betim - 19 08 2018
👁️ 321

Comentários (5)

Iniciar sessão ToPostComment
 ❈ 𝐿𝓊𝒸𝒾𝒶𝓃𝒶 𝒜. 𝒮𝒸𝒽𝓁𝑒𝒾  ❈
❈ 𝐿𝓊𝒸𝒾𝒶𝓃𝒶 𝒜. 𝒮𝒸𝒽𝓁𝑒𝒾 ❈
2024-11-27

Lindos poemas ,meu caro!

Maria Antonieta Matos
Maria Antonieta Matos
2022-03-11

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns<br />

edu2018
edu2018
2018-06-11

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

namastibet
namastibet
2018-04-21

bom vê-lo por aqui

rosafogo
rosafogo
2017-12-27

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!