Em profusa dicção essas palavras miúdas vão soltando-se do limbo...
Em profusa dicção essas palavras miúdas vão soltando-se do limbo,
desmoronando na garganta como enormes folhas secas presas na laringe; engasgando, imediatamente, a boca...
Vai dando voltas na língua, como num festival, como infantes numa ciranda, rodando em éguas e alazões velozes
- dissolve o gosto meio amargo. Diluí o céu em saliva, feito um lavrador preparando a terra para o nome.
De súbito, a pronúncia deste nome, sem timidez surgem na boca rosas, como se ao dize-lo, e de dentro de mim o chamasse minha alma, deitasse em mim mesmo sementes.
Calo-te quando te escrevo.
Calo-te quando te escrevo. E no teu silêncio umideço a palavra. Estás como escondida em mim. E no vento inquieta a folha. A noite chega no teus braços e o teu corpo é a lua. Sonho-te assim, morena, para ver-te ainda nua.
Acolá, no mundo...
Acolá, no mundo, os amigos contam essa história: flui um rio, vestido de um venusto airoso lençol cristalino, que se estira tombando para abocanhar a bacia de marfim oceânica. E o mar em sal é de uma mulher muito bela e quem se deitar com o rio se deita também com ela.
Em meus braços
Em meus braços teu corpo é um silencioso poema:emblema de rosas, folha mansa, ruidosa. De teus cabelos pendem diademas,
Emblema de rosas, pequenos poemas.
Aos amigos distantes
Quanto amor vos guardo;
Quanto amor tem por mim?
Lança a minha fronte, oh amados:
Teu amor é ruim!
Ouço calado e soluço,
Vosso amar precioso,
Mas dá palavra o desuso,
De cunho amoroso.
Amais a quem, e a quê?
Se vosso amor é assim tão breve,
Faz de conta o querer.
Amais os ricos e o dinheiro,
Vossa peleja assim se acerta.
Oh, amigos, desordeiros.
O amor que deflagrou a rosa...
O amor que deflagrou a rosa, desabrochou-nos em flor e em pomo, encerrando a semente encarcerada no chão fecundo da alegria etérea.
Imagino que agora iremos despertar para o futuro e, brevemente, aperceber-se do fruto da vida que floresce nos recônditos bosques da alma.
Desertos
Diz que o dilúvio foi suscitado por uma mãe que perdeu o filho; diz que antes disso não havia tristeza no mundo.
Teu rosto...
Teu rosto - desfigurando a água - de súbito sobe do rio e - ainda escorrendo - entrega-me um beijo frio.
Depois te afasta, descansa o semblante sobre o olhar sossegado, far-te saudade para querer-te ao meu lado.
Esse teu charme, vulgar, e arredio, sempre - depois de um beijo frio - 'inda há de funcionar.
Regresso
Regressa o corpo a terra, a sossegar;
Depois de derramar cólera pelo mundo,
terá na campa seu disprazer profundo,
E um gosto de peixe a boca aguar.
Quem foi valente em vida, a lutar,
diga-me, heroi, se conseguiste?
Que a fera imortal tu feriste;
Ou nos braços de tal foste parar?
Se a muito os homens tentam vencer,
Esse animal, inato e feroz,
quem contra a foice não foi morrer,
À aparição perdeu-se a voz.
- Quem poderá o bicho abater?
Enquanto viver: nós!
Quanta beleza tens, amor
Quanta beleza tens, amor,
És como a rosa singela,
És como as coisas mais belas:
cheia de graça e fulgor.
Quanta beleza tem meu amor,
É como os lírios, é como as flores,
eu em delírios lhe canto louvores:
cheia de graça e fulgor.
Mas conheço tristeza sem fim.
Tão sem fim, minha querida,
Quanta tristeza hei de esperar na vida, quanta tristeza há de esperar por mim?