Escritas

Lista de Poemas

Parentes


À maldade dos afins estando sujeitos,
Maldade de tio, irmão e cunhado,
Ainda que mal não lhes tenhamos feito,
Abramos os olhos, tenhamos cuidado...
 
São mui gordos os olhos dos parentes
Em cima de todo sucesso que temos;
Dão-nos conselhos, estão sempre presentes,
Aos poucos nos matam e tarde percebemos
 
A inveja oculta, bem como a ofensa
De quem à nossa frente se fez tão bondoso.
Quando vaza o fel a gente até pensa:
 
Meu Deus! Como causa tristeza e nojo
Quem só malefícios no peito condensa!
- A cobiça se esconde em fino estojo...
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O novo acordo


Poema escrito quando estava em discussão a última Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa
 
 
Uma longa viagem me inspira,
porquanto enjoado e absorto
é quando a palavra transpira.
Tomei um avião para o Porto.
 
Essa história de uniforme
que tentam vestir na grafia
vai deixá-la mais disforme
pra quem, leigo, escrevia.
 
Do soneto não me enjôo
e a mudança deu-me a idéia
de escrevê-lo em pleno vôo.
 
Amanhã, em outro voo,
talvez tenha outra ideia
quando tiver outro enjoo.
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Um outro país

Quando você chegar
deve encontrar um outro país,
ser recebido por um povo que diz
ter orgulho da sua nação.
Quando você chegar
deve encontrar um país diferente,
confiante na força da sua gente,
moderno, seguro, sem corrupção.
Quando você chegar
ouvirá histórias de um país encantado,
de um povo forte, feliz, inspirado,
que lutou como um bicho acuado
por trabalho, saúde, casa e educação.
Quando você chegar,
menino ou menina,
ainda haverá vestígios da revolução,
nos jornais, nas revistas,
nos cartazes escritos à mão,
das passeatas, dos brados, daquela canção
cobrando o respeito à sua gente sofrida.
De um povo que, cansado do seu pesadelo,
saindo às ruas de forma atrevida,
fazendo sua guerra sem o uso do aço,
somente com sua voz e a força dos braços,
libertou-se por fim daquela opressão.
Quando você chegar
será – menino ou menina – bem mais feliz
do que sua mãe, seu pai, seus irmãos,
que lutaram tanto pra lhe deixar um país
grandioso, belo, liberto, viril,
como sempre deveria ter sido o Brasil.


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Prisão e liberdade

À noite, o rosto nas grades da janela
do colégio interno onde estudava,
perguntei ao padre que cidade era aquela,
toda escura, de onde nada se escutava.

Aos domingos, muita gente lá passeia
e outras, brancas, imóveis _ serão guardas ?
Em novembro de flores fica cheia
e de velas as finas ruas enfeitadas.

_ Que cidade é esta, diz pra mim,
que me atrai com seus noturnos mistérios?
O padre me olha sério e diz por fim:

_ Ali moram reis e rainhas de finados impérios,
ricos, pobres, crianças, todos que dormem, enfim...
Aqueles muros brancos, filho, são os muros do cemitério.
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Nostalgia

Helena? Helena? Onde 'stás agora?
Apesar do pouco tempo da partida,
a lembrança me castiga, faz ferida
e a tristeza solidária me namora.

Onda calma de sono me invade
quando oscilo sobre a rede no quintal.
Teus beijos... teus abraços... teu rosto divinal...
que saudade, Helena! Que saudade!

Tremor vago o meu corpo já domina,
ao sentir que a bela fantasia
s´esvaece logo que o sonho termina.

E quem entende a minha dor, o meu desgosto
e a escassez que há em mim de alegria,
é o zéfiro que banha o meu rosto.
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O mendigo

 Os miseráveis, os rotos
são as flores dos esgotos.
                   Cruz e Souza
 
 
Angústia, rejeição e vil loucura
tornaram tua alma tão sombria,
ó poeta imortal, imortal brancura
das essências musicais da Fantasia...
 
Alma de fé profunda, clamorosa,
bálsamo das paixões mais cristalinas,
mar revolto de espumas dolorosas,
nascido em santas terras catarinas.
 
Hoje, sentado lá no etéreo canto,
isento da carnal miséria e do desprezo,
já não te afligem mais a dor e o pranto.
 
Aqui, da cor carrego o amargo peso
e as mesmas ânsias que cantaste tanto.
Mas tenho, qual tiveste, o Sonho aceso!
 
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Nada


Quem pensa que eu vivi, engana-se.  
Quem diz que eu vivi, mente.
Passei apenas...
E passei como se fosse
um nada
que ninguém vê,
que ninguém sente...
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Elmano no retorno a Portugal


Ó Gil, o que me fizeste, ingrato irmão?
Eu tão longe da minha gentil Lisboa
(no Rio, em Damão, Macau, Cantão e Goa)
e me roubaste de Gertrúria o coração?
 
Lutei tanto, fui soldado, fui tenente,
até doente estive em terras de Albuquerque.
Almejava sorte e glórias, mas moleque
entreguei-me à boêmia vida no oriente.
 
Seguindo a rota de Camões mundo afora,
busquei riqueza e um nome ilustre em outras terras.
De que valeu? Esforço vão... foi tudo embora...
 
Se não tenho Gertrúria, mais nada importa.
"Já Bocage não sou!..." Tudo se encerra
quando a esperança está morta.
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À minha mãe

Quisera hoje ver-te, ó mãe querida,
contigo estar no meu torrão
e te contar da minha Vida,
da dor que me aperta o Coração.

Quisera alegrar teus olhos cansados,
curar da falta a grande ferida
que te faço e me fazes. Já quebrados
os meus planos, minh`alma está partida.

É tão longa a distância, mãe amada,
que me consola esta página amarelada
onde me debruço a chorar o meu tormento.

Contudo, mãe, se são desfeitos os meus planos,
meu Coração, mesmo entre tantos desenganos,
tanto te ama e não te esquece um só momento.
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Só o tempo passa...


... e foi assim que cheguei:
despojado de tudo,
sentimentos, atos, ilusões
e esperanças.
Em busca de um novo mundo.
Deixei por sobre os ombros
vales, montanhas, seres ocos,
prostitutas mulambentas,
criancinhas remelentas...
Adiante, séculos e séculos após
surgiu o novo mundo
e lá me vi,
nu de ilusões e esperanças,
entre criancinhas remelentas
e prostitutas mulambentas...
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