Escritas

Lista de Poemas

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Floreios, floreios, floreios...
Pra quê tantos floreios?
Eu renuncio, já estou cheio!
Cheio da vida e da esperança,
cheio da música, cheio da dança
inútil das horas e da falsa bonança.
Farto das festas, dos hurras!, vivas,
dos tapinhas destes convivas.
Cansado da lengalenga dos meus amigos.
Serão amigos... ou inimigos?
Só quero a paz de estar só
e a solidão da minha paz.
Não quero um ombro, não quero o dó.
Mereço uma placa de “aqui jaz...”
Quero a carícia da terra fresca;
que ela me abrace e eu adormeça...
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Transe


Há uma estafa fastidiosa a inebriar-me os sentidos, maquiando qualquer vestígio de repentino júbilo, 
modorrenta preguiça mental que subtrai de mim toda esperança de manter-me ereto, 
inexplicável lentidão dos movimentos que minimiza e estatifica...
Fuga momentânea das palavras, subdivididas em sílabas desconexas, ininteligíveis; 
ansiosa necessidade de recostar-me ao primeiro apoio com o qual me deparo; uma palidez
mórbida a recobrir-me a face, tal qual um chinês embebido em éter...
Um querer e não poder abrir os olhos - uma nesga que seja - e vislumbrar, 
ainda que momentaneamente, um átimo da luz que me circunda; 
uma dor tão profunda! tão profunda! que não se sente, mas, ainda assim, 
enraizada no subconsciente...
Um suspiro (antes um expiro) que não parece deixar outro atrás de si. 
Em suma, um cansaço de existir...
👁️ 388

Juramento

Jurei que o meu amor seria eterno
e que alguém me amaria até o fim.
Antes tivesse desejado todo o inferno
só pra mim...


Encontrei uma musa inspiradora
e no início o amor nos fez tão bem!
Poucos anos... eu pequei e ela pecadora
foi também.

Desde então, aquele eterno amor imploro,
mas fatal sina nos persegue vida afora:
presas dos duros laços do amor, eu choro
e ela chora.

O juramento que fiz, ela fizera,
querendo alguém que a amasse eternamente.
Mas o amor eterno é doce quimera
dos dementes...

Prisioneiros fatais de um juramento
que nos mantém os corações tão bem fechados,
sofremos ambos o mesmo tormento
dos condenados.

No entanto, eu juro! - estou bem certo -
que as grades do sofrer serão partidas
e os nossos corações serão libertos,
cada um seguindo livre a sua vida.


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Desvario


Maldigo o frio que gela e entorpece,
O Sol que arde e queima maldigo;
Maldigo a noite que os campos escurece,
A Lua que clareia e embeleza maldigo.
 
Malditos a vida, o amor, o riso, a paz
E tudo o que me faz sofrer, maldito!
Maldito este a quem nada satisfaz...
Imputo a culpa a quem se diz tão maldito!
 
Maldita a hora primeira - a do nascimento,
E todas as outras horas, malditas!
Malditos os momentos maus e os bons momentos,
 
Maldito o Inferno, malditos a Terra e o Céu!
Todas as coisas que há no mundo, malditas!
Maldito eu! maldito eu! maldito eu!
👁️ 590

Criatura


Qu'imagem é esta de mulher que me persegue,
vinho suave que – eu sequioso – me embriaga,
que teima em existir por mais que eu negue,
me abraça, me incendeia e logo se apaga?
 
Ave branca que atravessa meu caminho
e cruel, com seus beijos me amordaça,
me faz enlouquecer com seus carinhos,
depois me abandona – esvoaça...
 
Por que me segues tanto, ó criatura,
vinda de um sonho antigo ou do futuro,
me dás a ilusão duma ventura
depois me deixas só no quarto escuro?
 
E assim, abandonado os dias passo,
fechado, longe de tudo, enfadonho,
ansiando pelas noites quando abraço
a doce imagem dela quando sonho.
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No berço


Dizem que nasci
e que foi um sucesso,
mas não entendi.
Pois também ouvi
que agora o tempo escorre,
que é só retrocesso,
que quando se nasce se morre.
Foi mesmo o que ouvi?
Nasci ou morri?
Que estranho processo...
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Terapia do riso absurdo

Contraídos o risório e o zigomático,
explode em ti sonora gargalhada.
Do veneno do teu riso tão elástico
minhas cordas também são contagiadas.

Tudo em ti é motivo de euforia
e até o vento faz-me cócegas passando.
De tudo rimos e na falsa alegria
o teu riso com o meu riso vai rimando.

Com o riso tu me enganas e eu te engano.
Se sorrimos, damos bah! para a tristeza.
Riamos, que o riso encobre o dano.

Devemos rir, pois só o riso nos sobeja.
Serão bobos? vão dizer. Somos insanos!
E talvez rindo, a triste Morte não nos veja
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Herança

A confecção deste poema foi um caso à parte, diferente dos demais poemas meus, que normalmente levam horas, às vezes dias para ser finalizados. Herança veio de uma golfada; nasceu, se muito, em trinta minutos, já pronto pra se mostrar ao mundo.

E eu morro a cada dia
quando cada coisa morre.
Outrora Deus me socorria;
agora já nã o socorre...

Vai um pássaro, coit adinho,
de hirtas e opacas asas.
Vai com ele um bocadinho
da minha alegria tão rasa.

Vão-se o amigo, o cão, o gato, o boi,
tudo vai nesta infalível jornada.
Só fica a angústia do que foi
na minha memória cansada.

Até um jovem filho se vai
sem mesmo saber pra onde,
na vã liberdade que atrai
e mil armadilhas esconde.

Nenhuma alegria perdura
e todo gozo é passageiro.
Só de tristeza há fartura
todo dia, o ano inteiro...

Quando eu me for [e será breve!]
levarei comigo esta carga.
Não quero que alguém herde
tanta lembrança amarga.
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Nec otium


Exausto desta batalha
vou lhe propor um negócio:
enquanto você trabalha
eu permaneço no ócio.
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Invólucro

Idiota! Não vês que nada és?
Apenas fina capa bolorenta te protege
da podridão. Vermes famintos te rodeiam.

Ignoras que num lance mágico, num segundo apenas
cai por terra toda a altivez e o belo
 papel-presente revela a fétida massa?

O gosto amargo do fel, a visão incerta,
o entortar das pernas, o descontrole total...
tudo é inevitável!

Mais dia menos dia serás presa fácil:
o tempo é impiedoso.

O trágico fim independe de tua vontade.
A arrogância que despejas não passa
de faceta inútil das tuas diversas faces
vãs e mundanas.

Ao sol poente, o rosto murcho e os ossos corroídos
doerão mais do que naqueles que tiveram
a precaução e o bom senso de serem
simples e ocultos.

Restarão teus lindos cabelos...

E que utilidade terão teus cabelos, fios
órfãos e subterrâneos, dispersos, opacos
sobre os ossos?

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