Lista de Poemas
BODEGA
Às vezes, no rústico balcão
de velha tábua enegrecida
o tempo parava...
Às vezes, o vento passava
e o papel de embrulho acenava
convidando o cliente
a absorver o aroma
pungente de couro curtido
que se irradiava no ar...
Só a velha balança parada
com os pratos vazios
ponderava o que havia
de sabor no denso langor
de algo invisível a indicar
que a tarde se dissipava
pesarosa a chorar...
E quando vinha freguês
antonio, maria ou joão
de caderneta na mão
fiava o açúcar, a farinha,
num embrulho feito com arte
com dedos magros da mão
de um bodegueiro artesão!
FASTIO
Ultimamente,
tenho carregado demasiado peso:
ausências indefinidas,
presenças indesejadas
e saudade de um doce sal
que jamais provei!
A vontade de conter o mundo
me franze as sobrancelhas
neste nevoeiro denso
a me reter num abraço.
Necessito verter um vômito
inorgânico que se acumulou
em minhas prateleiras:
aclamações induzidas,
anulações forçadas
e as crenças ilusórias
que retraíram meu ser!
Teorema pra nos tanger
Há um pequeno porém
ao ultrapassar travessias;
o trabalho é na espora,
todavia, o lume da carga
nem pende, nem pesa,
parece flutuar nos arreios.
Só o bornal descontente
sem empenho transporta
uma época de intenções
e travessuras pelas veredas
penosas, longas e sinuosas,
como obrigação imposta
até a armadura do gibão
treme por conta do som
estridente da ave de rapina
e do chicotear do couro cru
que lembra como é a morte
cruel no lamber das esporas.
PORTEIRA
O aboio de meus ancestrais
é o que escuto ao longe
quando o olho se depara
no langor da velha porteira...
Ouço o som puxado
do canto de meu bisavô
tangendo uma boiada,
depois outro, entoando...
é meu avô gravando no ar
o seu ecoar de saudade.
E na cancela, ruína
empenada, corroída
pela angústia de seu fim,
algo cordial ainda pulsa
como álbum de fotografia
e me dá a impressão que
os mesmos paus corredios
se abrem... se fecham...
sozinhos! logo ao ouvir
um pungente mugido ou
o grito de aboio de meu avô.
SOLILÓQUIO FLUVIAL
Que sabe do rio a pedra?
Senão ouvir o incessante
e eterno rumorejo
das águas que correm!
Que anseia a pedra?
Senão lançar-se,
seixo impelido ao desejo
de meteorito aquático!
Que fim há na pedra?
Senão cumprir-se
ao ardente e largo
apetite oceânico!
OS GREGOS
“As palavras são os suspiros da alma.”
Pitágoras
“A esperança é o único bem comum a todos os homens;
aqueles que nada mais têm -
ainda a possuem.”
Tales de Mileto
“Um ponto é o que não tem parte”
Euclides
Um cismar quando absorto
na pele é um profundo mergulho.
A captação do íntimo das coisas
ainda é um segredo da hélade,
época de envolvidas estátuas,
tempo em que seitas ocultavam
o como e o porque de todo brilho
exuberante sob asas dos deuses.
A imensa voragem heroica
delineando o feitio espartano,
sempre com apetite de guerra,
inflava-se sobre um Acrópole
longínquo de Atenas vestida de cal.
De lá, via-se manar a luz homérica
indo iluminar Ulisses na luta de Tróia
e seu regresso cruento na Odisséia.
DEIXEM O AMOR ENTERRADO!
Não ressuscite o amor
que um dia foi vida,
deixe-o lá: enterrado!
Quando se exuma
algo tão forte
que um dia morreu
ele reflorirá
desbotado
numa flor dorida
na magoada
relva cinzenta
do tempo passado!
E PETER PAN SE FOI
Quando os heróis habitavam
meu demorado e brando peito,
sorvia a desejada felicidade
como um brinquedo qualquer.
Os Peter Pans moleques
me davam coragem.
Um dia, um súbito flash
obscureceu meu mundo
e todos os guerreiros se foram.
O robusto peito cingiu
como a um moinho.
Agora, surrado, inclino-me
ao sombrio momento
da ausência de ilusões,
sem as galhofas heróicas
que alegravam meus dias.
Discretamente vou sumindo
se o perigo vem chegando
com seu carrossel de fogo
e ninguém me socorre
deste sobressalto terrível
que se apodera de mim.
DESERTO
Não há noites frias
Ou dias quentes em frente
As evidências de meu deserto
Nem bonança de Oasis
Ou secura estorricante
Há um suplicante grito
Por uma não existência
Por uma insignificância
Por ser coisa alguma ou
Tudo ser nesta amplidão
Absoluta e só minha
Nenhum deserto ao lado
Que errante me acompanha
Atrai-me tanto quanto
Um ofuscar um obscurecer
Por dissipação por irrisório
Volúvel e risível
No desejo de ser ninguém
Não sei o momento exato
Que me desertifiquei
Sei que minha solidão
O extravasa nesta travessia
Em que entre dias de sol
Há um luar para amenizar
FANTASMAS
Examino meus fantasmas:
Mozart, Chopin, Beethoven,
não que entendam de musica,
mas sim; dum temor melodioso.
Eles também me reparam
e diuturnamente medem
palmo a palmo meus anseios
e sobressaltos inconscientes
que correm em minhas veias
como um aluvião inesgotável.
Os fantasmas do meu armário
me encaravam todas as noites,
orquestralmente, sem receios;
e em seguida desaparecem!
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