Escritas

PORTEIRA

Raimundo Candido

O aboio de meus ancestrais

é o que escuto ao longe

quando o olho se depara

no langor da velha porteira...

Ouço o som puxado

do canto de meu bisavô

tangendo uma boiada,

depois outro, entoando...

é meu avô gravando no ar

o seu ecoar de saudade.

E na cancela, ruína

empenada, corroída

pela angústia de seu fim,

algo cordial ainda pulsa

como álbum de fotografia

e me dá a impressão que

os mesmos paus corredios

se abrem... se fecham...

sozinhos! logo ao ouvir

um pungente mugido ou

o grito de aboio de meu avô.