Lista de Poemas

🔵 Uma reflexão tão vasta quanto um oceano, mas tão profunda quanto um pires

Sei que dizer que assistiu ao filme ‘Titanic’ no cinema soa igual a assumir que assistiu ‘E o vento levou...’. Porém, os ingressos e as filas quilométricas transformaram uma simples ida ao cinema numa epopeia.




O ano era 1997, século XX, milênio passado (essa nomenclatura dá mais antiguidade ao passeio). Minha namorada queria muito assistir ao filme no qual todos falavam. Confesso que fui vítima da curiosidade, então queria ver na telona o naufrágio mais famoso do mundo.




Passavam os dias, e as sessões estavam todas esgotadas. A frustração crescia à medida que encontrávamos as bilheterias com ingressos esgotados. Conclusão: como já era questão de honra encontrar assentos na sala escura para ver à fita que estava na boca do povo e testemunhar a história de um barco que todos sabem que afundou, resolvi levar minha namorada nem que fosse num cineminha itinerante. Tamanho sacrifício não foi preciso. Depois de deparar com  várias salas de cinema convertidas em templos religiosos, foi indo a uma praça de alimentação, num shopping de lojas de móveis, que encontrei e comprei bilhetes para a sessão da meia-noite. Entretanto, isso não significava o fim do périplo. 




Chegando ali, a sensação era muito boa em todos os sentidos: a experiência inédita de atravessar um “shopping center” vazio e a iminência de ver ao tão esperado filme. No entanto, eu já havia me esquecido que o tamanho da fila certamente seria proporcional à disputa pelas entradas. A enorme concentração de ansiosos expectadores surpreendeu, pois, ainda haveria várias exibições até chegar a da aguardada meia-noite.




A anedota do momento era correr a fila gritando o suposto “spoiler” do longa-metragem. Então, de vez em quando, passava um chato informando à fila de que o Titanic  naufragava.




O Titanic foi a pique, as Torres Gêmeas foram derrubadas, uma pandemia varreu o  mundo e há uma guerra entre Rússia e Ucrânia. O mais trágico, Kate Winslet faz papéis de mulher madura, Leonardo DiCaprio é um chato ambientalista e eu não atravesso mais a cidade procurando entradas de cinema. O tempo passou...
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🔵 Dança da vassoura







Algumas lâmpadas coloridas bastavam. Era só equipá-las com pastilhas para o pisca-pisca. Isso era a grande tecnologia dos anos 80. Não podíamos esperar muito de um país que vivia os estertores do Regime Militar — quando a censura riscava faixas de discos, proibia palavrões e estabelecia as programações adequadas à nossa idade. Estávamos muito mal acostumados com a reserva de mercado, quando um LP lançado há alguns anos era novidade,  as músicas eram gravadas em fitas cassete e artigos importados do Paraguai eram trazidos em esquema de guerra.




As criaturas chegavam com estranhas roupas fortemente coloridas, ridículas ombreiras, gel e brilhantina no cabelo, calça da OP e tênis xadrezes. O que parecia uma afronta ao Regime Militar e, por tabela, aos pais e a tudo o que fosse antigo, o que vestíamos era apenas a mais recente moda. Esquisito, mas era a moda.




Sem saber, contrabandeávamos o “breakdance” do Bronx (Nova York), que fazia escala na Estação São Bento do Metrô.




Nesse clima, foram promovidos os “bailinhos”, quando ainda se dançava abraçado, nas “músicas lentas”, e os mais desprezados dançavam agarrados a uma vassoura surrada, porém companheira. Às vezes, o “salão de baile” era montado na sala de visitas; aí éramos brindados com os olhos vigilantes de uma mãe ou avó alcovitando a perigosa reunião.  Contudo, nas casas onde a cerimônia juvenil era empurrada para a garagem, a privacidade era garantida por uma lona no portão. 




Do rádio gravador, as fitas expeliam: True (Spandau Ballet), Total Eclipse of the Heart (Bonnie Tyler), We’ve got tonight (Kenny Rogers / Sheena Easton), I Should Have Known Better (Jim Diamond), Lover Why - 1985 (Century), Ebony Eyes (Rick James), etc.




Dancei o fino do brega, impunemente, como o menorzinho “café com leite”, entretanto não escapei dos últimos ecos dos bailinhos, dançando Repetition (Information Society). Eram os anos 90, vestindo preto, abrindo o caminho a chutes e socos.




Todo esse cenário, talvez trouxesse forte influencia de décadas passadas. Essa modinha recente, que felizmente passou, das festas emulando os anos 80, recordou o que havia de pior, o que era ignorado e o que era chamado de brega na época. Existem épocas que são impossíveis de ser revividas, muito menos copiadas, no máximo, relembradas. Com as voltas de bandas e as festas anos 80, tentaram repetir o passado como farsa. E conseguiram.
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🔴 Correndo por fora







Eu ouso lançar mais uma teoria exdrúxula, a qual não se vê por aí. Em tempos de manchetes como: “segundo especialistas”, “segundo números” e “diz leitor. Com medo de errar, principalmente a mídia impressa lança mão de seres abstratos, para não se comprometer com “consensos” muito vagos. Aquele que arrisca um prognóstico original corre o risco de ser rotulado como disseminador de “fake news”, negacionista e adepto de teorias da conspiração (merecedor de um chapéu de alumínio). Com medo de denunciar algo que de imediato não é aceito, sendo até ridicularizado, os campos de concentração nazistas jamais seriam denunciados.




Feito este defensivo, profilático e oportuno preâmbulo, me arrisco a dizer, talvez profetizando, que o Brasil, a despeito dos tempos difíceis mundiais e justamente por causa deles, tem uma rara “janela” aberta para despontar como um dos líderes mundiais. É como se numa corrida de Fórmula 1, os principais pilotos se envolvessem num acidente generalizado e os azarões dominassem o pódio.




A Anitta, na sua discutível carreira internacional, apesar de tentar difamar o Brasil, passa tanta vergonha, que o máximo que consegue é destruir sua já conspurcada reputação. Para quem acredita que os chefes de governo são pragmáticos e defendem os interesses de seus países, no pós-pandemia e acontecendo uma guerra, minha tese é plausível.




Não me refiro a nenhum governante específico. O Brasil tem uma riqueza, bem como um potencial de crescimento patente e incólume, apesar de sucessivas péssimas administrações. Lula e Dilma não aproveitaram o “Boom das commodities” (matérias-primas: alimentos, metais, energia etc), entre 2000 e 2014, no qual estes insumos, abundantes no nosso país,  dispunham um mercado mundial aquecido.




Agora uma chance diferente abriu um portal, caiu no colo de Jair Bolsonaro e sua equipe. A diferença que anima, é que hoje temos boas ideias, uma equipe competente e um projeto de desenvolvimento de País; nos tempos de Lula e Dilma havia péssimas ideias, uma turminha incompetente e um projeto maligno de perpetuação no poder de um partido.
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🔵 A fuga







Liguei o carro e saí cantando os pneus. Nunca me esquecerei daquele 7 de julho de 1998. Sem sequer olhar para os lados e às vezes conferindo o retrovisor, reparei que as ruas estavam vazias e as lojas, fechadas. Acelerava fundo, exigindo mais do que aquele “golzinho quadrado” podia oferecer. Nesse ritmo, entrava em pequenas ruas, grandes avenidas, rotatórias, lombadas e intermináveis faróis. Eu até arrisquei, às vezes, a perigosíssima “roleta paulista” porque a cidade estava deserta, apesar de ser terça-feira. De vez em quando, alguns estrondos, ora próximo, ora longe, aumentavam minha ansiedade.




Enfim, cheguei a tempo de assistir à semifinal da Copa do Mundo de 1998 de futebol. Aquele Brasil e Holanda era o pano de fundo perfeito para fazer um pacote de tolices: sair do trabalho mais cedo, gritar palavrões, xingar, beber e, em caso de vitória, dirigir como um maluco bêbado. Nesses dias, fingimos que o Brasil ainda é o “País do Futebol” e que o próximo jogo é a coisa mais importante do mundo. A vida dos integrantes de torcida organizada finalmente parecia ter lógica! O mais sinistro é que o mulherio também entra nessa “vibe”, talvez como uma concessão a essa infantilidade masculina. Aí é um tal de: dá de bico que o jogo é de taça, pra cima deles e vaaaii, Brasil. Quando sai um gol, não há coronavírus que impeça um abraço, tampouco uma aglomeração.




O difícil êxito nos pênaltis gerou maior confiança em alguém que sugeriu a estupidez de saírmos para comemorar. Estávamos bêbados e felizes, achando a ideia genial e providenciando a insanidade “juvenil”. Entupimos o automóvel com 8 pessoas e fomos desfilar naquela “Marquês de Sapucaí” do Fim do Mundo.




Aquilo era uma experiência antropológica. Vendo as pessoas comemorando nos carros, nas ruas, praças, casas e bares exacerbou a minha alegria de plástico. Eu realmente gostaria que aquela euforia fosse porque o PIB fechou com dois dígitos, o índice Bovespa bateu em 200 mil pontos ou fôssemos os primeiros em IDH... De repente, uma buzina interrompeu meu devaneio e voltei a gritar: Brasil! Braaasssiiilll!




No centro da cidade, a bexiga me lembrou que a cerveja é diurética. Até que aguentei bastante, deu tempo de uns “brasilinos” obstruírem minha visão com bandeiras no para-brisa e gritos ensandecidos. Quando não aguentava mais, saí do carro para urinar. Foi como levantar uma telha cheia de baratas.  A espera por um banheiro era coletiva, porque, quando eu saí, saíram outros, cada um em uma direção, correndo meio curvado. Não teve jeito, uma das principais ruas do centro de Guarulhos me ajudou sem importar o endereço profanado. Descobri que havia chegado ao fundo do poço quando um motorista de ônibus anunciou o meu ato.




Eu havia ido longe demais, aquilo era o suficiente. Uma voz sensata e, claro, feminina sugeriu sensatamente: vamos embora. Todos concordaram. O meu parâmetro é quando começo a me sentir um estrangeiro em meu próprio país.




Nos outros dias: trabalho, boletos e, de vez em quando, uma cervejinha. Mas a “Pátria de Chuteiras” só durante o jogo.
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🔵 Classe social







Colegas orelhudos, narigudos, “zóiudos”, baixinhos, magrelos, gordos e branquelos. Sobrenomes árabes, judeus e de várias outras origens. Tudo isso, em vez de gritar a diversidade étnica e cultural da sala de aula, era motivo para “zoação” ou “bullying”, como dizem há alguns anos. Afinal, eram todos brasileiros, alguns mais estranhos.




Nos anos 80, a “década perdida”, a hiperinflação desembocava um lote de “filhinhos de papai” oriundos de colégios particulares. Quando esse fenômeno financeiro acontecia, a classe média alta cortava o inglês, o balé, as aulas de música e, no desespero, as “escolas de ricos”. Era aí que tínhamos contato com produtos importados do Paraguai — tempos de “reserva de mercado”. 




Como índios, éramos apresentados a relógios G-shock, réguas com calculadora, caneta de 20 cores, tênis Forward (“Faroait”), calça da OP e outras bugigangas. A turminha nascida em berço de ouro, por outro lado, tinha a oportunidade de conhecer a merenda escolar da Prefeitura, a quadra de cimento e sem cobertura, o futebol com bola de papel e a total falta de perspectiva com a Humanidade.




Esse choque cultural causava um certo estranhamento antropológico e um automático e defensivo distanciamento, entretanto, o comportamento antissocial prevalecia. Os neófitos se condicionavam ao comportamento predominante e acostumado a sobrevivência com baixíssimo orçamento. No fim, parecia até mais divertido estudar enquanto digeria a merenda escolar, chutava canelas fingindo mirar um simulacro de bola de futebol e entrava na sala de aula sujo e sangrando. 




O estilo de vida, por assim dizer, alternativo era “draconianamente” oferecido em troca de boas notas e o uso de alguns materiais importados do Paraguai. Onde eu estudava, quem se desse bem poderia sobreviver em qualquer presídio de segurança máxima.




Depois, eu soube que as turmas eram separadas por letras: A, B, C, D e E. O fato de eu “cair” quase sempre na turma C explica muito minha classe social e meu interesse por estudos, na época. Os alunos que vinham de colégios nobres também não deviam ter um histórico escolar muito bom. O que igualava todos, eram os efeitos da hiperinflação.
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🔴 O jantar do Lula




Lula ofereceu um jantar. Para quem pensa que o banquete faz parte da velha promessa de campanha, é bom ir correndo recolher o equino da precipitação pluviométrica. Não pode ser para o povão uma refeição custando 20 mil reais. Certamente isso não faz parte do pacote que garantia três refeições por dia (café da manhã, almoço e janta). Vendo o Lula lançando essa bravata, dá até fome.




Contudo, o valor é apenas um disfarce, para dizerem que não houve roubo. Antes, o subterfúgio era a “vaquinha”. De qualquer maneira, quem pôde se refestelar no regabofe  garantiu duas coisas: comeu bem, mas votará mal.




Inicialmente, estavam previstos 100 advogados e empresários com direito a matar a fome no evento, no entanto, mais pessoas necessitaram aplacar a crise de abstinência, por isto o evento foi ampliado. A ralé, como não dispõe dos 20 mil, somente aplacará a fome quando eleger o “bom ladrão”. Isto chama-se justiça social da vida real.




As presenças e tipos de evento que o ex-presidente vem protagonizando exemplificam o caráter exclusivo da campanha. Excluindo e tratando o povo como segundo plano, Lula e Alckmin — seu novo melhor amigo de infância — seguem confiando nas pesquisas e no Supremo Tribunal Federal (STF).




No dia 26 de junho de 2022, os convivas foram chegando. Tiveram que passar pelo detector de metais e deixar seus aparelhos celulares — afinal, empresários, advogados e políticos estavam ali para aplacar uma fome que é muito diferente da que um simples jantar será capaz de saciar. Por algum motivo, nenhum celular pôde registrar.




Sentindo-se desinibido entre “as elite”, o Partido dos Trabalhadores (PT) arrecadou financiamento para botar a turma de apoiadores nas ruas — abastecida com mortadela, tubaína, cachê, ônibus, camiseta, boné, bandeira etc. Este apoio é vital, porque, até agora, Lula não conseguiu pisar nas ruas e, fora o jantar exclusivo, jantou trancado no quarto do hotel. Ainda está faltando o contato com o povão que, segundo as pesquisas, o elege, talvez, no primeiro turno.






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🔵 Fábrica de sucessos e Galeria do Rock







Minha internet, através do YouTube, voltou a disparar propagandas. Nesse novo lote, vieram coisas muito desagradáveis, como, por exemplo: videoclipes odiosos. Apesar de não gostar das músicas, por impossibilidade de interromper a exibição, devo computar mais uma execução da faixa.




Atualmente, é dessas audiências involuntárias que se faz um sucesso. Por pior que seja a canção, pode acumular reproduções acidentais. Numa saída ao banheiro, indo à cozinha ou simplesmente porque ficou impossibilitado de “pular” o vídeo compulsório, você enganosamente será registrado como fã daquilo.




O que também induz ao erro, é quando você clica num clipe para “ver com seus próprios olhos” o quanto aquilo é ridículo. Não importa, para a gravadora e/ou empresário aquela atitude contará como um “view”, e cada “view” conduz qualquer coisa ao sucesso. Parabéns, você é um novo fã.




Uma dancinha ridícula no ‘TikTok’, uma coreografia da moda depois de um gol ou um cantor inacreditável de tão ruim estimulam muitos “views”, parecendo que temos um novo artista.




Antes, um verdadeiro artista tinha que ter mais consistência, e quem gostava de sua música ía até a loja comprar o LP ou CD.




É nesse contexto que aparece a ‘Galeria do Rock’. MPB, mas muito rock, lá era o shopping center dos excluídos da sociedade. LP’s, CD,s, camisetas, pôsteres, acessórios e bares com cerveja barata, sujeitos mal encarados e pessoas nada amigáveis, misturados com caras simples à procura de um “lançamento” ou fazendo um “esquenta” antes de um show. 




Headbangers, skinheads, punks, góticos e pessoas que não se identificavam com nenhuma tribo urbana misturavam-se a essa fauna nem sempre amistosa. Os únicos aspectos comuns eram o gosto pelo rock (diferentes gêneros) e o figurino preto.




Quando fui conhecer o lendário local, ainda criança, tive a impressão de estar no filme ‘Warriors — Os selvagens da noite’. Naqueles tempos isso foi meio assustador, mas a animosidade entre gangues, com o tempo, arrefeceu. Entretanto, o visual escuro permaneceu.




     ***




A última vez que estive na ‘Galeria do Rock’ tive certeza de que ela nem sequer merecia mais o nome que a consagrou. Pelo colorido das lojas e o tipo de produto à venda atrai um público mais, digamos, “moderninho”. Por essas e outras, a galeria se tornou um shopping “descolado” e, pelo ramo e frequência, poderia estar localizado na rua Oscar Freire.
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🔵 Um pênalti perdido é para a vida toda







Mochila com “short” de nadar, toalha, tênis de futebol, bomba de ar e algumas ferramentas. Com esta configuração, bastava subir na bicicleta Caloi Extra-nylon e desafiar motos, carros, caminhões e ônibus para chegar ao Esporte Clube Vila Galvão. O “Vila” ficava em Guarulhos e durante um tempo foi minha segunda casa. Mesmo assim era sempre um pouco mais seguro prender a “bike” enrolando uma corrente e fechando um cadeado.




Até hoje, me persegue um pênalti que desperdicei no campo do “Vila”. Um penal perdido nunca será esquecido. Por isso, apesar da pouca relevância do desperdício, carrego a maldita imagem do goleiro defendendo uma simples bola. Pouco importava a relativamente eficiente execução de várias modalidades esportivas de quadra, campo e salão de jogos. Até jogo “dos véio” eu me arrisquei, como é o caso da “bocha” (esporte dos octogenários da colônia italiana). Pois é, gols, golaços, dribles e campeonatos conquistados, nada supera a lembrança desse maldito pênalti.




1985, Bangu e Coritiba disputaram o título brasileiro daquele ano. Por causa de um pênalti perdido o ex-jogador Ado do Bangu chora como criança sempre que dá entrevista lembrando daquilo. Tornou-se uma tragédia eterna e um fantasma a persegui-lo. Apesar de muito bom jogador, não conseguiu conquistar o maior campeonato da equipe do estádio de Moça Bonita.




Certa vez, voltando do clube, acostumado com o trajeto, correndo “que nem louco” de bicicleta (como sempre), apesar das condições temerárias, realizei uma estupidez digna de “videocassetada”: Acostumado a andar sem freio, parando a geringonça metendo o pé no pneu, meu pé enroscou no garfo. Assim, dei um “duplo twist carpado” e, com esta incrível manobra, involuntariamente extraí um dente. Realmente, para quem presenciou o “salto”, deve ter sido um espetáculo de encher os olhos, digno do “Cirque du Soleil”. 




Tive que conviver com os doloridos resultados da original e abrupta interrupção do pedalar. Como desisti do eficaz, mas dolorido, método de extração, nunca mais executei a intervenção improvisada.




Um pênalti perdido jamais será encontrado; esse dente perdido, embora facilmente encontrado, fez com que eu achasse um método mais apropriado para frear a bicicleta em casos de emergência.
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🔵 Tudo resolvido na bala




Não havia outra opção, as diferenças seriam resolvidas num duelo justo. Essa maneira de acertar uma desavença já estava fora de época. Contudo, a influência dos filmes de “faroeste”, mais precisamente do Bang Bang à Italiana (Western Spaghetti), tornou praticamente inevitável o triste desfecho. Não tínhamos alternativa, as coisas teriam que ser desse jeito horrível.




Depois de contados os passos, eu e meu irmão viramos, revólver fazendo mira..., PÁ PÁ. Os  estampidos das espoletas, o cheiro de pólvora e o ritual mimetizado dos filmes, emprestaram dramaticidade à nova brincadeira. Porém, a encenação acabou por aí. Nenhum dos pirralhos admitia tombar. Mesmo depois dos tiros, não houve baixa. Ser derrubado no duelo, ainda que simulado, era humilhante demais. Os novos revólveres de espoleta estavam unanimemente aprovados, aposentando definitivamente a pistolinha d’água. Não bastasse o objeto politicamente incorreto, ainda teria um Forte Apache para brincar de genocídio indígena. 




Nos anos 80 as brincadeiras mais leves eram assim. O politicamente correto não seria sequer compreendido, por analfabetismo ou por incompreensão do conceito da expressão. Trabalho infantil, surra correcional, “brincadeira de mão” e guerrinha com pedra, o que hoje é visto com espanto, nessa época, era socialmente aceitável. Armas, mesmo que “de brinquedo”, seriam, ainda que num duelo pueril, vistas sem assombro. Detalhe importante: as armas infantis não vinham com identificação, o que habilitava o brinquedo (simulacro) a ser empregado num assalto a banco ou outra atividade criminosa. 




Atualmente, esse tipo de brinquedo e, consequentemente, a modalidade de brincadeira seriam prontamente reprovados. Meu pai, certamente, seria cancelado e chamado de “macho tóxico”, e a diversão considerada “hétero normativa”.




Tratando-se de outros tempos, meu pai, provavelmente, viu naqueles revólveres o que realmente eram: ao invés de instrumentos para ceifar vidas, peças de divertimento que disparavam tiros de festim, menos realistas que os de John Wayne ou Giuliano Gemma.




Nós, inocentemente, nos inspirávamos em Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Terence Hill,  Franco  Nero ou quase tudo do “Bang Bang à Italiana”.




Hoje, contando com a boa vontade do Ministério Público, teríamos acesso à “Bazuquinha D’água do Gugu”.
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🔵 Guns ‘n’ Roses







Fora o excelente repertório, o que se vê hoje é o que restou da banda de rock Guns n’ Roses. Em 1992, a banda californiana estava no auge. E foi nessa época que fui a um show deles no Anhembi.




O show foi ótimo e turbulento, como previsto. Previsto porque o temperamento do vocalista, Axl Rose, era sujeito a chuvas e trovoadas. De fato, o repertório foi executado para agradar aos fãs, apesar das interrupções e xingamentos. Provavelmente, os organizadores tiveram sua correria de praxe para atender pedidos extravagantes, exóticos, estapafúrdios ou excêntricos: flores, comidas, decoração ou as icônicas toalhas brancas. Também devem ter agido como as grandes bandas de rock: quebrado quartos de hotel e esvaziando extintores.




A volta para casa revelou a realidade dos fãs de rock e, mais especificamente, dessa banda. O show foi espetacular, e o Guns arrebentou, mas demorei a compreender o que me pareceu somente falta de amor próprio. Presenciando aquele cenário, apesar dos meus irresponsáveis 17 anos de idade, comecei a cultivar uma certa desesperança na Humanidade.




As cercanias do local do show estavam povoadas de gente jogada nas sarjetas e calçadas. O meio-fio virou um “fast-food” para doidões à procura de fragmentos de estupefacientes suficientes para aplacar a abstinência. Os que pareciam melhores revelavam seu bom estado caçando bitucas de cigarros e restos de cerveja em latas colhidas no chão. Essa impressão é só um recorte da decrépita cena. Tudo lembrava um apocalipse zumbi ou, na mais generosa conclusão, um salve-se quem puder. Vendo aquilo tudo com muito boa vontade e inclusive a empatia de quem assistiu o que aconteceu dentro do estacionamento do Anhembi, entendi a dificuldade em voltar para a realidade.




Contudo, estávamos na Zona Norte de São Paulo, o caótico e histórico show havia terminado, então cada um teria que retornar à sua vida, muitas vezes, suburbana e/ou sub-humana. Pensando nisso, era até compreensível que muitos se recusassem a esperar um ônibus e recorressem aos restos de nada.
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