Lista de Poemas
🔵 Pescando na memória
Inocentemente, eu sabia aonde fui convidado para ir: Laticínios Sardinha. Não, o substantivo não é comum, portanto não se refere ao peixe; o substantivo é próprio, portanto se refere ao sobrenome do proprietário do mercadinho de frios.
A porta rolante de ferro escondia embutidos e frios que temperavam o ambiente. Os produtos pendurados, dependendo do ponto de vista, enfeitavam o armazém. A mistura de cheiros e a disposição dos produtos faziam cada fatia de mortadela, salame, presunto e muçarela parecerem mais saborosas. Bem como, as azeitonas que boiavam numa solução de forte cheiro. Tudo isso dava um odor característico ao armazém Sardinha. Só o cheiro, parecia garantir uma dose satisfatória de sódio.
Eu largava tudo o que estava fazendo, pensando em “saquear” o estabelecimento. Aquele lugar, numa esquina da rua Treze de Maio, representava a real possibilidade de eu parar num hospital com overdose de sódio.
“Mal intencionado”, eu deixava a minha mãe e ía assaltar os tambores de azeitona. Para minha satisfação pouco exigente, tudo permanecia conforme o meu planejamento, de modo que eu não encontrava outra opção e abusava da inimputabilidade reservada às crianças. Sem a assepsia recomendável, perdia a timidez e a conjuntura me obrigava a afundar o braço direito no tambor. Concentrado no saque, eu pescava azeitonas verdes e pretas. Sem saber e sem intenção, talvez eu estivesse refrescando micro-organismos patogênicos.
O método da minha pilhagem não passaria incólume a uma vistoria da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Assim que me vissem esticando o braço no tambor de plástico, os fiscais reuniriam argumentos suficientes para lacrar aquele pequeno comércio de bairro. Tá bom, concordo que a prática não era nada muito salubre, mas eu era apenas uma criança, o que me conferia certa tolerância, ou dó mesmo, porque a miscelânea de cheiros, sobretudo a fragrância de azeitona que vinha do tambor azul e a fome suplantavam a vergonha. De qualquer maneira, como a molecagem era pré-COVID-19, eu continuei vivo.
Esta crônica não tem sentido nenhum, é só um recorte de infância e uma maneira de eu lembrar da minha mãe.
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🔴 Quintus do inferno
A série se chama ‘The Chosen - Os Escolhidos’. O filme retrata como Jesus escolheu alguns dos seus apóstolos. A produção é tão boa que também é recomendada para quem não crê no Cristianismo. Entretanto, além dos apóstolos, bem escolhido foi o vilão Quintus. Quintus, interpretado pelo ator Brandon Potter, era um magistrado romano em Cafarnaum e o pretor da Galileia.
Contrariando a lógica jurídica, sempre procurando a vingança em vez da justiça, bastava ele decidir quem seria preso, para, depois, reunir provas. Ah, os cristãos, perseguidos por rezar, afinal, Quintus queria que fosse feita a vontade dele.
A caracterização do magistrado vilão Quintus, respeitou a composição de um mal-feitor, portanto é um arquétipo. A cara de mau, a falta de empatia e a capacidade de rir quando inventava uma dosimetria cruel, revelam um prazer sádico, típico de tiranos de desenho animado ou qualquer filme de ficção de super-herói.
O ator Brandon Potter “passeia” pelo vasto campo interpretativo de um personagem tão denso. Destaca-se a cena quando ele finalmente se encontra com O Messias. Durante a impagável conversa (interrogatório), Quintus faz questão de exibir desenvoltura e quem é que manda, enquanto saboreia alguma iguaria, lógico, demonstrando poder, arrogância, ilustrando que “mama nas tetas” de quem paga os impostos, e é bem servido. Como todo autoritário, ele começa a “conversa” com uma enganosa simpatia, para depois fazer cara de mau, “encostar na parede” e ameaçar.
Destituído de valores e princípios, o vilão sem nenhum caráter, ao contrário de Jesus, só é crível na ficção. Como é possível um magistrado tão ruim? Para alguém como Quintus parecer verossímil, é preciso ser como São Tomé e ver para crer.
A vinda dO Messias trouxe agitação entre os Doutores da Lei. Ele há de voltar, mas... e se a alma atormentada do Quintus voltar antes? Eu vejo o presente repetir o passado...
Não há nada escondido que não venha a ser descoberto, ou oculto que não venha a ser conhecido”....
(Lucas - Capítulo 12 - Versículo 2)
Texto com imagens no blog:
Gazeta Explosiva
Contrariando a lógica jurídica, sempre procurando a vingança em vez da justiça, bastava ele decidir quem seria preso, para, depois, reunir provas. Ah, os cristãos, perseguidos por rezar, afinal, Quintus queria que fosse feita a vontade dele.
A caracterização do magistrado vilão Quintus, respeitou a composição de um mal-feitor, portanto é um arquétipo. A cara de mau, a falta de empatia e a capacidade de rir quando inventava uma dosimetria cruel, revelam um prazer sádico, típico de tiranos de desenho animado ou qualquer filme de ficção de super-herói.
O ator Brandon Potter “passeia” pelo vasto campo interpretativo de um personagem tão denso. Destaca-se a cena quando ele finalmente se encontra com O Messias. Durante a impagável conversa (interrogatório), Quintus faz questão de exibir desenvoltura e quem é que manda, enquanto saboreia alguma iguaria, lógico, demonstrando poder, arrogância, ilustrando que “mama nas tetas” de quem paga os impostos, e é bem servido. Como todo autoritário, ele começa a “conversa” com uma enganosa simpatia, para depois fazer cara de mau, “encostar na parede” e ameaçar.
Destituído de valores e princípios, o vilão sem nenhum caráter, ao contrário de Jesus, só é crível na ficção. Como é possível um magistrado tão ruim? Para alguém como Quintus parecer verossímil, é preciso ser como São Tomé e ver para crer.
A vinda dO Messias trouxe agitação entre os Doutores da Lei. Ele há de voltar, mas... e se a alma atormentada do Quintus voltar antes? Eu vejo o presente repetir o passado...
Não há nada escondido que não venha a ser descoberto, ou oculto que não venha a ser conhecido”....
(Lucas - Capítulo 12 - Versículo 2)
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Gazeta Explosiva
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🔵 Só sei que nada sei
Ganhei dois livros: Sócrates e Santo Agostinho. Os brindes, adquiridos numa assinatura de jornal, mesmo não lidos, poderiam abrilhantar minha incipiente e pouco admirável coleção. Acreditei que somente exibindo os títulos, eu herdaria todos os benefícios por ostentá-los. Não sei se por ingenuidade, descrença na inteligência humana ou preguiça, acreditei que, sem a leitura, apenas expondo, causaria uma boa impressão: filósofo e teólogo.
Pronto. No Orkut, não precisaria citar Clarice Lispector e Fernando Pessoa; por um atalho literário, ou trapaça, eu estava num patamar superior, arrogantemente reservado aos intelectuais. Na verdade, eu contribuía para que o Paulo Coelho continuasse sendo um dos escritores mais lidos do mundo e lia biografias rasteiras e eivadas de fofocas sensacionalistas, dignas de pautar um telebarraco vespertino.
Entretanto, eu estava colhendo os benefícios de enfeitar a minha estante, por isso, aquela farsa nunca poderia ser descoberta. Portanto, enquanto esperassem de mim uma observação comparável ao filósofo grego e não ao ex-jogador do Corinthians, eu continuaria amealhando os frutos dos dois volumes intactos.
Por curiosidade, venci o temor intelectual de me arriscar nas letras e folheei os livros de minha incompleta coleção. A surpresa foi superada pela curiosidade de adiantar o veredicto do julgamento de Sócrates e decorar umas frases de efeito do cristão. Decorando isso, eu provavelmente impressionaria quem ousasse me testar, além de garantir que aquela palhaçada durasse mais alguns anos.
No entanto, observei que outros faziam até pior: cenários de bibliotecas falsas. Assim, perdi a vergonha de exibir meus livrinhos trocados por cupons recortados de jornais. Mais, num gesto ambicioso, eu franqueava o empréstimo, portanto poderia sofrer o escrutínio e ser instado a discorrer os meus conhecimentos acerca dos pensadores históricos.
Depois de muito tempo, me tornei íntimo dos livros, apesar de praticamente intocados. Sempre ostentando os títulos, eu havia decorado o teor de cada volume, de modo que eu já me comportava como quem lia coisas do nível dum Sócrates ou Santo Agostinho.
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🔵 Seu Daniel na cova dos leões
A rua Barão de Itapetininga era o “Lollapalooza” dos desempregados. Desempregados que distribuíam “xerox” de currículos mal redigidos, coalhados de eufemismos para turbinar os cargos pregressos e tergiversações para atenuar as demissões, bem como platitudes e cursos mal cumpridos
De prédio em prédio, pelas agências escondidas em salinhas com uma mesa e um telefone, eu desanimei ao encontrar uma recepcionista lixando as unhas, equilibrando o telefone entre a orelha e o ombro e trocando confidências sobre a balada. Acredito que meu currículo virou rascunho.
Procurando trabalho, precisando de alguns reais, fui parar na Secretaria do Curso de Direito da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), recomendado por uma agência de empregos. Embora recém-contratado, cheguei com a responsabilidade de substituir um funcionário ladrão.
Na primeira noite de trabalho na Secretaria de Direito, conheci o “Senhor Daniel”, que seria meu colega de setor. Meu ímpeto jovem contrastaria o ritmo mais lento daquele veterano. Talvez, mais que os atestados, os requerimentos, os protocolos e as reclamações, meu maior desafio fosse o choque de gerações.
Entretanto, houve um acordo tácito, respeitando o momento que um ou outro “sumia” (por motivos diferentes). Solto naquele “campus”, eu acreditava que podia passar como mais um aluno, porém o ridículo uniforme me discriminava como um funcionário daquela instituição de ensino. Além de me identificar como um provável inimigo, o uniformezinho me fazia parecer um guardinha mirim municipal.
Como a secretaria fechava logo após o intervalo, eu sempre ficava conversando com alguém. Às vezes, conversando com aquele senhor, que sabia lidar com os alunos mais folgados, eu fui aprendendo a conversar e contornar situações complicadas. Troquei meu juvenil ímpeto destemido por um comportamento cínico e burocrático, como um caricato funcionário de repartição pública.
Acredito, o freio social que adquiri deve ter sido muito mais importante que os cobres que consegui arrecadar. Pelo menos, é o que dura até hoje.
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🔵 Serra ou morro
Aquelas ruas de terra eram estranhas, mas logo vi que estávamos indo pro morro. A subida constante desvendou a charada. Meu pai, meu irmão e eu faríamos um passeio que hoje eu entendo como uma relativa diferença social e um movimento habitacional.
Lá embaixo, onde morávamos, apesar das casas simples, típicas da periferia guarulhense, tinha certo “status” de bairro “bom”. Engano. A fama se dava pelas ruas que os ônibus passavam, como se fossem ônibus turísticos. Lá no morro, aonde estávamos indo, mesmo com algumas casas de alvenaria, era povoado por barracos, alguns em encostas, desafiando a engenharia civil e a gravidade, pondo à prova suas fundações a cada chuva mais forte.
Chegando no alto da Serra da Cantareira, parte da Mata Atlântica foi devastada para abrigar gente com muita coragem e pouco dinheiro. Os barracos e a ausência de saneamento básico contrastavam com a vista do meu bairro, que, lá de baixo e longe, parecia melhor em todos os quesitos.
Conferindo o abismo revelado pelo morro, eu não posso abrir mão do trocadilho óbvio e, por isso mesmo, fácil do “abismo social” descoberto. Mesmo existindo, lá da Vila Galvão a diferença não parecia muito grande.
O objetivo inicial foi identificar alguns imóveis sempre reconhecidos lá do meu bairro. Entretanto, olhando para as casinhas modestas, a realidade transbordava num leve movimento circular de pescoço. A conclusão imediata: as condições eram inversamente proporcionais à altitude dos bairros e à beleza da vista.
O imponente nome “Serra da Cantareira”, bem como o “status” de “Mata Atlântica” foram reduzidos ao acidente geográfico pouco nobre “morro”. Mesmo à distância, minha primeira impressão é que ali era lugar de favelas, desmatamento e queimadas. A lembrança afetiva guarda mistérios de que naves espaciais pousavam atrás do morro.
Esse passeio foi uma das raras vezes que eu não vi meu pai trabalhando, bem como ele encontrando tempo e paciência para reunir eu e meu irmão. O significado daquela experiência só veio depois, assim como a falta do meu pai...
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🔴 TVPTATVQVVC
O PT (Partido dos Trabalhadores) teve a coragem de anunciar, com pompa e circunstância, que vai iniciar suas transmissões através de uma televisão aberta! Isso é comparável a eu anunciar, entusiasmado, que vou abrir uma banca de jornal, uma escola de datilografia ou uma videolocadora ou comprar um videocassete.
Esse partido já conta com uma assessoria de imprensa informal, mediante o cala-a-boca financeiro. Sendo mais claro, os grandes veículos tradicionais de comunicação se veem “desencorajados” a criticar seus financiadores. No entanto, justamente quando, por exemplo, a televisão Globo, com sua expertise e o que há de melhor em material técnico e humano, passa por dificuldades e provavelmente terá que se reinventar, o PT surge com sua “novidade”. A ideia tola do PT só revela um anacronismo de quem deseja colocar em prática aquele velho sonho utópico que Fidel Castro implantou em Cuba 64 anos atrás.
Embora inócuo, o canal do partido petista significa um sinal preocupante do autoritarismo intrínseco desse partido intolerante. Os que conseguiram tapear muitos eleitores com aquele papinho de “luta pela democracia” queriam, na verdade, instalar a “ditadura do proletariado”, segundo confissões. Pelo jeito, vários ainda insistem nisso.
Pois bem, Lula, o presidente sem povo, aquele que aparece numa “live” sem audiência, terá seus discursos (eivados de, digamos, inverdades) transmitidos no novo canal por antena parabólica. Sem medo de errar, afirmo que a programação será ignorada, de modo que pagaremos (indiretamente) mais uma TV traço. Se não transmitir, ao vivo, os jogos do Corinthians ou do Flamengo, o canal realmente virará um caro, porém mal sucedido material de campanha.
O canal via satélite, que não precisou de concessão, apresentará telejornais. Entretanto, a credibilidade de quaisquer noticiários produzidos por esse canal são tão confiáveis quanto minhas teorias de física quântica.
Slogan: TVPTATVQVVC
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🔴 O petróleo é nosso
Uma piada antiga diz que se o socialismo governasse o deserto do Saara, em pouco tempo faltaria areia. Contudo, o que era piada, virou profecia. A Venezuela possui a maior reserva de petróleo do mundo e o combustível era baratíssimo, no entanto, no país de Nicolás Maduro, falta combustível. Maduro, não satisfeito, tabelou o preço do produto. Conclusão: deve ser mais fácil achar um poço de petróleo no meu quintal do que abastecer um carro naquele país.
Nicolás Maduro logra êxito continuando o que Hugo Chávez começou: instalar o regime socialista. Como em todos os lugares onde o regime vigorou, o resultado foi pobreza e mortes. Os adeptos do nefasto regime insistem que nunca existiu socialismo ou comunismo de verdade, querendo convencer que a experiência utópica funcionará no Brasil.
A petrolífera venezuelana é a gigante estatal PDVSA (Petróleos De Venezuela SA). A desastrosa política de controle de preços do país sul-americano já deu errado aqui (na época, faltou carne). Mas, a burrice “amadureceu” e veio acompanhada de uma medida extrema para vencer a escassez de combustível causada pela má gestão, a corrupção e a falta de investimentos em manutenção e crescimento da empresa: um maravilhoso sorteio para concorrer a um abastecimento. Sensacional! Mas não é só isso: em algumas regiões há um curioso rodízio de automóveis, obedecendo uma ordem de abastecimento. E, óbvio: filas. Diante desse cenário, o mercado informal é uma realidade lá.
Lula, incrivelmente, falava a verdade quando disse que estava mais “Maduro”. Sim, o controle artificial nos preços da Petrobras já resulta na falta do diesel e acelera o processo de “venezuelanização” do Brasil.
O socialismo é muito bom na teoria; como tudo não passa de hipocrisia, na prática é igualar todos (ricos e pobres) na escassez. A incompetência pode destruir um país rico, dono das maiores reservas de petróleo do mundo (à frente da Arábia Saudita) e membro da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Portanto, esse histórico corrobora a tese zombeteira que diz: Se o socialismo administrasse o deserto do Saara, em pouco tempo faltaria areia.
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🔴 Descriminalização da criminalidade
A gritaria veio de várias partes. A dura resposta da Polícia Militar de São Paulo contou com o apoio da população do Guarujá, que é quem mais sofre com o aumento da criminalidade; por outro lado, houve protestos de jornalistas e choveram manchetes como: “O crime organizado reduz a criminalidade”, (FGV - Fundação Getúlio Vargas).
São criativos e, concomitantemente, piegas quando criam a expressão: populismo punitivo. A expressão parece-me uma solução meio envergonhada de defender o lado errado da guerra. Mas o tal “populismo punitivo”, que parece tese de especialista da USP, vai ser replicado por “especialistas em segurança pública” de gabinete.
O pior é quando personagens do governo defendem bandidos ao invés de defenderem a Polícia. Foram os casos do ministro da Justiça e Segurança Pública e o ministro dos Direitos Humanos e Cidadania, Flávio Dino e Silvio Almeida, respectivamente. O ministro de sobrenome jurássico, que entrou e saiu tranquilamente de uma favela controlada pelo tráfico, até agora, apenas anunciou medidas de punibilidade ao cidadão.
Em 1968, Hélio Oiticica disse: “Seja herói, seja marginal”. Pois, a celebração da figura do marginal voltou, porém sem o disfarce boboca ou a visão romantizada do justiceiro social e vítima do sistema que os intelectuais conseguiram embalar; dessa vez, parte dos pseudo-intelectuais e funcionários governamentais nem tentam edulcorar as ideias tortas.
Vazou uma “orientação” de um advogado a serviço do crime. No áudio, o advogado determinava o que o assassino do policial devia dizer: basicamente, numa inversão de culpabilização, incriminava o governador e o secretário da Segurança Pública de São Paulo. Automaticamente, essas diretrizes (narrativas) tomaram conta das redações, então os jornalistas começaram a incutir a falácia da “chacina” policial e converteram criminosos em estudantes.
Aqueles que, fingindo-se humanitários, defendem os criminosos, moram longe ou têm condições financeiras de manter afastados seus nefastos efeitos; pelo contrário, quem é pobre vive sob o jugo da criminalidade.
São criativos e, concomitantemente, piegas quando criam a expressão: populismo punitivo. A expressão parece-me uma solução meio envergonhada de defender o lado errado da guerra. Mas o tal “populismo punitivo”, que parece tese de especialista da USP, vai ser replicado por “especialistas em segurança pública” de gabinete.
O pior é quando personagens do governo defendem bandidos ao invés de defenderem a Polícia. Foram os casos do ministro da Justiça e Segurança Pública e o ministro dos Direitos Humanos e Cidadania, Flávio Dino e Silvio Almeida, respectivamente. O ministro de sobrenome jurássico, que entrou e saiu tranquilamente de uma favela controlada pelo tráfico, até agora, apenas anunciou medidas de punibilidade ao cidadão.
Em 1968, Hélio Oiticica disse: “Seja herói, seja marginal”. Pois, a celebração da figura do marginal voltou, porém sem o disfarce boboca ou a visão romantizada do justiceiro social e vítima do sistema que os intelectuais conseguiram embalar; dessa vez, parte dos pseudo-intelectuais e funcionários governamentais nem tentam edulcorar as ideias tortas.
Vazou uma “orientação” de um advogado a serviço do crime. No áudio, o advogado determinava o que o assassino do policial devia dizer: basicamente, numa inversão de culpabilização, incriminava o governador e o secretário da Segurança Pública de São Paulo. Automaticamente, essas diretrizes (narrativas) tomaram conta das redações, então os jornalistas começaram a incutir a falácia da “chacina” policial e converteram criminosos em estudantes.
Aqueles que, fingindo-se humanitários, defendem os criminosos, moram longe ou têm condições financeiras de manter afastados seus nefastos efeitos; pelo contrário, quem é pobre vive sob o jugo da criminalidade.
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🔴 Não vai ter golpe
O vendedor de algodão-doce ilustra que esse “golpe de estado” à brasileira recrutou crianças, além de idosos, doentes e bichinhos de estimação. Na verdade, somente os cães aceitaram o confinamento junto aos donos; os gatos desertaram já no acampamento do quartel. Com minha sagacidade, posso presumir, se houvesse logística, o “golpe” contaria com o auxílio luxuoso da trilha sonora da execução de Richard Wagner num piano de cauda por um pianista trajando fraque. Para compor melhor esse cenário lúdico, o ambiente seria ilustrado por palhaços, macaquinhos serelepes, balões de ar e bandeirinhas. Tá, não seria nada convincente, portanto não corroboraria com a falácia do “golpe”.
Cresce a comparação do episódio famoso do Reichstag. Em 1933, o Palácio do Reichstag (parlamento federal alemão) sofreu um incêndio. Atribuindo o atentado à oposição, o “democrático Hitler” (entendeu?) alargou a condescendência para cometer arbitrariedades. Porém, num precedente histórico de “false flag”, tratou-se de uma farsa, ou seja, um autogolpe.
Muito parecido com o nosso 8 de Janeiro, é o 6 de Janeiro americano, quando invadiram o Capitólio (Senado). Articulado como uma típica “false flag”, a invasão “fake” só não contou com o cordial tratamento brasileiro: água mineral.
Nas terras de Pindorama, as arbitrariedades se acumulam: presos, perseguidos (multa, cancelamento e asfixia financeira), exilados políticos, inconstitucionalidades etc. É assustadoramente claro, além de um viés ideológico, há um componente vingativo e sádico. Quem anuncia multas e prisões sorrindo, sente um prazer patológico no sofrimento alheio.
Infelizmente, muitos estão alheios à realidade porque a vida segue numa normalidade egoísta. Diferente de quando os artistas eram as vítimas e denunciavam a perseguição em músicas, peças teatrais etc. Conclusão: ditadura e democracia são enxergadas de acordo com a conveniência. Ou seja, “Democracia é quanto eu mando um você, ditadura é quando você manda em mim. Não deveria ser assim.
Pois, enquanto protelam a CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito), um “lote” de pessoas inocentes segue recluso. Quem se satisfaz com essa situação, perdeu a consciência do que é correto.
Falando em consciência, e ela, num solilóquio insuportável, me obriga a acreditar que só o tempo irá julgar os dias atuais. Enquanto isso: lavam as mãos, viram a cara e fingem que não veem.
PS: que qualquer responsável pelo quebra-quebra seja punido.
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🔵 Venda da Japonesa
Venda ou quitanda era como chamávamos o mercadinho de secos e molhados. Eu nunca soube se as ratazanas que cruzavam os corredores do velho armazém se encaixavam nos secos ou molhados; pelo aspecto, provavelmente as secas saíam da prateleira ou do depósito, e as molhadas, do esgoto. Eu só desisti de ser cliente da venda quando tentei comprar “chicletes” que, mais que vencidos, há muito tempo tiveram sua fabricação interrompida.
Pois bem, aquele pequeno comércio de bairro já era anacrônico no começo dos anos oitenta. Entrar no imóvel antigo era como visitar um lugarzinho parado no tempo. De repente, a circulação de carros, buzinas e sirenes eram substituídas por um silêncio que destacava cada ruído lá dentro.
O empório apresentava um aspecto oriental, quase místico, com o casal de japoneses, sendo que o velho, sempre aparentando um cansaço inexplicável, parecia fazer parte da mobília. Na verdade, o velho japonês me surpreendia com sua presença entre sacos de cebolas, batatas, algum cereal e... roedores.
Definitivamente, o comércio de secos e molhados não era um típico lugar que agradaria o meu paladar infantil. As bolachas, salgadinhos e “chicletes”, vasculhando bem, poderiam ser encontrados, mas a data de vencimento, sobretudo o frenético trânsito dos mamíferos roedores desencorajavam o consumo.
O mercadinho dos japoneses, a padaria do português, a oficina do italiano, a loja de móveis do turquinho (que poderia ser libanês), a casa dos árabes etc. Sem xenofobia, as pessoas e o comércio eram identificados pela origem, revelando a nacionalidade da imigração e miscigenação. Na escola era mais discriminatório (no sentido literal de diferenciação): as características físicas prevaleciam sobre a etnia.
Ir naquela venda era uma aventura, uma viagem no tempo ou a imersão numa outra cultura. O lugar que não existe mais, assim como o casal de japoneses, nunca foi um endereço recomendado para aplacar a fome, mas, como nos filmes, era o endereço certo para ativar a imaginação.
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