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O INFERNO É O ESPELHO DOS OUTROS, MAS NOSSO MAIOR INIMIGO SOMOS NÓS MESMOS!

Para tentar compreender horizontes coirmãos é preciso também coragem para primeiro tentar compreender-se. Para analisar incongruências expostas em ares espraiados, com jugos severos e aviltados, é preciso ousadia para primeiro tentar analisar-se.

Um médico de homens ou de almas não cura doentes sem conhecerem de suas próprias fraquezas físicas e espirituais; e os doentes, em contrapartida, não se recusam a mostrar suas condições moribundas, como um grande ensinamento sobre nossas fragilidades, e como um aviso de que a vigília, de nós mesmos, deve ser constante como o respirar que nos mantém.

No entanto, de nossa condição geral no meio das coisas onde estamos e dos seres com quem andamos, é estranho observar vultos de toda parte declamando sobre que chamamos "mal" ou "bem" no mundo no qual nos edificamos em ambíguas interpretações, preterindo nossas próprias trevas em detrimento de olhares postos a adjacências.

Inadvertimo-nos, ao que percebo, de que entre céus e infernos intrínsecos, é que exteriorizamos, apartadamente, infernos, mantendo de nós mesmos uma utópica e fracassada visão de nobrezas, quando nosso olhar se encontra diante do espelho. Mas digo que ambos, bem e mal, coabitam-nos cerneamente, e a mente humana não pode, como se imagina (ou se ignora) invocar a si aprazeres e virtudes, regurgitando lançamentos espúrios aos cantos alheios, pois ambos, por mais que procuremos nos desvencilhar de nossas obscuridades, têm a mesma origem: nossas psiqués.

Enquanto minhas incautas reflexões me agitam na insônia do frio entardecer que atravesso, penso que toda carne já sofreu o pecado, e que todo espírito já se corrompeu em alguma angústia. Desse ponto é que somos imperadores de nossas decisões e de nossas escolhas, e nos enraizamos profundamente em aprisionamentos imperceptíveis de autopreservações cândidas e débeis, concebendo-nos alívios em conjeturas de tormentas alheias.

Madalena ainda é apedrejada a todo momento, sob o olhar de nosso Deus criado e sob a desobediência de suas palavras sábias. No entanto, o parasita interno que nos habita é pior que qualquer chaga que se nos possa ser atirada de qualquer lugar da vastidão inaugurada.

Descendo o vale crepuscular para o iminente abraço da noite, a conclusão a que pude chegar de minha longa jornada é que nossas pedras angulares se distam de nossos estandartes expostos nas altas torres de nossos magníficos castelos e que, ao nos negarmos enfrentar nossos próprios infernos, costurando, com nossas máscaras, angelicais palidezes e sinfônicos sussurros sob o resto da conjectura, também não podemos superá-los para nos enaltecermos em nossos céus.
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A INUTILIDADE DE UM AMOR VÃO

... amar tem
que servir para alguma coisa
que não seja a impressão
de nele ser algo vago
e ausente,

que não sejam
negativas para tentar, em vão,
preservar a própria
vida,

que não sejam
as loucuras realizadas por tanta parte
com infiltrações angelicais
e com gozos e prazeres
espalhados,

que não sejam
as horas ocupadas com pragas
e merdas por todo
lado;

amar
não pode ser assim,

tão inutilmente dentro,
tão inutilmente chuvoso,
tão inutilmente cruel

com a mansa
brisa a tocar só quando
se está fora.
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VIVER E APRENDER

... se ir vivendo,
como dizem, é ir aprendendo
a sonhar, a amar, á estrada
se verticalizar

e a transar,
entre outras coisas
em tantos leitos e em tantos
ares,

devo dizer
que ir morrendo é fantástica,
triste e angustiantemente
ir desaprendendo,

com a franca e fria
constatação de que tudo isso não passa
sequer de um conto
de fadas!
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RESSURREIÇÃO

... se, ainda ontem,
o se me dormia silente,

dentro de
minha solitária casa;

a um momento,
a um ressureição,
a um neon aceso ao portão,
a umas bananas tragas à bolsa
de presente,

ele de novo
se acordou, queimou-se, ardeu-se
e se multiplicou.
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O INFERNO É O ESPELHO DOS OUTROS, MAS NOSSO MAIOR INIMIGO SOMOS NÓS MESMOS II!

Perguntaram-me se eu tinha alguma compreensão de mim mesmo, além de meus severos jugos às caóticas vontades e aos abstratos anseios de criaturas que se amortalham desapercebidamente em suas autointegridades, deflorando tempos, espaços e todas as coisas neles implantados mediante suas imaginações prolíficas.

Ao início de minha era, havia-me, além do reino esplendoroso de palavras e de subjetivações em imagens de todo tipo, um estranho sentimento de esperança incontrita em eventos porvires aos absurdos momentos estreitados e sacramentados de estares presentes.

No templo castiço (como que se possível fosse não haver contaminação já no primeiro respirar) não tinha noção de que porvires redentores eram nada mais que prenúncios de quedas, inerentes a nossas macabridades amorfas. Mal sabia que há pesos inconscientes e demasiadamente excessivos ao "ser" que se posta às margens de delineamentos próprios de por onde anda, aspirando cheiros, matizando cores e construindo relicários com suas pérolas imperfeitas.

Posteriormente, vendo exortações primordiais encetadas por toda parte, ciprestemente comecei a perceber em páginas queimadas, mediante o virar auspicioso da próxima folha em branco onde nos colocamos a repetir as mesmas coisas, que boas ou más-fés misturam-se nos opróbrios nossos, pronunciados, na maior parte das vezes, como orações ou sinfonias compostas, às máscaras usadas, em manifestações incompreensíveis de nossos seres em protuberantes imagens que não refletem mais que nossas superficialidades convenientes.

Dentro dos seres autoproclamados às suas conveniências transfiguradas, comecei a perceber que as vontades eram delirantes em suas aspirações. Que luzes emergiam de sombras omissas em seus cernes. Que palidezes próprias eram sufocadas em lançamentos espúrios a palidezes alheias. E que os porvires utópicos se originavam de insipiências ingênitas.

Então, renegando anseios e esperanças a porvires condenados em nossas insalubridades, enquanto praguejamos pretéritos e presentes em vomições obscenas, questionei de mim mesmo onde estaria alguma transparência sensível, devaneada de nossos minutos precedidos. E contemplei reflexos de espelhos quebrados na última defesa, no último porto, projetado em amanhãs onde nos colocamos inconspurcados, até que o contato vulnerável seja feito, revelando uma complexidade turva: Toda concupiscência humana, em seus delírios e conjecturas, espelha sua frágil condição e traçeja trajetórias fatídicas rumo a esperanças irrealizadas.

- Sim. Sou anverso sem rosto. Um ser soterrado em mim mesmo. O sol madruga em minhas concavidades imperfeitas. E a noite, com suas sombras, manifesta-se em meus dias embotados. Misturado à terra e às quimeras inexeqüíveis, sou uma cacofonia ressoada.
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O INFERNO É O ESPELHO DOS OUTROS, MAS NOSSO MAIOR INIMIGO SOMOS NÓS MESMOS IV!

Quando, ao almejarmos ser como águias flutuantes, descobrimos que as altivas asas carregam consigo, em voos dissimulados, decadências inexoráveis e ilusões traídas por nossas ufanias egocêntricas.

Quando convulsões silenciosas, que nos dilaceram o âmago eivado em angústias sôfregas, não se podem mais amenizar na veemência de nossos sórdidos olhares postos às adjacências.

Quando todas as utopias concebidas em efluências encantadas, outrora lançadas aos ares de efêmeras e protuberantes searas, e todas as difamações inflamadas concebidas com palavras cegas em perjuros ébrios brotados de nossas trivialidades indizíveis, convergem-se e se reúnem autoconspirando em nossos fulcros obscuros.

Quando todas as crenças propagadas por doutrinas apostoladas e as próprias convicções pragmáticas em alguma redenção salvívica, espalhadas em labirintos desconhecidos de nossos cernes adúlteros, sucumbem com preces não ouvidas por deuses que concebemos.

Quando todos os abrigos já inaugurados para algum alívio qualquer se desvanecem em nossa natural e irremediável imperfeição humana, de onde profanamos essências e disseminamos esplendores espúrios.

Quando, enfim, de nossos caminhares estrépidos, tudo se revela e se descobre que não há mais sonhos a acalentarem nossas descrenças, nem há mais lágrimas a serenizarem nossas metástases túrbidas, morremos sós no deserto silente.
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TEU VENENO FOI TATUADO EM MINHA ALMA!

Agonizo no silêncio
do deserto, junto ao resto dos vermes
e dos ratos sapiens,

tenho um amor
passado, e irrecuperável, que ainda
sangra meu coração,

tenho flexas pregadas
em todas as minhas gerações e estações
nesta jornada vã,

tenho uma esperança:
atingir a paz na morte, desapregado
de toda humanidade, de toda angústia
e de toda dor!
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EU NÃO QUERO TE VER SOFRENDO!

Eu não quero te fazer sofrer,
eu não vou ficar contigo apenas
para ver e devorar as curvas
de teu corpo,

tu me vês chorando
o tempo todo sobre cinzas
que não vão aparecer, e tu me disseste
que irias comigo para o chão,
se fosse preciso,

mas, por Deus,
neste momento, já ao fim do outono,
a loucura é a minha maior aliada, e a silente
tempestade no deserto é minha
amante contumas;

e eu, entende-me,
não gostaria que sofresses mais tanto
por minhas dores e por minhas lembranças
tão amargas!
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MORTE ABRENUNCIADA

Fora por mim
anunciada a última tempestade,

protestaram
os deuses, os demônios, os mitos,
os ídolos e os homens;

e eu te dizia,
acautela-te, Flor de Inverno,
não tardará para que os efeitos de nossas
más escolhas

nos mostrem
o tamanho dos abismos que se esconde
em nossas almas, tão bem escondidos
por nossas palavras e por nossas
máscaras!
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MORTE DE UM FLORIR ABSURDO

Quis ser
como os poetas tristes
para dar-te o verso certo
nos momentos
incertos.

Quis ser como os anjos
alvos para apaziguar-te os ermos
e cingir de paz tuas
angústias.

Quis ser como os mitos
impávidos para dar-te sonhos de asas
e livrar-te dos rastros dos homens
que edificam magníficos
templos.

Mas a única
coisa que pude ofertar foi a celebração de mim
mesmo, como um frágil vaga-lume
noturno a querer amar,

em êxtase,
a florescência mortífera
da luz.

E foi assim
que me quedei,
desterrado do que não
pude ser, e sob a esqualidez de tua ausência,
em meus próprios precipícios
rasos.
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Comentários (7)

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fernanda_xerez
fernanda_xerez
2018-08-17

SEMPRE SUSPREENDE-ME COM TUA INESGOTÁVEL INSPIRAÇÃO. AMO TEUS POEMAS PARA A FLOR DE INVERNO, sinceramente. Saudações Alenarinas da Flor*

fernanda_xerez
fernanda_xerez
2018-02-26

Por tudo, mais uma vez, obrigada! ¨¨¨¨¨Beijo_Flor*

Trivium
Trivium
2018-01-09

Olá, cara. Gostei bastante desta poesia tua. Você com partilha suas poesias em algum outro site que não este?

fernanda_xerez
fernanda_xerez
2017-12-23

E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.

fernanda_xerez
fernanda_xerez
2017-12-23

Lindo e provocante!