Lista de Poemas
XANAS SÃO SÓ A METADE DO NEGÓCIO. É PRECISO TAMBÉM UMA MENTE CAPAZ!
... o desejo
ocupa a planície do corpo,
o gemido da boca, os fogos
em descontrolados
gozos,
isso é bom,
isso é delicioso,
isso é mais que demais;
mas, infelizmente,
não contempla o todo, nem as ciências
e as delícias do mal e dos abismos
insossos,
que nos
provoquem as verdadeiras
dores do amor e da parturiente
em literários fogos
ocupa a planície do corpo,
o gemido da boca, os fogos
em descontrolados
gozos,
isso é bom,
isso é delicioso,
isso é mais que demais;
mas, infelizmente,
não contempla o todo, nem as ciências
e as delícias do mal e dos abismos
insossos,
que nos
provoquem as verdadeiras
dores do amor e da parturiente
em literários fogos
136
AMARGAS ILUSÕES
Não chorem pelo que não somos na terra desconhecida, Nem pelo que almejamos ser em alma posta na carne, em egos translúcidos que se deleitam com imagens magníficas, contidas nas seduções e nos delírios do grande cenário abismal.
Foi assim me perdi ao ousar caminhar sem pisar o chão ressequido, pavimentado com espinhos invisíveis, caídos de frágeis sonhos suspensos no ar, incapazes de alimentar seres estranhos com espíritos mumificados que nele habitam, Sob a falsa luz que esconde infalivelmente a noite interior, a consumir canibalisticamente das próprias entranhas, quando se movem durante o dia, entre os aromas das flores e os suaves toques do vento, sem que se percebam que as flores são gélidas e que o vento é traiçoeiro.
Não me lembro quando percebi que o mundo se esconde atrás dos rostos de tantos protagonistas, Atuando incessantemente na imensidade à qual se centram e fazendo-me quedar diante da vulnerabilidade do olhar, posto nos corpos nus e nas mentes contrastantes das multidões que se desvencilham dos espinhos mortificados pela planície, em busca do ponto de equilíbrio inexistente no mar de sentimentos invasores.
Ânsias e vômitos desvendados, máscaras e faces expostas sem que se possam distinguir entre uma e outra, deuses criados para salvação do que já predestinadamente está salvo, e demônios criados para a condenação do que já predestinadamente está condenado.
Não sei onde me encontro com o andar suspenso, talvez entre a loucura e a razão. Se tento fugir de retalhos de tempos e vidas irrecuperáveis ou se fico em dor e lamento. Se tento me soerguer para a queda certa, ou se me abandono prostrado à angústia. Se busco a liberdade nascituramente condenada, ou se me deixo escravo da tragédia.
Sei apenas que ousei romper num momento perdido, incapaz e sem sentidos, extremos de meu ser contido, nos mesmos caminhos irreconhecíveis agora atacados por minha loucura assentada, onde também sou prisioneiro nos limites em que se encontra o olhar de minha face.
Foi assim me perdi ao ousar caminhar sem pisar o chão ressequido, pavimentado com espinhos invisíveis, caídos de frágeis sonhos suspensos no ar, incapazes de alimentar seres estranhos com espíritos mumificados que nele habitam, Sob a falsa luz que esconde infalivelmente a noite interior, a consumir canibalisticamente das próprias entranhas, quando se movem durante o dia, entre os aromas das flores e os suaves toques do vento, sem que se percebam que as flores são gélidas e que o vento é traiçoeiro.
Não me lembro quando percebi que o mundo se esconde atrás dos rostos de tantos protagonistas, Atuando incessantemente na imensidade à qual se centram e fazendo-me quedar diante da vulnerabilidade do olhar, posto nos corpos nus e nas mentes contrastantes das multidões que se desvencilham dos espinhos mortificados pela planície, em busca do ponto de equilíbrio inexistente no mar de sentimentos invasores.
Ânsias e vômitos desvendados, máscaras e faces expostas sem que se possam distinguir entre uma e outra, deuses criados para salvação do que já predestinadamente está salvo, e demônios criados para a condenação do que já predestinadamente está condenado.
Não sei onde me encontro com o andar suspenso, talvez entre a loucura e a razão. Se tento fugir de retalhos de tempos e vidas irrecuperáveis ou se fico em dor e lamento. Se tento me soerguer para a queda certa, ou se me abandono prostrado à angústia. Se busco a liberdade nascituramente condenada, ou se me deixo escravo da tragédia.
Sei apenas que ousei romper num momento perdido, incapaz e sem sentidos, extremos de meu ser contido, nos mesmos caminhos irreconhecíveis agora atacados por minha loucura assentada, onde também sou prisioneiro nos limites em que se encontra o olhar de minha face.
163
EM CHAMAS!
Às vezes não quero,
chego irritado e começo a escrever
já soltando meus literários
raios negros;
às vezes não quero,
porque estou chato equero refletir,
analisar e pregar em cruzes
poéticas ou filosóficas
a besta do ser;
às vezes não quero
porque não estou a fim de mais uma vez
me render ao êxtase supremos
do desejos
e, depois,
ter de enfrentar suas consequências
sinuosas, tênebras e avessas;
nas em todas as vezes
em que ela entra, torno-me frágil, rendo-me,
e entrego-me logo que a vejo ali
de lingeri e calcinha enfiada,
desfilando
pelo corpo lindo e seansual,
com seus delicados
dedos!
chego irritado e começo a escrever
já soltando meus literários
raios negros;
às vezes não quero,
porque estou chato equero refletir,
analisar e pregar em cruzes
poéticas ou filosóficas
a besta do ser;
às vezes não quero
porque não estou a fim de mais uma vez
me render ao êxtase supremos
do desejos
e, depois,
ter de enfrentar suas consequências
sinuosas, tênebras e avessas;
nas em todas as vezes
em que ela entra, torno-me frágil, rendo-me,
e entrego-me logo que a vejo ali
de lingeri e calcinha enfiada,
desfilando
pelo corpo lindo e seansual,
com seus delicados
dedos!
151
E A NOITE FOI NOSSA…
Noite cheia,
noite de brilhantes e silentes estrejas,
noite em que as mariposas se suicidavam
se esfregando nos postes excitados
de neon
e que os anjos
se reuniam para suas libidinosas orações
e encontros em algum fantástico
cando, cheio de cores, de desejos
e de encantos;
sim, noite escura,
mas sem fantasmas,
em que as senciências dos demais sapiens
adormecem, deixando-nos somente,
à quieta sombra,
o silêncio e o amor
para mutuamente (e em paz)
desfrutarmos!
noite de brilhantes e silentes estrejas,
noite em que as mariposas se suicidavam
se esfregando nos postes excitados
de neon
e que os anjos
se reuniam para suas libidinosas orações
e encontros em algum fantástico
cando, cheio de cores, de desejos
e de encantos;
sim, noite escura,
mas sem fantasmas,
em que as senciências dos demais sapiens
adormecem, deixando-nos somente,
à quieta sombra,
o silêncio e o amor
para mutuamente (e em paz)
desfrutarmos!
223
OI, ESPELHO!
... minha vara
não é diferente de tua
barca;
assim como
ela navegou com tantas velas
e mastros,
a minha
caiu em tantos buracos,
que, como tu,
não sei mais diferenciar,
um céu, um sonho, um mar
ou uma privada!
não é diferente de tua
barca;
assim como
ela navegou com tantas velas
e mastros,
a minha
caiu em tantos buracos,
que, como tu,
não sei mais diferenciar,
um céu, um sonho, um mar
ou uma privada!
131
ABSTRAÇÕES
Comecei a ver esconderijos há muito tempo. Já na nascente da inocência condenada não compartilhava passivamente as blandícias da véspera dos escarros que viriam.
Ao vento distante daquela época em que não me justificava nas brincadeiras e nos sorrisos dos ainda inviolados templos, nem nas ambiguidades dos homens que se envergavam na corrupção de seus próprios dizeres e ensinamentos, não notaram que, além das palavras primitivas que se ensaiavam para o grande e iminente aviltamento, iniciava-se em mim, tenramente, uma perdição que me levaria ao apartamento de minha alma. A um ponto, a convergência de mundos seria inevitável.
Não sei por que contemplava, inábil e alheiamente, os vastos mundos desconhecidos, além os horizontes fechados pelos morros de minha infância. Talvez houvesse de ter, naquela imensidade dissimulada em minha mente, algo que pudesse me aliviar das visões que se me seriam reveladas, quando me aprofundasse na mística envolvida no decadente ser humano. Foi um engano que não se repetiria: os rabiscos delineadores de purezas, sonhos ou alívios quaisquer se perderiam no debater-se de egos de todos os seres.
De fato, não tardou a se confirmar a estranheza da conjuração dissimulada. Um pouco mais de caminhada e deparei com o desconcertante poder das palavras. Assim percebi que ervas daninhas foram omitidas no magnífico plantio feito nas fontes ingênuas, que se iam transformando em rios de águas turbulentas.
Foi nesse momento que quis tirar satisfação com os mais eficazes pronunciadores de falsas verdades. Tímido e ainda carregando resquícios da semeadura recente, comecei com sussurros abafados. Mas haveria de me desfigurar o rosto, vestir uma máscara para lidar com tantas máscaras, e bradar em alta voz, transformando-me num grande construtor de imagens, mediante mentiras omissas em belas pinturas e sonoras sinfonias.
Nem o grande mestre, insipiente aos olhos de todo o resto, tendo percebido no pequeno amigo o assentamento da deformidade, pôde desveredar-lhe o caminho sinuoso. Deuses ditos em purezas e onipotências, lendas disseminadas com amplidões falsas, sonhos e projeções exaltadas em ineficácias, vastos conhecimentos forjados, amores jurados em eternidades, e rancores trancados em crueldades, tudo seria confrontado com um vigor que não continha permissão para derrotas no cerne da aberração, onde se escondia as construções de si: fatídicas a emanações quaisquer.
Lembro-me, dentre tantas coisas, a um encanto perdido na bravia e condenada vereda de fantasias efêmeras, de um mito que ousou me amar e me defrontar. Antes tivesse apenas amado, ou apenas defrontado. Mal sabia que a espectação mútua viria a lhe consumiria o resto do caminho até o grande penhasco, condenando ambos a mais uma grande queda em si mesmos. Todos os dias a fábula balbuciava entregas purificadas, forjadas na delicadeza de sinfônicas palavras. Em contraparte, todos os dias havia chuvas torrenciais advindas da macabridade, que lhe aplicava um veneno invisível nas veias. De ambos, foram-se sentenciados a ações mútuas e a um aniquilamento ausente, sem perceberem que em seus rios corriam angústias inconscientes: comprimidos nas margens mal delineadas havia, entre a água gélida, destroços mortais, travestidos de notáveis aparências. E ela não notou que todos que afirmam suas personalidades são reféns da representação falsificada de si mesmos.
- Um dia, serei eu, e somente eu, quem poderá te resgatar! Grava isso nos ares dos tempos todos, pois isso exigirá minha morte!
Com zelo, até intentei procurar zelo outras possibilidades, em todos os cômodos havidos e por haverem, e por fim compreendi que a desembocadura se dá no mesmo ponto: uma chaga interna, de onde eflui todas as criações e todas as imperfeições.
De fato, os andantes atemporais são indolentes no olhar e no desafio perante o abismo em que se colocam. Talvez não tenham percebido bem os monstros que abrigam em seus refúgios internos. Em toda parte do espectro, assentam-se imagens tão puras e grotescas que seus ecos sufocam qualquer essência diligenciada.
Toda fonte é, por si, tão límpida como fecunda a tudo que lhe correrá no veio de possibilidades que se seguirão pelo leito. O maior problema dos que se chamam humanos é que sempre deparam com outros humanos. Tais encontros não se mostram, além dos estereótipos, esvaziados de cobiças e pretensões subjetivas. Aprendi a não subestimar meus semelhantes: vistos de fora, resplandecem como um belo jardim cujas flores se desdenham magnificamente em palavras que manifestam purezas e belezas extasiantes. Além da alegoria, onde repousa a sinceridade omissa, há paradoxos profundos que não contemplam alguma perfeição moral, tantas vezes regurgitada aos ares exteriores.
Se toda observação pressupõe queda pela visão das imagens que figuram perante os olhos e das que propagamos a todo canto e a todo tempo, devo admitir que de tudo que se surgiu e surgirá de mim e a mim permitido, sou o culpado.
Sou anomalia indizível. Bem sei disso. Poderia dizer de outra forma, mas nunca devo ser confiável. E mentir é uma confirmação de minha natureza. Sou meu Deus morto. E sou Senhor e carrasco meu. Se me dou ou se conquisto, se me permito ou se violo, se amo ou se me dou a ser amado, se alço algum voo fadado à queda ou se me mantenho no rastejo do chão, escolho.
Sim, faço escolhas. E, na imperfeição de julgamentos e de visões, todos os erros são meus. Acertos, não. Não existe isso, condenados que estão à farsa da figuração egocêntrica. Dos erros sou detentor inalienável, embora cuspa aos versejantes inconsciências em forma de lâminas afiadas. Não obstante, sois vós todos também culpados da grande farsa que convosco coabito. E já não me apiedo de mim, nem de vós outros em vossas próprias insignes.
Isso também aprendi ao me ofertar a mundos alheios e também deles me alimentar nos mesmos moldes e nas mesmas sombras em que todos nos sentamos para aliviar uma chama qualquer - vaga, perene e insustentável em seus bocejos pronunciados -, sabendo que as metas de todos os sonhadores culmina na imperfeição natural de suas próprias fraquezas, não reveladas nas translucidações de seus seres. Assim foi que, em angústia - e até de minha dor devem duvidar -, vi-me impotente contra minha própria humanidade. E me percebi um inconfiável contracenante na abstração horrenda de todas as coisas vivas ou mortas. Incapaz de ser sincero por nascença, confesso que, ao penhorar ilusões ou outra coisa qualquer, consciente estava de que o desdouro se daria em algum cruzamento de escolhas fugazes.
Ao vento distante daquela época em que não me justificava nas brincadeiras e nos sorrisos dos ainda inviolados templos, nem nas ambiguidades dos homens que se envergavam na corrupção de seus próprios dizeres e ensinamentos, não notaram que, além das palavras primitivas que se ensaiavam para o grande e iminente aviltamento, iniciava-se em mim, tenramente, uma perdição que me levaria ao apartamento de minha alma. A um ponto, a convergência de mundos seria inevitável.
Não sei por que contemplava, inábil e alheiamente, os vastos mundos desconhecidos, além os horizontes fechados pelos morros de minha infância. Talvez houvesse de ter, naquela imensidade dissimulada em minha mente, algo que pudesse me aliviar das visões que se me seriam reveladas, quando me aprofundasse na mística envolvida no decadente ser humano. Foi um engano que não se repetiria: os rabiscos delineadores de purezas, sonhos ou alívios quaisquer se perderiam no debater-se de egos de todos os seres.
De fato, não tardou a se confirmar a estranheza da conjuração dissimulada. Um pouco mais de caminhada e deparei com o desconcertante poder das palavras. Assim percebi que ervas daninhas foram omitidas no magnífico plantio feito nas fontes ingênuas, que se iam transformando em rios de águas turbulentas.
Foi nesse momento que quis tirar satisfação com os mais eficazes pronunciadores de falsas verdades. Tímido e ainda carregando resquícios da semeadura recente, comecei com sussurros abafados. Mas haveria de me desfigurar o rosto, vestir uma máscara para lidar com tantas máscaras, e bradar em alta voz, transformando-me num grande construtor de imagens, mediante mentiras omissas em belas pinturas e sonoras sinfonias.
Nem o grande mestre, insipiente aos olhos de todo o resto, tendo percebido no pequeno amigo o assentamento da deformidade, pôde desveredar-lhe o caminho sinuoso. Deuses ditos em purezas e onipotências, lendas disseminadas com amplidões falsas, sonhos e projeções exaltadas em ineficácias, vastos conhecimentos forjados, amores jurados em eternidades, e rancores trancados em crueldades, tudo seria confrontado com um vigor que não continha permissão para derrotas no cerne da aberração, onde se escondia as construções de si: fatídicas a emanações quaisquer.
Lembro-me, dentre tantas coisas, a um encanto perdido na bravia e condenada vereda de fantasias efêmeras, de um mito que ousou me amar e me defrontar. Antes tivesse apenas amado, ou apenas defrontado. Mal sabia que a espectação mútua viria a lhe consumiria o resto do caminho até o grande penhasco, condenando ambos a mais uma grande queda em si mesmos. Todos os dias a fábula balbuciava entregas purificadas, forjadas na delicadeza de sinfônicas palavras. Em contraparte, todos os dias havia chuvas torrenciais advindas da macabridade, que lhe aplicava um veneno invisível nas veias. De ambos, foram-se sentenciados a ações mútuas e a um aniquilamento ausente, sem perceberem que em seus rios corriam angústias inconscientes: comprimidos nas margens mal delineadas havia, entre a água gélida, destroços mortais, travestidos de notáveis aparências. E ela não notou que todos que afirmam suas personalidades são reféns da representação falsificada de si mesmos.
- Um dia, serei eu, e somente eu, quem poderá te resgatar! Grava isso nos ares dos tempos todos, pois isso exigirá minha morte!
Com zelo, até intentei procurar zelo outras possibilidades, em todos os cômodos havidos e por haverem, e por fim compreendi que a desembocadura se dá no mesmo ponto: uma chaga interna, de onde eflui todas as criações e todas as imperfeições.
De fato, os andantes atemporais são indolentes no olhar e no desafio perante o abismo em que se colocam. Talvez não tenham percebido bem os monstros que abrigam em seus refúgios internos. Em toda parte do espectro, assentam-se imagens tão puras e grotescas que seus ecos sufocam qualquer essência diligenciada.
Toda fonte é, por si, tão límpida como fecunda a tudo que lhe correrá no veio de possibilidades que se seguirão pelo leito. O maior problema dos que se chamam humanos é que sempre deparam com outros humanos. Tais encontros não se mostram, além dos estereótipos, esvaziados de cobiças e pretensões subjetivas. Aprendi a não subestimar meus semelhantes: vistos de fora, resplandecem como um belo jardim cujas flores se desdenham magnificamente em palavras que manifestam purezas e belezas extasiantes. Além da alegoria, onde repousa a sinceridade omissa, há paradoxos profundos que não contemplam alguma perfeição moral, tantas vezes regurgitada aos ares exteriores.
Se toda observação pressupõe queda pela visão das imagens que figuram perante os olhos e das que propagamos a todo canto e a todo tempo, devo admitir que de tudo que se surgiu e surgirá de mim e a mim permitido, sou o culpado.
Sou anomalia indizível. Bem sei disso. Poderia dizer de outra forma, mas nunca devo ser confiável. E mentir é uma confirmação de minha natureza. Sou meu Deus morto. E sou Senhor e carrasco meu. Se me dou ou se conquisto, se me permito ou se violo, se amo ou se me dou a ser amado, se alço algum voo fadado à queda ou se me mantenho no rastejo do chão, escolho.
Sim, faço escolhas. E, na imperfeição de julgamentos e de visões, todos os erros são meus. Acertos, não. Não existe isso, condenados que estão à farsa da figuração egocêntrica. Dos erros sou detentor inalienável, embora cuspa aos versejantes inconsciências em forma de lâminas afiadas. Não obstante, sois vós todos também culpados da grande farsa que convosco coabito. E já não me apiedo de mim, nem de vós outros em vossas próprias insignes.
Isso também aprendi ao me ofertar a mundos alheios e também deles me alimentar nos mesmos moldes e nas mesmas sombras em que todos nos sentamos para aliviar uma chama qualquer - vaga, perene e insustentável em seus bocejos pronunciados -, sabendo que as metas de todos os sonhadores culmina na imperfeição natural de suas próprias fraquezas, não reveladas nas translucidações de seus seres. Assim foi que, em angústia - e até de minha dor devem duvidar -, vi-me impotente contra minha própria humanidade. E me percebi um inconfiável contracenante na abstração horrenda de todas as coisas vivas ou mortas. Incapaz de ser sincero por nascença, confesso que, ao penhorar ilusões ou outra coisa qualquer, consciente estava de que o desdouro se daria em algum cruzamento de escolhas fugazes.
159
HORA VAZIA
... sempre tive
o péssimo hábito de imaginar que
podia levar tudo no peito,
o que pensava
ser um mar, um céu ,
um paraíso onde houvesse uma possível
paz pela qual lutar,
o que pensava
amar e o que pensava odiar, sempre
transcendendo tolamente a dimensão
do real.
E ela ali,
do meu lado, dizendo-me que eu me andava
longe de mim mesmo,
com meus pensamentos
vagos, com meus desejos bastardos
E com minhas visões
embaçadas,
Sempre
alheio de que nossa sorte
já estava lançada!
o péssimo hábito de imaginar que
podia levar tudo no peito,
o que pensava
ser um mar, um céu ,
um paraíso onde houvesse uma possível
paz pela qual lutar,
o que pensava
amar e o que pensava odiar, sempre
transcendendo tolamente a dimensão
do real.
E ela ali,
do meu lado, dizendo-me que eu me andava
longe de mim mesmo,
com meus pensamentos
vagos, com meus desejos bastardos
E com minhas visões
embaçadas,
Sempre
alheio de que nossa sorte
já estava lançada!
141
E TODOS SEGUEM, SILENTES, COM SEUS SEGREDOS!
As luzes neon,
as maiores mentiras já pregadas
pelas retinas sapiens;
aos espelhos,
as mais belas, sublimes e leiais
atuações ao membembe
espetáculo sapiens;
sob as nuvens
que acima passam despercebidas,
procissões e mais procissões de sapiens
pregando o bem e a boa
vontade:
aos lábios, porém,
não se ouve nenhuma confissão
de seus piores, mais aterradores, mais libidinosos
e mais hediondos segredos!
as maiores mentiras já pregadas
pelas retinas sapiens;
aos espelhos,
as mais belas, sublimes e leiais
atuações ao membembe
espetáculo sapiens;
sob as nuvens
que acima passam despercebidas,
procissões e mais procissões de sapiens
pregando o bem e a boa
vontade:
aos lábios, porém,
não se ouve nenhuma confissão
de seus piores, mais aterradores, mais libidinosos
e mais hediondos segredos!
173
FIEL RETRATO
Antes do eclipse, na omissão de minha verdadeira face sob belas máscaras dissimuladas, deixei todas as minhas fragrâncias espúrias perdidas pelas efemeridades de minhas atuações pelos ventos de todas as épocas; pelos mares, cujas ondas ritmavam danças sensuais; pelos prados onde se versejavam cantos e encantos a romperem a brisa cipreste; pelos belos jardins floridos, onde desfilavam as senhoras com suas peles claras e acetinadas, a se me oferecerem em volúpias de enlaces em santuários de amor.
Não sei por quanto tempo andei perdido entre minhas próprias e frágeis luzes. Mas lembro-me de todos os náufragos - com seus amores, com suas dores, com seus sonhos e com suas esperanças - que acoitei com promessas puras e com elocuções divinas, salpicadas a ouro falso, que agora ressoam silenciosamente em meu âmago, em dor que não suspeitava existir.
A estátua posta sobre a relva ostenta-se sob o brilho dos dias, mas por dentro há convulsões insanáveis e gritos mudos de angústias que, alheios ao belo arlequim, nunca ouviram. Sou algo qualquer entre meus próprios céus e infernos, a andar sob sóis e chuvas constantes, enquanto tudo a meu redor se consome em vastidões empalidecidas sobre a terra devastada, na qual não passo de um murmúrio presente, sem aprimoramento de uma vontade qualquer.
Agora, o dia se precipita ao fim da tarde e as dobras da jornada se acentuam, efêmeras, com seus ares carregados de essências incapazes de ressoar uma melodia qualquer, como alívio à cólica derradeira que precede o declínio meu. No sangue esvaído do crepúsculo, sacudo-me em crises de angústias e delírios translucinados. De que adianta tamanha encenação humana de todos, e também de mim, a esconder o quanto impiedosos somos em nossas alegorias pálidas?
Com o olhar perdido, contemplo meu retrato encharcado de atraentes cores irreais, e caio no mesmo poço de criadouros absurdos, com a exaustiva tarefa de viver sempre a esconder o que me tornei a outros compositores, com suas próprias urdiduras secas, e com seus próprios sonhos incautos.
Em pouco, a noite se abrirá gélida e negra, acolhendo minha mortalha. E minhas próprias sinfonias compostas em minha mente tresloucada; meus passeios e meus voos invisíveis por paragens que jamais se possam sonhar além das palavras-pincéis que meus lábios pronunciaram; minha descrença no porvir de um resgate da simplicidade e da pureza que nunca senti em plenitude em nenhum emanador de sombras ou de luzes; meus âmagos dissecados em incompreensões assassinas e minhas entranhas apodrecidas na lama negra que me corrói adentro, resguardados em minha bela crosta externa; meus pesadelos entorpecedores de todos os meus sentidos adulterados; minhas promiscuidades disfarçadas em poses magníficas, de contornos expressivamente claros demais para que se possam notar além a superfície minha; e minha alma combalida pela tresloucura que se assenta mendigando gotas de consolo a uma realidade inexistente.
Tudo me leva a um caminho único rumo à decrepitude fatal; onde árvores e flores se murcham perante minha simples presença; onde amores e venturas condenados pela simples versificação me são uma praga atirada à beira do abismo; e onde todas as demais coisas confundem minha visão falha. Já não sou mais sequer senhor dos segundos de meus próprios tempos, e nem de meus próprios templos, e nada mais se pode decifrar por si só, senão por minha loucura posta.
Não sei por quanto tempo andei perdido entre minhas próprias e frágeis luzes. Mas lembro-me de todos os náufragos - com seus amores, com suas dores, com seus sonhos e com suas esperanças - que acoitei com promessas puras e com elocuções divinas, salpicadas a ouro falso, que agora ressoam silenciosamente em meu âmago, em dor que não suspeitava existir.
A estátua posta sobre a relva ostenta-se sob o brilho dos dias, mas por dentro há convulsões insanáveis e gritos mudos de angústias que, alheios ao belo arlequim, nunca ouviram. Sou algo qualquer entre meus próprios céus e infernos, a andar sob sóis e chuvas constantes, enquanto tudo a meu redor se consome em vastidões empalidecidas sobre a terra devastada, na qual não passo de um murmúrio presente, sem aprimoramento de uma vontade qualquer.
Agora, o dia se precipita ao fim da tarde e as dobras da jornada se acentuam, efêmeras, com seus ares carregados de essências incapazes de ressoar uma melodia qualquer, como alívio à cólica derradeira que precede o declínio meu. No sangue esvaído do crepúsculo, sacudo-me em crises de angústias e delírios translucinados. De que adianta tamanha encenação humana de todos, e também de mim, a esconder o quanto impiedosos somos em nossas alegorias pálidas?
Com o olhar perdido, contemplo meu retrato encharcado de atraentes cores irreais, e caio no mesmo poço de criadouros absurdos, com a exaustiva tarefa de viver sempre a esconder o que me tornei a outros compositores, com suas próprias urdiduras secas, e com seus próprios sonhos incautos.
Em pouco, a noite se abrirá gélida e negra, acolhendo minha mortalha. E minhas próprias sinfonias compostas em minha mente tresloucada; meus passeios e meus voos invisíveis por paragens que jamais se possam sonhar além das palavras-pincéis que meus lábios pronunciaram; minha descrença no porvir de um resgate da simplicidade e da pureza que nunca senti em plenitude em nenhum emanador de sombras ou de luzes; meus âmagos dissecados em incompreensões assassinas e minhas entranhas apodrecidas na lama negra que me corrói adentro, resguardados em minha bela crosta externa; meus pesadelos entorpecedores de todos os meus sentidos adulterados; minhas promiscuidades disfarçadas em poses magníficas, de contornos expressivamente claros demais para que se possam notar além a superfície minha; e minha alma combalida pela tresloucura que se assenta mendigando gotas de consolo a uma realidade inexistente.
Tudo me leva a um caminho único rumo à decrepitude fatal; onde árvores e flores se murcham perante minha simples presença; onde amores e venturas condenados pela simples versificação me são uma praga atirada à beira do abismo; e onde todas as demais coisas confundem minha visão falha. Já não sou mais sequer senhor dos segundos de meus próprios tempos, e nem de meus próprios templos, e nada mais se pode decifrar por si só, senão por minha loucura posta.
216
PESOS E PESADELOS
Há pesos demasiado
excessivos ao ser humano.
Há ocasiões
em que se dobram até os mais
fortes joelhos.
E, essas horas,
invocados são todos os deuses para o utópico
sonho de um amanhã
mais ameno.
Sim,
sempre o dia seguinte:
Só ele contéem tanto o contraveneno ao presente,
como o alívio do apagamento!
excessivos ao ser humano.
Há ocasiões
em que se dobram até os mais
fortes joelhos.
E, essas horas,
invocados são todos os deuses para o utópico
sonho de um amanhã
mais ameno.
Sim,
sempre o dia seguinte:
Só ele contéem tanto o contraveneno ao presente,
como o alívio do apagamento!
179
Comentários (7)
Iniciar sessão
para publicar um comentário.
SEMPRE SUSPREENDE-ME COM TUA INESGOTÁVEL INSPIRAÇÃO. AMO TEUS POEMAS PARA A FLOR DE INVERNO, sinceramente. Saudações Alenarinas da Flor*
Por tudo, mais uma vez, obrigada! ¨¨¨¨¨Beijo_Flor*
Trivium
Olá, cara. Gostei bastante desta poesia tua. Você com partilha suas poesias em algum outro site que não este?
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Lindo e provocante!
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*