Lista de Poemas

DESNUDEZ

Choveu o céu cristais de gelo nunca antes vistos quando a grande angústia alcançou nuvens horizontais que pairavam escondendo, em sua moldura azul, todo o infinito condenado em suas estranhas frialdades.

Desnudou-se-me a imensidade em vultos frios e mortais. E da terra umedecida pela chuva abismal percebi que minhas frágeis asas, oníricas e desvairadas, convergiam-se em um manto estranho e mortal para, depois, desaparecerem-se com a minha nudez tantas vezes escondida.

Vi-me então como jamais antes me fora visto de meus esconderijos. E grande temor se me apossou com as muralhas destruídas que tantas vezes abrigaram mundos em atuações incompreendidas.

Foi então que percebi que o céu, e o além- dele, e o tudo que há nada mais fora ou venha a ser que o nada que me habita em imagens falsificadas.

Desnudei-me enfim e, no cansaço e dor extrema da queda fatídica, vieram beber de minhas entranhas expostas todos os anjos mascarados de alvo branco, e todos os demônios assumidos em seus delírios, e todos os demais seres bizarros na multidão ainda de mim desconhecida, deixando-me espalhado macabramente, sem essência alguma, numa fina névoa de poeira, sombriamente oculta em teus semblantes.
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HORA VAZIA II

... entre mitos,
anjos, deusas, liliths e belas
e sensualíssimas ninfas,

ia-me suicidado,
com prazeres cada vez mais tolos
nas estradas, nas matas
e nos leitos vadios

cada vez mais
longe de mim mesmo;
e ela me amando com toda paciência
e me mostrando

que, um dia,
ao estar me passando do suicídio de meus dias,
eu perceberia, enfim, olhando-lhe
as lágrimas nos olhos

o que é um amor
de verdade.
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ANTES DE PARTIR

... serei
um caminho, uma luz
ou uma cruz,

ora cordeiro,
ora devorador,

ora um anjo sublime,
ora um demônio devorador,

ora ainda ao chão
ora ainda à transfiguração à nuvem;

toma
e alastra em mim a fronteira
do amor

até que me
vigore a grande noite
escura

e o silêncio
que não mais possa ser
agredido.
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LILITH PERDIDA

... parece
que já não é mais
dos picos que olhas as coisas
do mundo;

parece
que realmente perdeste
o sentido da ilha

e da reflexão,
ao dançares tanto nas picas
do chão!
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PODERIA

Poderia dizer dos segredos escondidos num canto escuro ou sob um lençol qualquer, dos mundos que se escondem em tantas máscaras, durante grandes espetáculos, e antever o severo castigo à pretensão de um porvir onde se possam reter delicados feixes de luz, antes que, novamente, seja feito o contato vulnerável com os mesmos caminhos que deságuam em nada.

Poderia dizer dos sonhos que em mim quebrei alimentando presas férteis, do meu triste canto, violado, que protesta em sinfonias mudas, das lembranças que escorrem transbordando a grande ponte, das lágrimas de cristais invisíveis que, após preencherem brancas nuvens, e caírem como ácido pelas minhas desertas estradas, envenenaram a sede insaciável dos que me habitam.

Poderia omitir minhas jornadas por veredas estranhas e incompreensíveis, e sob a escolta de tantas orações proferidas, fingir não ver a porta errada. Num esforço indigente tirar-me o rosto, arrebentar todas as correntes, e deixar ecoar em mim, aos raios de um falso e magnífico alvorecer, somente as doces palavras que tocariam meu corpo e emudeceriam minha dor.

Poderia tudo, belo ator que sou, em efemeridades de sonhos sem aprimoramento.

Mas queria mesmo é poder transpor mais do que o pensamento e a alma, numa devastadora revolução de águas límpidas e desconhecidas a me romper, em noite fria, emudecendo meus fantasmas e, de mim, a voz do cão que ladra.
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A NOSSA VERDADE!

Tento entender
como me perguntam o óbvio
do ser;

em um recanto como este,
em sociedades civis, religiosas, militares,
em congregações esportivas,

em reuniões por motivos quaisquer,
entre familiares e amigo
e sobretudo com o cônjuge e com os filhos
que dizem amar,

os sapiens andam
da melhor maneira possível, moral, ética
e espiritualmente, tentando exercer suas escolhas
da maneira que pareça mais íntegra
e honestas possível,

agindo mesmo
como se fossem anjos em carnes
de formigas.

Mas eu já revelei que,
todos, absolutamente todos, assim o fazem
quando não estão sozinhos, sempre omitindo
o que verdadeiramente lhes move:

sonhos, desejos secretos,
fantasias ardentes e vadias
e libidinosidades que temem revelar
até ao próprio espelho, quando de frente
e nuamente visto!
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CALVO MAR

... não tens
nada com o que te preocupares,
realmente;

como
cão niilista, a única coisa
que eu poderia
fazer

é te desprover
dessa sua fausta realiza
e te comer como uma puta
dourada!
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A VISÃO DO ESPELHO

Não é difícil
analisar, compreender, foder
e até julgar os outros

(aliás, até
fazemos isso a todo momento
diante de nossos andandes e semelhantes
espelhos,

mas torna-se-nos,
por inconsciente defesa da pisiqué,
quase impossível analisar, compreender,julgar a
e foder com nós mesmos!
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A CÉZAR O QUE É DE CÉZAR

... teus
olhos, teus peitos
e tua vulva

muitos já viram;
e eu já vi muitos olhos, peitos
e vulvas como e até
melhores que
as tuas;

a questão,
baby, é que acho que ninguém,
além de mim, viu o mais fundo
de teus fundos,

onde carregas,
ocultamente, as zonas mais
absortas e loucas de tuas
sombras!
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POR UMA NOITE

Não fales alto:
depois de tanto tempo em chuvas,
acabamos de fazer amor

- se olhares pela janela,
verás que as estrelas ainda
estão gozando,

tremeluzidamente -

e necessitamos paz,
pelo menos nesta noite;

deixa, pois, todo o resto,
e sussurremos somente coisas
que nos alivie a dor.
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Comentários (7)

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fernanda_xerez

SEMPRE SUSPREENDE-ME COM TUA INESGOTÁVEL INSPIRAÇÃO. AMO TEUS POEMAS PARA A FLOR DE INVERNO, sinceramente. Saudações Alenarinas da Flor*

fernanda_xerez

Por tudo, mais uma vez, obrigada! ¨¨¨¨¨Beijo_Flor*

Trivium
Trivium

Olá, cara. Gostei bastante desta poesia tua. Você com partilha suas poesias em algum outro site que não este?

fernanda_xerez

E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.

fernanda_xerez

Lindo e provocante!