Lista de Poemas
as três mil Marias
Maria da Desgraça
Maria das Cem Dores
Maria da Desconsolação
Maria da Farinha Amparo
Maria do Sarcasmo
Maria Toucinho do Céu
Maria do Desespero
Maria da Reincarnação
Maria de Luzes
Maria da Guerra
Maria da Depuração
Maria sem Remédios
Maria dos Carnais Prazeres
Maria da Derrota
(Pedro Rodrigues de Menezes, "as três mil Marias)
sofisma das papoilas
depois dos campos
de batalha
de papoilas
a solidão
dos gestos
das palavras
das ideias
a morte deixa de ser morte
a vida deixa de ser mote.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "sofisma das papoilas")
termodinâmica do gesto
nada que venha dos outros
excepto o seu silêncio
sobretudo a sua inexistência
me transforma
me transborda
e é entre estes aborrecimentos
que me atiro para a economia
do gesto
da palavra
do tempo.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "termodinâmica do gesto")
vinte e dois de julho
dia vinte e dois
farias sessenta anos
mais os quatro decorridos
sobre o ano que adormeceste
a palavra pai é como um balão aceso
sobre a imprecisão contígua da boca cerrada
só a prejuízo a poderei pronunciar com a leveza certa
porque arde e não sei quando se fará noite dentro de mim.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "vinte e dois de julho")
nas asas cegas
a traça sonda
sobre a luz da vela
a misteriosa beleza
o lúgubre destino
a sua morte inesperada.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "nas asas cegas")
instruções para falhar
Poema dedicado a meu primo, Tiago Ferreira
escreve
sobre as árvores que se abatem
abatidas sobre os inóspitos ossos dos pés
escreve
sobre o pesado frio da manhã
cutelo que ergues nas tuas pobres mãos
escreve
sobre a inerte pálpebra que do teu coração
escreve
nem que seja pra dizer o que não disseste
escreve
ainda que a ausência gramatical
escreve
porque escrever é coisa extraordinária
escreve
porque ao escrever és extraordinário
escreve
que o deslumbramento acaba frio na alma
escreve
que a ávida vida vem sem o aviso
escreve
sobre o ombro pousado sobre os pássaros
escreve
que a inutilidade bruta é maior que a polida
escreve
que continuar pelo caminho certo é desistir
escreve
que sobre sobre sobretudo que o quê
mas escreve.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "instruções para falhar")
coração-cisão
entre espaços
entre passos
silêncios e
compêndios
são inúmeras
e infinitas
as distâncias
que nos unem.
(Pedro Rodrigues de Menezes, coração-cisão)
teorema geométrico da solidão
evadido como um iceberg
certeiro na sua longa deriva
voo a remos no deserto fértil
e sobre este coração pousarei
pulsantes teoremas gargantas
lúgubres espinhos sem rosas
porque é preciso ser preciso
capaz do brutal cálculo bruto
renascer precioso das pedras
porque é inevitável evitar
noites despertas de aurora
cegar a visão-cisão do astro
imaginar-me sem imaginação
o catártico fogo da memória
a bravura do mar feito terra
e mesmo que só caminhe só
saberei procurar com as mãos
extraordinários peixes alados
e mesmo que caminhe só
mesmo que só caminhe
não terei só chegado.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "teorema geométrico da solidão")
integral do kernel universal
o maior perigo no mundo
o maior perigo do mundo
é ter neurónios que falem
ter lábios que se calem
entre uma e outra coisa
a coisa é outra coisa
pura brilhante expoente
quadrado da raiz quadrada
f de xis elevado a potências
limite infinito bem definido
é tudo isto
ou nada disto
é exacerbação sebácea
é medicina tradicional
é o vento
é o livro esquecido
são os amigos
a ansiolítica vontade
somos tanto
somos tantos
e o que resta
é um resto
compósito
vestígio
breve
isto
um
1
horizonte de eventos
se durante uma noite gélida
me encontrarem deitado
de costas sobre a inevitável garganta
da terra
de braços abertos para o infinito olho
do céu
e se durante essa noite tombarem dos céus terríveis exércitos de Damocles
saibam que não valerá a pena adormecerem o sonho
saibam que não valerá a pena acordarem o sono
por entre o sonho e o sono terei rasgado a singularidade
por entre o sono e o sonho terei dominado o horizonte de eventos.
Pedro Rodrigues de Menezes, "horizonte de eventos"
Comentários (6)
Parabéns por continuares sempre a escrever e partilhares a tua obra. Quem escreve nunca está verdadeiramente só. Saibamos agradecer quem por nós passou e permanece deixando o seu legado mais profundo. Um beijo
Lindo bjnhos
Está tudo bem grande poeta bjnhos
Olá Pedro és um orgulho muito sucesso nesta tua etapa bjnhos
Orgulho na escrita do meu querido Primo
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