Lista de Poemas
ESCRITAS
Se elogiam enganam-te
Mentem por enaltecer-me
Exageram quando aplaudem
Detratam ao enobrecer
Porque não sou nem resisto dentre padrões
Que costumas por normal ao ouvir conceber
Sou a madrasta consciência
Esta que te finge entender
Portanto não ouças de mim
Apenas leia-me o que puder
E terás a fiel noção de teu ser
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VELHO TIMONEIRO
Mais parece um lençol amarrotado
Estendido sobre imensa cama
Depois que a lua espelhada deitou-se nua
Brincando libidinosa entre as pernas de quem ama
Eu velho timoneiro de um navio calado
Que tantas vezes deu-se aos prazeres dela
Hoje assisto da areia os arrepios do lastro
Mas sem pretensão de segui-la a nado
Ao aguardar que me venha insólita a madrugada
Aprendi que nada há de mais insensato que a fartura
Há tanto peixe e não mais sei busca-los
Tantos rumos sem outra vez persegui-los
Tantos amores entre lua e aguas e não torná-los
Tantos dias colhidos sem retoma-los
Vejo o tempo tecer suas historias
No anseio da amante um marujo que volta
Nos braços do pescador um risco de navalha
O almejado descanso de quem navega
Sobre a tabua das marés os frutos da batalha
Permaneço assim em silêncio e sóbrio
Sensato entre o futuro e os dias pregressos
Observando o curso dos barcos sem lastimar meu norte
Ciente da certeza de que a lua me tomara ainda moço
Pois antes de me beijarem a boca eu já lhe fazia versos
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REPENSAR VOCÊ
Tornei moveis obsoletas estacas e arquétipos
Troquei tudo de lugar
Pulei todas as configurações do dia
Para chegar à hora necessária de mudar
Depois saí remontando os rastros
Caminhados entre cômodos e esqueletos
Reaprendendo reconhecer o que modifiquei
Para comigo se convier voltar a conviver
Apreendi pelos armários algumas dores
Predispus em gavetas alegrias e prazeres
E deixei sobre a mesa nostalgias passadas
Pois é sempre bom reler momentos idos
Falta-me agora destrancar portas e janelas
Reavivar os ares e repensar você
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O CIRCO
Outros em poltrona estofada
Se nas elucubrações do artista
A emoção do riso
A expectativa do risco
E admiração pelo ato
São únicas na comoção da plateia
A lona do grande circo
Foi aos poucos rasgando
Os panos erguidos
Deixaram evidente palco picadeiro
Camarim camarote e arquibancada
Então compreendi que viver é ser partícipe
Do mais lúgubre ou alegre espetáculo
Depois de ser todo pouco importa ser parte
Se não estiver nua e transparente e repleta
Nada será arte
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NO LÁBIO DA BOCA QUE LHE BEIJA
Propalo unicamente o mínimo que me sustente
Por isso tão ínfima a descrição de mim
Sou aquela que nada apreende e pouco ensina
Que ensimesma banalidades e fúteis posições
Que torce e se prende por onde o vento determina
Que usa do pensamento a consorte mais leve
Sou a mesma medida que o tempo me deve
Porem muito aquém das boas chances que tive
Sou por fim essa complexa completa ociosidade
Ocupando os espaços que a vida me mede
Porquanto a aparência que você me inveja
Veja-me como infundada abrupta e banal
Sou a úmida língua no lábio da boca que lhe beija
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RESILIÊNCIA
Que em minha veia corre agua salgada
A carne tornara-se restinga e areia
E os músculos raízes no lodaçal do mangue
O coração petrificara com a mente
Os poros vertem limbo e maresia
E os olhos já nem se importam mais
Se ainda é noite ou outro dia
Da garganta surge o urro das ondas
E a língua lambe as pedras de apoite
Entretanto não me faltam silêncio e ar
Sim, o puro oxigênio que dança minha espuma
Adaptou-me a ser teu rumo e horizonte
O mar por onde teu barco navega e se apruma
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CONTRIÇÃO
Piedade primeiro aos teus servos desolados
Abandonados pelos teus propalados pastores
Estes, trancafiaram-se em suas mansões e palácios
Isolados nas catedrais, reclusos pelos mosteiros
Retidos nos templos, escondidos nas igrejas vazias
Como se longe das ruas fossem intocáveis e salvos
Afugentados do mundo enclausuraram em seus espaços
Contidos em suas túnicas, batinas, sobrepelizes
Enforcados por seus cíngulos longe das ovelhas
Envoltos das estolas e dalmáticas
Vestidos das casulas e ternos assustados
Encarapuçados de suas mitras e ricos solidéus
Mas despidos da franca humildade do ser amado
Estes homens que tanto bradavam ‘vendo-te os céus’
Clamam desgovernados por seus próprios cajados
Astutos implorando o perdão dos pecados
Mas sem coragem de ir vê-lo face a face
Tanto oram e ainda quedam-se duvidados
Blasfemando a perda da moeda da fé
E a mim, Senhor, nu pecador confesso
Que de tanto nega-lo até nem sei e nem entendê-lo posso
A mim nada peço exceto que descanse
Longe das sombras do assombro desses falsos bons moços
Para que possa com teu povo lutar por um mundo novo
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CANÇÃO DA GENEROSIDADE
Pois é chegada a hora de serdes abundantemente fraternos
Mas de uma fraternidade clara, translúcida
Impropria para os inconvenientes
Lá no sertão da alma
Quando alvorece a complacência
Doar aflora todas as definições de humanidade
E nos tornamos luminosos e iluminados
Preciosos e mais livres até no olhar
Doai do que vos farta
Fartai-vos dessa singela alegria
Afinal ainda é manhã e a hora propicia
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SEM PODER CHEGAR
Sair é um fosso fundo do poço
Inacreditável surreal
Indizível destroço
O homem se esconde do mundo
Completamente impotente
Nada mais é importante
Diante do incomum
Nem a hierarquia dos anjos
Nem a comunhão dos santos
Nem o descredito ateu
Nada se faz mais tosco sobre a terra
Senão a incerteza da espera
Ante a ciência da humana miséria
Talvez haja ainda uma era
Um tanto menos vulgar
Em busca de caminho
Já não posso ir sem poder chegar
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ISOLAMENTO
Vira-se fútil e sem tempo
Reprimido em quarentena
Os dilemas da ultima estação
Talvez nem haja primavera
Caso o inverno venha perverso
E acirre o espirro do medo
Intensifique a eloquência da tosse
E em brasa a febre da sorte
Encerre o brilho dos olhos
Somente o amor perambulará pelas ruas
Em vigília aos pasmos amantes
Dentro de casa
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Comentários (2)
Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.
quantas verdades com perfeição!
Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava.
A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE.
LIVROS RECENTES:
CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021
Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.
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