Escritas

Lista de Poemas

FAGULHAS

Teu olhar sustenta os meus olhos
Na plenitude máxima e intensa da luz
Onde reverbera o som das esferas
Que circundam as fagulhas
Das densas intenções

Eu absorvo cada segredo que esse olhar me revela

Não é de solidão que sofro agora
Apenas aquieto as vontades e desperto a memória
Para lembrar-te tão prevista quanto bela

Hoje à tarde nossos olhos dançaram tão íntimos
Que incendiaram mútuos

Depois se perderam de vista
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ABRIGOS

Disse-me uma vez o silêncio
Não haver função mais bela
Que a do fazedor de palavras

Faz palavra pra cantor
Palavra pra quem nada diz
Palavra de chamar amor
Palavra chula sem valha
Daquelas que oram e curam
Dessas palavras que choram
As ofensas das malditas
Palavras que não se falam

Vive pensamentando e ri
Da lavratura da ideia
Idealizando vocábulo
Dando voz ao tagarela
Torna sonoros fonemas
Dispõe os significados
Permitindo que se escreva
Imprima e comprima no peito
A palavra certa de agora

Minha língua é aprendiz
De toda palavra dita
Nos idiomas da terra



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JÁ ÉS TÃO QUERIDA!

Mesmo antes de nascer, já és tão querida,
Amada por pessoas que ansiosas te aguardam, 
Recebes a vida destes que te acolhem com amor;
Iluminarás o sol com os sorrisos da infância
Alegrando nossos dias com a doçura da inocência.

Olhos brilhantes acenderão qual estrelas que
Lembrarão mil flores em jardins de primavera,
Irradiando a luz que contagia-nos ao teu redor.
Viveremos por ti, Maria Olívia Maria,
Inspirados no teu jeito meigo e encantador.
Amor puro e verdadeiro é o que trarás ao mundo!
 
        Paulo Sérgio Rosseto
Porto Seguro, Ba, 28/04/2023
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DIÁLOGO ENTRE RAIMUNDO E JOSÉ

Saíste a passear sozinho no terno negro da noite 
Encontrei-te cercado de anjos de branco e gravata vinho
Deitado no colo da morte entre folhas verdes de acácia
Pousado à sombra dos galhos sereno qual passarinho
Sorrindo igual ao menino que olhando a nuvem passar
Aguarda que ela volte trazendo notícias doces do mar 
- Não fora a própria morte 
Cerceando-te o semblante
Quem ousara te levar? –pergunta José a Raimundo

A morte é a derradeira parte a saber da nossa fé
Ela assusta quem não crê quem nada fez por deixar
Intimida por ser vã senil indiferente vilã
Avilta a vida da gente vilipendia por ser incerta
Desconserta arrebenta esfria 
Depois damos conta que existe
Tão mágico quanto nascer é o gesto de não mais voltar
- Sabe a morte nada mais é
Senão o triste vestir
Do avesso do que nos cabe – pondera Raimundo a José

E assim seguiram levados
Falando José a Raimundo dizendo Raimundo a José
Deixando-nos chorosos calados
Sem muito ou nada a entender
Porém resignados porque a morte descansa quem morre
Ainda que nos faça sofrer
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MELODIA

Em volta da casa bege
Havia uma fortaleza na terra crua
De um tempo que jamais volta

Nada de asfalto nem calçada e cimento
No máximo um caminhamento
Aproveitado do levadiço das pedras
De musgo verde embrenhado nas gretas
Sem muro nem cerca nem sarjetas
Onde a poeira vermelha e fina ardia

Por todo lado havia jardins
E canteiros e mais canteiros de jasmins
Que floriam nossos olhos de areia

Por entre nós a infância e as horas
Corriam naquelas ruas abertas
Depois conosco dormiam cheirosas
E novamente voltavam despertas
Para nova sessão de cinema

Até que um dia
A estrela cansou de cantar
Como encerram atriz e cantor
Como terminam cena e melodia

Ainda ouço sua voz amena e macia
Quarando os panos da barbearia:
“Oh oh oh filme triste que me fez chorar”



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ROTINA

Todo dia recebo cartas
Dessas escritas à mão
Trazidas pelos correios
Entregues pelo carteiro
Em meu secreto endereço
Onde a caligrafia erra o compasso
Entre o grafado e o que o olho
Acha que leio

Dessas tão desenhadas
Que trazem notícias e revelam segredos
Em que a gente narra coragem
Omite os medos
Que traduzem fantasmas
Ansiedades
Paixão
Escritas em papel sem pautas
Bordadas de ternura
Perfumadas

Quem me escreve é a saudade
Mantenho-as guardadas
E guardadas estão
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NINHOS

Meu poema desavisado
Caiu nas graças do teu olhar
Num ímpeto balbuciado
Entre teus lábios se fez cantar

Depois de então aninhado
Aquietou-se nalgum lugar

Enquanto cisco saudades
Vasculhando velhos ninhos
Para que outros versos nasçam
O passado assa meu peito
Como se essa ausência tua
Sentasse nua ao meu lado

Porquanto amálgama o tempo
Nos tantos versos que faço
Se não perdurar sejam límpidos
E sob a graça da tua face
Minha arte imersa em bálsamo
Entardeça de luz teu olhar

Que este apaixonado poema
Depois de então declamado
Durma guardado no teu sonhar



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EMOÇÕES

Jamais vi minha mãe chorar
Nem de tristeza nem de alegrias
Sabíamos que soluçava escondida
Como se escondendo emoções
Sofrer nos poupasse a vida

Às vezes não queria a noite
Às vezes rezava para o sol não vir
Por vezes desejava que ficássemos
Por outras sonhava ela em partir
Mas os seus olhos miúdos
Pouco dormiam fechados
Por medo de derramarem aguados
Os rios que ali dentro corriam

Ela ensinou-me a remoer calado
Os sentimentos da poesia

Mas os aboios diversos
Que se escancaram em cantorias
Estes são espelhos do meu pai
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BARULHOS

Ao contrário do que pareça
O grito vem dos silêncios
No anverso dos trovões

Qualquer estrondo que zoe
E pulse no derredor
Ainda que às demandas pertença
Soe suas confidências
Será enganoso o pavor

Muitas vezes leio-te ao olhar
Sem nada entender dos teus olhos
Muitas vezes escrevo teus lábios
Sem nunca descrever os sussurros
Muitas vezes te escuto tão perto
Que não sei compreender teus apelos
Mesmo que me venham ácidos
Ou suaves como gostaria

Se o amor estivera inquieto
Busca-o na ilusão dos barulhos
E ame antes que acalmaria
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CALMO

Sou hoje cais quieto e calmo
À espera de barco para atracar

Mas já fui porto inconformado
Querendo ser barco e então zarpar
Singrar as ondas por entre as águas
Longe das margens ir navegar
Por entre as águas longe das margens
Onde o horizonte desprende o mar
E o mar revolto surpreende as pedras
E a névoa densa revela o cais

Hoje sou porto deserto e calmo
Esperando barco para abraçar

Mas já fui vento aventureiro
Enchendo as velas de algum veleiro
Fazendo a farra do timoneiro
Ventando livre sem preocupar
Velando cascos por sobre as águas
Desafiando sol e luar
Onde a saudade revela lágrima
De água salgada que enche o mar

E se hoje ainda me vejo margem
Braço de arrasto guia de cais
Logo nem mais haverá viagem
Apenas vagas por sobre o mar


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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!