Escritas

Lista de Poemas

NOTURNAS

A mais bela parte do dia é noite
De matiz preto e único
Que se parte esbranquiçada e láctea

A imensidão do escuro
Brinca de forma lúdica
Acendendo no firmamento 
Se dividindo em auroras

Por isso a profusão das cores
Na vastidão do universo
A ilusão das passagens
A compilação dos mundos
As miragens

Nossos olhos não são noturnos
Carecemos da luz das alturas
Entre as negritudes lindas

Somos criaturas feitas de paisagens
Se a noite evapora nas horas
Também os dias claros vão embora

Eu não temo a efemeridade do tempo
De todas as visagens
Apenas não amar me apavora
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BAILARINA

Depois de brilhar no palco
Depois de dançar na chuva
Tanto pular calçadas
Tanto correr a rua

Pliés tendus jetes

De tanto saltar nos arcos
De tanto pisar a areia
Tanto saltar nas nuvens
Tanto ensaiar no espelho

Fondus adagios frapés

Sem sequer rasgar as sapatilhas
Sem sequer molhar as sapatilhas
Sem sequer sujar as sapatilhas
Minha bailarina tem os pés descalços
E dorme nos meus braços
Um sono tão profundo
Como se bailasse no espaço
E acordasse iluminada
Pelo holofote da lua
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MINHA SOLIDÃO

Minha solidão se prende a cidades diferentes
Que não pertencem a nenhum país
Nem nação nem continente

Minha solidão habita nuvens 
Elevadas pelos ventos
Pintadas do branco em cinzas
Entravadas em julgamentos
Longe da contagem do tempo
Sem linguagem nem religiosidade nem argumentos

Não têm copas suas arvores
Não tem arvores nem há sonhos de subir por entre as folhas
Ir trepado pelos galhos atrás de frutos estranhos
Que dependuram no alto e caem quando maduros
Não tem pássaros repousando nem casas de marimbondos
Não tem formigas nem besouros flutuando pelo escuro

Minha solidão mantém
Portas atentas às esperas
Porem certas de que não vêm

Mas sou eu quem cerca em muros as beiras das minhas nuvens
Sou eu quem as seguro e as retém

Minha solidão é pavão com asas de olhos molhados
E pés sem chão



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ENCONTRO

Tua voz acordou o meu nome
De forma elogiosa e doce
Elegante como se cantasse ciranda
Delicada como se desenhasse um retrato
Infinita como se pintasse uma tela
Decidida como se me fotografasse

Eu não sei quem precipitou o instante
Se me olhaste após a surpresa da fala
Ou por ímpeto me chamaste antes
Que a velocidade do olhar nos cegasse
Que o sorriso então se acendesse
Que o coração tão forte pulsasse

Apenas sei que quando isso acontece
Um perfume de rosas exala

Depois desaparece
Depois vai embora
Depois permanece
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A VIDA NÃO ME PESA

Se a vida não me pesa tanto
Enquanto estou acordado
É que o mistério da noite
Calca-me o dorso que dorme
Para que a alma afugente
A lassidão vulnerável da carne

É ilusão que remoço e descanse
Estendido na cama inerte
Que revivo ou então envelheço
Enquanto durmo e não penso
Ou quando me torno reverso
Ausente da consciência

Sonho mesmo é recolhido
No silêncio da madrugada
Palavreando as esperas
Aguardando o sol que nasce
Igual surgi entre entranhas
Do amor que me fizeste

Esse corpo é mera carcaça
Amigo impessoal do espírito
Que tenta dar-me a imagem
De um vulto que desconheço
Do instrumento que preciso
Para escrever-lhe meus versos
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O GUARDIÃO

Eu fui guardião de um rei
Que eu mesmo inventei antes de crescer
E enquanto eu crescia meu monarca partia
Ampliando seu reino pela cercania

Conquistou outras terras
Ganhou tantas guerras
Domou bestas feras
Que as façanhas repercutiam
Repercutiam
Repercutiam

Foi então que me apaixonei
E todo o reino se enfraquecia e desfez
Pois enquanto ardia em paixão
Meu soberano fingia me desconhecer
Mas era eu quem não me conhecia

Somente quando a ilusão se ia
Voltava eu a ser escudeiro protetor
Das cidadelas que havia dentro do meu ser

Enfim eu nunca sabia se sofria ou não sofria
Por tanto amar o que não sei se amei

E se até ontem eu não sabia
Ainda hoje não mais saberia
Por onde andará meu rei
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ETERNAMENTE

O violão que dorme no quarto
Pousado intacto sobre a cama
Teus dedos não conseguem fazer vibrar
- Engraçado
Ainda te sinto tocar!

As tuas musicas atravessam as paredes
E rompem o silêncio dos meus medos
Para poder te ouvir escutar os cantos
- Engraçado
Pareço te ouvir cantar!

Tantas guarânias e lá lá lás e os lero-leros
Das rimas apaixonantes sem compassos
Nos passos das valsas e boleros
- Engraçado
É como se te visse dançar!

Toca canta dança
Deixa tua arte explodir teus encantos
Como antigamente
Para que te ouça sinta e veja
Amar-nos eternamente!
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CIO

Beira de rio costuma haver lugar macio
Onde a onda bate suave sem quebrar
Nem machucar o mato que margeia

É como se pedaços de agua pausassem da correria
E se deitassem na margem para descansar

As aguas que batem pelas beiradas
Brotam debaixo da saia das ondas
Que vazam do meio das pernas do rio
E seguem direto do rumo do leito
Do lado esquerdo ou direito das bordas
Sabedoras de jamais voltar

O rio entretanto alonga e alaga nas cheias
Endoidece que até perde o prumo
Quando vaza saltitante na corredeira
Depois novamente amansa o cio
E se transborda é de tanta história
Louco para contar ao mar

Toda essa agua que esguia passeia
Canta cantigas que somente escuta
Quem navega nos rios da vida
E mergulha na sorte de se deixa levar


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PARTES

Ao longo do dia divido-me em partes:
A parte que recolhe olhares e os reveste em cores
Outro tanto que reparte palavras para explicar-lhes
A soma que recobre sonhos e os acorda tarde
Uma enormidade que pretende tudo e do nada sabe
Um pouco que encoraja a voz a emular milagres
O muito que dilata o pouco ainda que desmanche
O mínimo que concilia a timidez à arte

Nas partes que reparto unifico-me transparente
Insigne como coleção de máximas ausentes
Significantes por não pertencerem mais ao choro

Tudo é feito com propriedade
Tantas partes dividem-me por motivos tantos
Ante a obviedade do nada que sangra ou arde

O que não faço é adormecer a sombra
Dos motivos óbvios a desconhecer
O que me fora dado sem que houvera lágrima
Pois somente assim me valoriza o todo
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VONTADES

De tanto que a precisava livre
O menino não temia ser diferente

Cria poder
Envolver o mundo em versos
E desvendar-se depressa

Ela zombava
Dessa tolice sem limites
Mas se convencia
A atirar-se em seus braços
E o envolvia ardente

Se ontem
A poesia nasce e acontece
Hoje nem tudo o que escreve
Desfaz seus enganos

Mas enfim o convence
Que nenhum verso mais
Lhe pertence



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Comentários (2)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-02

Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques
2017-11-27

quantas verdades com perfeição!