Escritas

Lista de Poemas

Azul

Búzios na barra azul da areia

guardam música do céu em silêncio,

escutam a maresia que   espreita

o quarteto das estações,

no intimo pedaço de fundo.

 

A onda embalada na nuvem auroreal chumbo,

venda o raio dourado do astro 

espelhado no   chá bebido na penumbra 

da sala verde floral, prenhe de umbrais

vigilantes de névoas e de rugas acesas.

 

Comigo o deserto nas mãos

pousa devagar nos joelhos e

em olhar azul, avisto a barca das magnólias

trazendo perfume de memórias

lugar onde o coração se esconde

como as flores em solitude.

 

O Verão segreda o sossego da infância

traçando cor na harpa do rosto

entrevendo céu e terra em simultâneo

e em emotivo abraço, o coração poente

busca o lusco-fusco no ladrilho dos dias

enquanto as gaivotas anunciam poesia na noite.

 Maria Giesta

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Outono

Outono


Desalinhada, cai a folha amarela

prisioneira da gravidade

ciranda no vento

espremido no calor

de um dia cego de sonho

apertado no sumo da ventania

presa no amarelo poeirento das formas.

O Outono encerra-se na flor

de uma mão convulsa

inventada na embriaguez de uma jarra

cavada na sombra da janela

e na disciplina da rotação da terra,

sangrada em glóbulos

agonizados no bafo da garganta

bordada de espadas e sinos.

Nós de rosário de deuses avessos

tecem raios e rosas surdos

cegando os dedos sobre as têmporas.

Maria Giesta

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Outono 1

Desalinhada, cai a folha amarela

prisioneira da gravidade

ciranda no vento

espremido no calor

de um dia cego de sonho

apertado no sumo da ventania

presa no amarelo poeirento das formas.

O Outono encerra-se na flor

de uma mão convulsa

inventada na embriaguez de uma jarra

cavada na sombra da janela

e na disciplina da rotação da terra

sangrada nos glóbulos

agonizados no bafo da garganta

bordada de espadas e sinos.

Nós de rosário de deuses avessos

tecem raios e rosas surdos

cegando os dedos sobre as têmporas.

Cedo a inquietude das nuvens coroa o Inverno

e o enxofre implode os corpos moribundos

descendo à terra acompanhados das cinzas de Outono.

Maria Giesta

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A cada


A cada onde uma esperança 

a cada passo uma espera

a cada palavra uma mentira

a cada voz um mistério

 

uma voz

um carinho

um caminho

infligem a cada entalhe de memória.

 

A cada bocado um espartilho

a cada sentir a vivência

a cada toque linhas secas

a cada curva um traço à vista.

 

uma geometria 

uma escarpa

um degrau

tecidos a cada camada de sangue.

.

A cada noite um coração abre-se

a cada porta palpita uma imagem

a cada tacto afunda-se o espanto

a cada silêncio rompe-se a timidez

 

uma vida

um ritmo

um temor

nascem a cada altivez do olhar.

  Maria Giesta


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Nenhum lugar mais


No jardim da casa redonda o vento sopra de norte,

olho e chamo a força 

arremetida

ao branco vitral do sal, às lágrimas coadas da tormenta

que veste de sombra o tempo desabrido 

convidando-me a estar comigo.

Rompe-se o silêncio perdido na matriz do corpo

enredo de olhos secos...verdade sisuda e bêbeda

balbucia às sombras de Janeiro

incertezas sobre o nascimento nas palhas

e na fé ínvio da salvação gratuita.

Em abuso na vidraça, a manhã envergonhada

atropela o espaldar da cadeira 

e o vermelho escrito no algodão do cortinado 

caminha sem saída diante da solidão das letras empilhadas

na estante, vício e beleza convivem para sustentar a metamorfose da alma

empoeirada dos ossos aos olhos dos poros e às artérias

esvaziando o orgulho da vida na morte.

Para quê mentir se a verdade é irrelevante?

Dentro das vias rubras canais quentes

como brasa mortiça, respiro, escuto a chuva, espreito o aceno do horizonte

aplainado ao mar vigiado por peixes sem grilhões 

rasga-se a vida que passa à frente do olhar 

traçado a cada viagem pelo meridiano da inocência 

e em cumplicidade com o tempo, nenhum lugar mais

será real como no redondo da casa de poemas.

 

Maria Giesta
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Verde Malva

O verde das folhas súbito
alucina a Primavera 
e os rumores das flores 
não acordam os corvos
desatentos ao ruborizar das rosas 
tentam abrir sorrisos carnudos
nas sílabas da canção.

A esperança inspira o verde malva
à beira da floração do riso
esculpindo no rosto amargo
e à tona do corpo cicatrizado
florestas de luas brancas
adormecidas no chão de camélias em polpa
despertam os dedos fervilhantes de angústia.
  O dia abre-se na estação ébria
no canteiro de pedras pousadas pelo suor
desabrocha o mel ensonado, 
selado na arte da vida dançante 
e entre jorros de verde, o mistério
ergue-se na costura das costas lavradas
de intempéries e efemérides sísmicas.
Maria Giesta
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Clarão alado


A elegância da lua ...o sossego da noite

a maresia entornada na praia...

as estrelas polvilhando a abóbada 

o silêncio...a tranquilidade...o sorriso...

o bom humor...fluindo na serenidade...

sob o olhar da luz bruxuleante solta pelas chaminés harmoniosas

ergue-se em singeleza o olhar para o clarão alado 

elevado no céu...velando a nudez do escuro 

que se perde em parte alguma, à espera de ninguém

enquanto o lampejo bebido pela negritude

aguça a imaginação da introspecção.

Entre sabores partilhados à mesa, conversas reveladas

mergulha-se na redondez do mirante

nos sonhos desprendidos do espírito

 e nas descobertas que cada um faz de si e do universo.

Celebra-se a vida...comemora-se o momento… sente-se o presente

 descobrem-se insignificâncias que elogiamos e amamos

em paredes meias com um deus mudo.

 Maria Giesta


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