Escritas

Nenhum lugar mais

Maria Giesta


No jardim da casa redonda o vento sopra de norte,

olho e chamo a força 

arremetida

ao branco vitral do sal, às lágrimas coadas da tormenta

que veste de sombra o tempo desabrido 

convidando-me a estar comigo.

Rompe-se o silêncio perdido na matriz do corpo

enredo de olhos secos...verdade sisuda e bêbeda

balbucia às sombras de Janeiro

incertezas sobre o nascimento nas palhas

e na fé ínvio da salvação gratuita.

Em abuso na vidraça, a manhã envergonhada

atropela o espaldar da cadeira 

e o vermelho escrito no algodão do cortinado 

caminha sem saída diante da solidão das letras empilhadas

na estante, vício e beleza convivem para sustentar a metamorfose da alma

empoeirada dos ossos aos olhos dos poros e às artérias

esvaziando o orgulho da vida na morte.

Para quê mentir se a verdade é irrelevante?

Dentro das vias rubras canais quentes

como brasa mortiça, respiro, escuto a chuva, espreito o aceno do horizonte

aplainado ao mar vigiado por peixes sem grilhões 

rasga-se a vida que passa à frente do olhar 

traçado a cada viagem pelo meridiano da inocência 

e em cumplicidade com o tempo, nenhum lugar mais

será real como no redondo da casa de poemas.

 

Maria Giesta
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