Escritas

Lista de Poemas

Autoretrato

Tenho absoluta certeza de que sou mediano.
Tenho um metro e setenta e cinco
e, para quem não está familiarizado com medidas
é algo entre alto e baixo.
Olhos meio claros, meio escuros.
Cabelos um pouco lisos e outro pouco crespos.
Não tenho a pele "couro forte" dos negros
nem a alvura sensível dos europeus.
Muito menos ostento a vermelhidão
saudável e liberta da pele indígena.
Beleza e feiura, tenho-as na mesma proporção.
Nunca fui rotulado como um sujeito genial
mas consegui, a custa de algum esforço
afastar-me da ignorância.
Sou, em quase todos os aspectos, um mediano.
Tive uma vida humilde
mas sem passar por privações
do que me era essencial.



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Minha Vida

Minha vida
é um livro aberto
repleto de histórias
mal contadas
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Medo

Na Síria
Na África
Nos Sertões
As crianças quase mortas
Temem a morte

Na Síria
Na África
Nos Sertões
As crianças quase vivas

Temem a morte
E temem a vida
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Solitude

O Silêncio que preenchia o quarto
Ganhou o mundo
Era solene e grave e carrancudo
Mas, mesmo agigantado
Enfraqueceu
Sucumbiu à leveza do seu sorriso
E ainda amargo
Abriu-se numa florada de risos
Com filetes de sangue
E sombra entre os dentes
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Rituais

Todos os meus riscos e ritos
Cabem no mesmo balaio

Minhas fomes
Minha vontade de comer ou de navegar
A febre dos desencantos
A visão turva, o papo reto
O rastro das minhas fugas
E o nó na garganta
Tudo no mesmo balaio

As fontes secas
E o campo infértil
Onde pasta a humanidada
A cicatriz caricata
O sorriso banhado a ouro
Os lábios mordiscados
Os partos e seus espasmos
E a nossa ira santa
Tudo no mesmo balaio
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