Lista de Poemas
Você guarda mágoa, ou é a mágoa que te guarda? (Crônica)
Estive revisitando o Livro de Mágoas da escritora portuguesa Florbela da Conceição Espanca.
Aí está uma pessoa que soube sofrer com elegância!
E ela sabia exatamente para quem escrevia; um seleto público de leitores sofredores, daqueles que encaram a dor de frente, olhos nos olhos, estando ou não com medo, esses não saberiam sorrir, guardando dentro de si, um gesto de covardia.
Florbela diz nos primeiros versos desse livro:
"Este livro é de mágoas.
Desgraçados que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados pode,
talvez, senti-lo... e compreendê-lo..."
Então você me perguntaria, e quem é que pensa em elegância na hora do desespero? Bem, não é na hora exata, é depois, é no momento da mágoa, na hora de remoer, nessa hora tem gente que mastiga a mágoa com a boca aberta, e fica ali ruminando, ruminando, mas há os que mastigam elegantemente, de boca fechada, e com o garfo deposita, calmamente, o caroço no prato.
E como falar de mágoas, dores e elegância sem se lembrar, também, dos poemas de Francisco Otaviano e Paulo Leminski? Quase impossível! Eles são dois, dos muitos escritores brasileiros que também souberam, cada um à sua maneira, sofrer com elegância. Dos seus caroços brotaram versos para os quais me faltam os adjetivos, pois transcendem as palavras, as dores, as mágoas... Atingem o âmago da alma, como este de Paulo Leminski:
"um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa, um milhão de dólares
ou coisas que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra"
E este do Otaviano:
"Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu
Foi espectro de homem - não foi homem,
Só passou pela vida - não viveu."
Os poemas falam por si. E por isso, fico até sem jeito de continuar escrevendo depois de transcrever versos dessa magnitude.
Mas preciso dizer que ao longo da vida, tenho percebido que as pessoas vêm perdendo a elegância do sofrimento, hoje as pessoas sofrem feio, como se feio fosse o sofrer, quando feio é se mostrar alegre, sem o ser...
Usando o jargão contemporâneo: 'para que tá feio!'
Deixe a mágoa guardar você, te proteger pela experiência de vida, mas não guarde mágoa, não a remoa.
Quanto mais se tenta sufocar a dor, mais tempo passamos remoendo, é preciso tratar a dor, resolver o problema, encarar a dor de frente, mas às vezes o problema só se resolve com a quietude do repouso, com o silêncio.
Nesse tempo de silêncio nós damos tempo para a alegria se nutrir, ganhar sustância e ressurgir com força, com vontade e com verdade.
Para isso é importante ir alimentando a mente com mais arte, com boa música, com bons livros, com mais poesia, esses são bons nutrientes para a mente, são os recursos que ela vai lançar mão na hora do aperto.
É preciso ter bons ingredientes estocados na mente para dar a volta por cima; mas se a pessoa vai lá e estrangula o sofrimento, não vive a 'quarentena' da dor, da mágoa, do luto, ela perde os frutos dos seus caroços, num esforço vão de impor uma alegria pálida.
E acabam estocando mágoa e sofrendo sem elegância.
Madalena Daltro Fonseca.
Coluna: Cultura & Literatura
Jornal: Folha Valle
http://folhavalle.com/voce-guarda-magoa-ou-e-magoa-que-te-guarda/
Toca-me o caipira - Poesia Chick Lit 2
Toca-me o caipira da bicicleta
Marcado do sol
Tatuado de corte
Do punhal imposto
Que corta a carne
Os ovos, a fruteira...
Restam o feijão
E o milho da peneira
Toca-me o caipira
Dormindo no colchão
De capim seco
Deixando no chão
A marmita vazia
Toca-me o cairpira
Que carrega o luxo nas costas
Sem costas quentes ou costas largas
Carrega a bicicleta de pneu furado
Toca-me o cairpira
Que não bebe Caipirinha
Não toma Aspirina
Vive de fé e de certa alegria.
Destino e Livre Arbítrio
"Supliquei ao destino um pouco de livre-arbítrio,
para o azar da sorte,
ele me deixou optar entre a cruz e a espada.
Escolhi a espada,
e para a sorte do azar,
até hoje luto contra ele."
Madalena D. Fonseca.
A vida não usa relógio (Cultura & Literatura - Jornal Folha Valle)
(Madalena Fonseca - Folha Valle 2018)
Quando ele chegou ao ponto, o bonde havia saído fazia 5 minutos.
Em torno dessa informação é que José de Alencar conta a história do romance: Cinco Minutos (1856).
Quem anda ou andou de ônibus conhece bem a sensação de se perder o ônibus. Raramente uma pessoa dirá:
- Ah, paciência!
Em geral é um misto de sentimentos, potencializado pelo objetivo que se tem em percorrer aquele trajeto.
Muitas vezes perder é sinônimo de ganhar.
Parece contraditório, porque nós não fomos educados para lidarmos com a perda de modo a tirar proveito dela ou nem mesmo somos capazes de cogitar a possibilidade de uma perda ser um desvio, que evita uma tragédia.
Vá saber o desenho das teias do destino!
Em vez de ampliarmos a visão do que fica, permitimos que o caos se instale, então vem a ansiedade, a impaciência, o descontrole emocional, assim, de uma perda, perde-se a saúde, perde-se a paz de espírito, perde-se amigos, tudo isso porque só se foca no prejuízo, ou no ônibus que se perdeu, no engarrafamento que faz perder tempo e assim vai...
Li Cinco Minutos em 1988, só me recordo do ano porque foi uma daquelas leituras obrigatórias da #escola, e ele foi um dos livros que ajudou a moldar a minha visão de mundo. Naquela época eu ficara muito impressionada, me perguntava: Como míseros 5 minutos mudariam, para melhor, toda uma história de vida?
O incrível é que, fatos que nem levamos em consideração e nem vemos com o potencial de alguma grande mudança e até mesmo os de aspectos negativos se tornam uma guinada positiva na estrada da vida. E foi o que aconteceu no romance.
O autor do livro não diz o nome do personagem narrador, mas ele conheceu a sua futura esposa, Carlota, no bonde em que subiu algum tempo depois de perder o bonde anterior, por conta dos 5 minutos de atraso. Foi amor à primeira vista, apesar de ele não ter visto o rosto dela, pois estava coberto por um véu. Naquela época o recato e a restrição de comunicação eram entraves para se iniciar qualquer relação. As relações aconteciam por meio de cartas, recados ou bilhetes, e como ninguém sai dando o endereço da casa assim para um desconhecido, o jeito foi ele ir por 15 dias seguidos pegar, pontualmente, aquele mesmo bonde, na esperança de reencontrá-la, mas sem sucesso. O destino quer confirmar que ele age na hora que bem entende.
Os jovens apaixonados se reencontraram em outras ocasiões. 💖
A questão do tempo, ou melhor, da relatividade do tempo e de sua força é algo que marca o texto. Se por um lado 5 minutos fazem diferença no destino, por outro lado, a ansiedade modifica a percepção do tempo, mas para o que já está traçado não causa nenhuma alteração, porque o que tinha de acontecer aconteceu independente dessa percepção atormentada do passar do tempo, como nesse trecho:
"Vivi um mês, contando os dias, as horas e os minutos; o tempo corria vagarosamente para mim, que desejava poder devorá-lo. Quando tinha durante uma manhã inteira olhado o seu retrato, conversado com ele, e lhe contado a minha impaciência e o meu sofrimento, começava a calcular as horas que faltavam para acabar o dia, os dias que faltavam para acabar a semana e as semanas que ainda faltavam para acabar o mês."
Essa conduta do personagem em nada alterou o curso dos acontecimentos, a não ser um serviço doméstico que ele poderia ter feito em vez de ficar fazendo essas contas inúteis.
A vida não usa relógio, ela segue o curso que tem de seguir, no tempo dela.
Por vezes nós também perdemos um tempo enorme calculando o tempo para isso ou aquilo, e as coisas mais importantes acontecem fora do nosso tempo programado. Carlota era alguém que, no começo da narrativa, se mostrou ser uma jovem sedutora, mas que vai se revelando uma moça sem vigor, doente de morte, mas que teve a vida salva pelo beijo e abraço do personagem apaixonado. "- Oh! Quero viver! exclamou ela."
Essa cena remete ao beijo que desperta a Bela Adormecida...
Se por um lado o personagem tem um pulso que ousa querer controlar o tempo e o rumo das coisas, por outro lado, Carlota até então, não tem força vital. Eu a chamaria de 'mosca morta', mas que despertou com a força da paixão do amado, que viajou para a Europa atrás dela, onde ela teria ido para tentar curar a sua enfermidade.
"Desta pequena causa, desse grão de areia, nasceu a minha felicidade; dele podia resultar a minha desgraça. Se tivesse sido pontual como um inglês, não teria tido uma paixão nem feito uma viagem; mas ainda hoje estaria perdendo o meu tempo a passear pela rua do Ouvidor e a ouvir falar de política e teatro."
Acho curioso ele achar que ele não teria conhecido a Carlota se não tivesse perdido o bonde anterior, mas quer saber o que eu acho? Acho que se ele tivesse sido pontual, ela poderia ter se adiantado por alguma razão e ter pego o bonde anterior.
Afinal de contas, quem nunca chegou um pouco mais cedo em algum lugar?
Como disse Manuel Bandeira em um poema: - "o cálculo das probabilidades é uma pilhéria".
http://folhavalle.com/vida-nao-usa-relogio/
Chora a morte em vida (do livro: Poesia Chick Lit II)
Chora em vida a própria morte
Foi um desperdício da natureza
Um lixo a mais no lixão da tristeza
É um coração maltrapilho
Tosco e sem brilho.
Se árvore fosse
Seria lenha
Teria o colo do lenhador
Passaria no braço da cozinheira
Manteria aceso o fogo
Que aquece, ilumina, alimenta
Espantando a tristeza
Soltando fagulhas saltitantes, brilhantes... cintilantes...
Agora cintila a lágrima
Que apaga o fogo dos sonhos
Mas resistente como pedra
Continua desejando... vida, brilho, fogos e alegria!
Madalena Daltro Fonseca.
Despedida do desespero
Aqui, os meus valores
não pagam contas,
não viajam,
nem mandam flores...
Aqui, o meu amor
já não tem voz,
já nem te vejo,
como a primeira vez...
Aqui, a minha dor
não tem remédio,
nem culmina
em sacrilégio...
Aqui, (nesse planeta)
a morte (despedida)
é impedida,
por quem defende a vida
apenas para escravizá-la.
Deixai-nos ir.
Deixai-me ir daqui,
na velocidade dessa luz
que ilumina a saída.
Madalena D'Fonseca
Se me ama...
se declare,
para que eu declame
meu amor.
Madalena Daltro.
A fita métrica
A fita métrica
mediou
minha medida
pela medida de quem
nem me viu.
Ou ouviu,
nem eu o vi!
Ou ouvi dizer.
Nem sei quem foi
que deu medida,
à fita métrica
que me mediu.
Assim sou medida
pela medida
da fita criada
por quem
não conheceu
a minha medida.
Ana
Longe me vou de ser Ana...
Perto estou de ser Ana
Mulher Ana
Nome Ana
Ana Santa ou
Santana
Ana loira
Ana morena
Ana Cora Coralina
Ana Cunha ou
Ana de Assis
Anna Nery
Ana Bolena
Anita Malfatti ou
Anita Garibaldi
Ana moderna
Ana Maria
Ana Rosa
Ana Paula
Ana Carolina
Ana Júlia
Ana Cañas
Comentários (8)
Sua vocação é ser poetisa
Gostaria que vc lesse. Vanise O caminho e tortuoso Fica distante Carece de palavras Tem o olhar no infinito Busca o sentido Dos poetas e poetisas Para abraçar o tempo Acena no ar etéreo Para voltar a sonhar O sonho da busca Do aguardado sorrir Para todos os amanhãs. Licroceh Usalsolo Ml14ri07re18
No deserto de sentimento,buscamos porta que nos leve ate os amores esquecidos. Ah como é doce encontrar no caminho sua mão acenando para o abraçar e descansar.
Na imagem, seu sorriso No olhar a docura da busca Nos escritos a pureza De um sentimento Sempre no sol, no luar Na inspiração dos sonhadores. licroceh usalsolo
SURGIMENTO Sem uma causa, sem um alerta Eis que surge no caminho O encontro de poemas e versos De buscas e pensamentos Tragados pelo nascer de cada amanhecer Voce chegou. licroceh usalsolo ml11lc5rr18 me informe os nomes do seu livro e como compra-los.
Madalena Daltro nasceu no Rio de Janeiro em 1973. É casada e mãe de dois filhos.
Sua primeira atuação na sociedade foi como voluntária da Cruz Vermelha Brasileira no projeto Operação Ararajuba onde ingressou numa expedição ao interior do Ceará.
Em seguida aderiu ao grupo do curso de teatro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (TUERJ).
É graduada em Estudos Sociais, especialista em Reabilitação Ambiental Sustentável Arquitetônica e Urbanística, especialista em ensino de História e Geografia e mestre em Gestão e Auditoria Ambiental.
Escreveu diversos artigos acadêmicos, lecionou, entre outras disciplinas; História da Arte e Planejamento Urbano. Em 2012 foi docente do curso de pós-graduação em Perícia Ambiental.
Tem dois livros de poesias publicados e participações em antologias.
Escreve desde que aprendeu a escrever e sempre gostou de transmitir conhecimento, de alma inquieta, tem sede de conhecimento, curiosidade aguçada e amor pelas Artes, História e Literatura.
Seus livros foram publicados pela editora Multifoco.
http://pesquisa.livrariacultura.com.br/busca.php?q=Madalena+Daltro
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Ola, espero poder acompanha-la nos versos e, sendo sensível saberá ler nos escritos que a vida tem três tempos:- passado, presente e futuro. Até o próximo verso.
Muitas vezes fazemos coisas que realmente são impraticáveis, mas, quando assumimos fica bem mais fácil de acertar os passos. Poemas muito bem escritos...
Gostei muito dos seus poemas... E essa é minha sociedade!