Lista de Poemas
cio
as palavras entram no cio
e os poetas vão atrás
quero-quero
dia e noite vais dizendo quero-quero...
quero-quero, quero-quero, barricada de palavras,
proteção do território,
rasantes voos acinzentando o espaço
para defender o ninho...
da cor do rato, de um navio de guerra,
o bico de proa abalroa em terra firme
a imodicidade dos desejos...
quero-quero, quero-quero,
esse quero sempre em dobro,
infinita querulência,
nós queremos muitas coisas,
muitos querem querosene,
querem até à obesidade,
eu só quero ser poeta
nem que seja por usucapião;
fui marujo,
do mar trouxe a resistência
e também fosforescência,
profundezas luminosas...
quero-quero, quero quero
dispersou minha boiada,
mas me uniu à poesia.
quero-quero, quero-quero
não te quero erguendo muros,
disse o pai pedreiro
e prometi ser das palavras.
quero-quero, quero-quero
quantas vezes me esmero,
quantas vezes me onero
nesse voo com a garça.
da avifauna,
garça, voo caro.
garça, voo pesado.
garça, voo salgado.
quero-quero, quero-quero
querofóbico fiquei...
como posso ser feliz?
garça, branca cicatriz.
quero-quero
também quero meu leitor,
quero acima da dor
o pescoço dessa garça,
não produza mais tristeza
à tristeza que já tenho.
quero-quero,
como posso ser Homero
de um país que nada espero?
como posso ser Virgílio
se Eneias gonorreias?
mal-chegado a bordo
tornei-me bardo,
tornei-me bird
num mar de blood.
quero-quero, quero-quero
se a vejo me acelero,
se é outono, primavero.
quero-quero, quero-quero
é minha voz que te chama,
abstratamente-,
a herniar-se no universo.
Polifemo
vieste pelos sete mares mirando o horizonte e as estrelas,
guardaste teus vestidos roçagantes,
sobre tua nudez desceu a farda mitológica.
o navio ricocheteando pelos portos,
agora estás voltando a Ítaca
como a garça que regressa ao ninho.
seis meses é muito pouco, Gallega,
para subirem as velas,
uma viagem rápida e pequena
no mar antigramatical.
fica um pouco mais...
não adestraste cavalos-marinhos.
à beira da praia só chegam conchas vazias.
é preciso mergulhar...
Netuno anda mudado, enfraquecido ou
alternado de rigor e de brandura:
se te perseguiu por meses,
Ulisses foram anos, quantos danos...
estiveste separada da família,
mas anexada ao infinito,
do privado para o público
foi subtração e adição,
palidez e rubidez...
há descidas e subidas
como a proa que retorna do abismo.
só as impetuosas inclinam-se ao delírio
na contextura náutica das ondas.
agora que desvelejas, renavega as letras,
titânicas palavras...
e perdão se te persigo com poemas,
se enchi o mar de versos,
mas deixaste no Rio de Janeiro
um ciclope cego por ti.
outra linguagem
rouca que canta
não canta por cantar
canta quando se encolhe
canta quando se ergue
canta quando anda
movendo os pés sobre as águas
para atrair o leitor
canta o seu voo pesado
histórias de pedras antigas
seu grito de asas abertas
batendo em asas fechadas
as aves que não cantam
cantam de outro modo
a garça noutra linguagem
canta com sua plumagem
canta com a solidão
nas suas olheiras verdes
canta de modo agressivo
repare no peito do mar
rasgado todos os dias pelas quilhas
os bombeiros foram chamados
para buscar a garça numa casa,
cantava com a asa ferida
eu não sei porque me aproximo do mar
também tenho uma garça lesionada no poema
e os bombeiros nunca vêm
porque dizem que é trote
porque dizem é um poema
dizem com o tempo
a asa volta um pouco pro lugar
e cortam a ligação
e a garça rouca que canta
agora canta por cantar
haicai
ventania
a garça tenta pousar
num galho que recua
arte
coloco num poema...
arte é colocar seu nome num poema.
incorporar setembros.
saudade sem distância é feitiço.
o trabalho que faço é poesia.
a palavra não tem corpo fechado.
meu pai amarrava tijolos,
fiz amarração de navios pelos mares,
amarrei nos portos meus apertos,
minha ademonia, o sol acendia
velas dos veleiros
e se em versos despacho
brancuras de garças enfebrecidas
é para fazê-la voar.
EL FLECHAZO
a una guardiamarina do Elcano
pelo tridente de Netuno,
obra de arte bem tratada, apesar da ação do mar,
branco, branco, branco,
do porto de Gran Canária de Tomás Morales,
migraste como um grande animal da Pedra Polida,
fugindo do inverno em busca de verão;
visitar este veleiro, tem com ele a minha vida
no passado, nostalgia, no presente, só encanto,
fui da equipe de velas da Marinha,
apontar a proa para a vida, há descidas no abismo...
esguichos retorcidos num gesto barroco;
visitar este veleiro, tem com ele a minha vida
no passado, nostalgia, no presente, só encanto,
fui da equipe de velas da Marinha,
apontar a proa para a vida, há descidas no abismo...
do sextante e do compasso,
fiquei preso como um pássaro no visgo,
como verso perdido no convés,
continuando o mês de março sobre a terra
a morte do Zé do Norte - a Ferreira Gullar (in memoriam)
contratorpedeiro Zé do Norte,
bico fino,
desejo agudo pelos mares,
já não pode ser contra nada...
de capitânia a rebocado
a caminho do desmanche,
perdeu o manche,
da montanha a avalanche,
desmoronou sobre ti
garças negras, africanas,
águas de Durban.
mar, cama líquida e azul,
noites de erguimentos e quedas,
de nas estrelas cadentes
encharcar-se de abismos
e a vida com seus Zés:
Zé da Rita
Zé da Preta
Zé do pão
no final serão da morte,
todos a caminho do desmanche,
a morte quer seu lanche,
a despedida é lilás.
águas de Alang
quanto sang!
Zé do Norte mudou de nação,
de número, de nome,
mudará de forma,
disforme,
Zé da Morte;
cortaram cabos de reboque
e se foi com a tempestade,
com seus postos de combate,
virou posto de abandono;
seus paióis de enfermaria,
onde fui encarregado,
um lugar apropriado
ao marujo mareado;
meu primeiro navio afundou
e em harmonia afundei
de servidor federal
para estadual,
hoje municipal,
trabalhador braçal
da prefeitura de Meriti;
mas se afundaram o navio
e o homem de guerra,
emergiu o poeta.
seu destino, como as aves,
era entrelaçar-se ao vento;
sua metralhadora antiaérea
era inveja de passarinhos.
vento forte Zé do Norte!
a mercadoria não chegou,
menos sangue em Alang,
caturrei, afundamos,
deixamos juntos
a altivez das ondas,
afundei em todos os navios,
vim aos ares com todos os poemas
como a proa que retorna do abismo.
agora
o girassol se desmancha em outros benefícios,
nos tubos-almas dos canhões
deslizam peixes, não metais.
eu, passei de menos para mais...
quem dera essa imagem
fosse aqui na superfície.
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