Escritas

outra linguagem

Lasana Lukata
a garça

rouca que canta

não canta por cantar



canta quando se encolhe

canta quando se ergue

canta quando anda

movendo os pés sobre as águas

para atrair o leitor



canta o seu voo pesado

histórias de pedras antigas


seu grito de asas abertas

batendo em asas fechadas



as aves que não cantam

cantam de outro modo



a garça noutra linguagem

canta com sua plumagem

canta com a solidão

nas suas olheiras verdes

canta de modo agressivo



repare no peito do mar

rasgado todos os dias pelas quilhas



os bombeiros foram chamados

para buscar a garça numa casa,

cantava com a asa ferida



eu não sei porque me aproximo do mar



também tenho uma garça lesionada no poema

e os bombeiros nunca vêm

porque dizem que é trote

porque dizem é um poema



dizem com o tempo

a asa volta um pouco pro lugar

e cortam a ligação



e a garça rouca que canta

agora canta por cantar
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