quero-quero
Lasana Lukata
dia e noite vais dizendo quero-quero...
quero-quero, quero-quero, barricada de palavras,
proteção do território,
rasantes voos acinzentando o espaço
para defender o ninho...
da cor do rato, de um navio de guerra,
o bico de proa abalroa em terra firme
a imodicidade dos desejos...
quero-quero, quero-quero,
esse quero sempre em dobro,
infinita querulência,
nós queremos muitas coisas,
muitos querem querosene,
querem até à obesidade,
eu só quero ser poeta
nem que seja por usucapião;
fui marujo,
do mar trouxe a resistência
e também fosforescência,
profundezas luminosas...
quero-quero, quero quero
dispersou minha boiada,
mas me uniu à poesia.
quero-quero, quero-quero
não te quero erguendo muros,
disse o pai pedreiro
e prometi ser das palavras.
quero-quero, quero-quero
quantas vezes me esmero,
quantas vezes me onero
nesse voo com a garça.
da avifauna,
garça, voo caro.
garça, voo pesado.
garça, voo salgado.
quero-quero, quero-quero
querofóbico fiquei...
como posso ser feliz?
garça, branca cicatriz.
quero-quero
também quero meu leitor,
quero acima da dor
o pescoço dessa garça,
não produza mais tristeza
à tristeza que já tenho.
quero-quero,
como posso ser Homero
de um país que nada espero?
como posso ser Virgílio
se Eneias gonorreias?
mal-chegado a bordo
tornei-me bardo,
tornei-me bird
num mar de blood.
quero-quero, quero-quero
se a vejo me acelero,
se é outono, primavero.
quero-quero, quero-quero
é minha voz que te chama,
abstratamente-,
a herniar-se no universo.
Português
English
Español