Lista de Poemas

CAIS DO SILÊNCIO

Coletânea "ALMA LATINA", Vol. VI, - 2025

Fico a chorar o verão
Que foi pelo labirinto
Sem saber a direção
Que tomar. Mas eu pressinto
Que ele vá na que prevejo:
Essa que chama o desejo.

Do verão fica a saudade
Que mais parece ilusão,
E do corpo frio que arde
Só se salva o coração,
P’la artéria que o alimenta
E que a esperança sustenta.

Mas o dia foge cedo
P’ra descer a noite fria,
Cais de silêncio do medo
Duma memória vazia.
E para o vazio encher
Novo dia há de nascer.

José António de Carvalho, 23-setembro-2024

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HOJE TAMBÉM É NATAL

(Coletânea JUNTOS SOMOS NATAL 2021)

HOJE TAMBÉM É NATAL


Já não sinto que as palavras produzam festas
Que possam remendar o tempo que passou
E que deixou um rasto de penumbra no céu.
Tudo fica mais escuro se abro a minha janela.

Por isso deixem-me ficar aqui
A lutar com as montanhas que criei,
Porque sei que por detrás de cada montanha
Há sempre uma pequena estrela que cintila,
E que mesmo tão distante me orienta.

E eu, que tão mal a vejo, esforço-me…
Esforço-me para fazer a minha aproximação
Em todos os dias, em todos os momentos,
Para ficar com um pouquinho da sua luz,
E tento, assim, sentir algum calor de Natal…

José António de Carvalho, 11-outubro-2021
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Meu Amor

(Coletânea de Cartas de Amor - Chiado Editora - 2019)


Meu Amor

Bem sei que as cartas caíram em desuso, mesmo assim não resisto a escrever-ta, porque não é uma simples carta, é uma carta de Amor.

Quero que a leias com todo o vagar e de coração aberto. Se for possível procura um lugar verde natural, belo e recatado, para que esta carta se torne muito especial e relevante para o nosso sentir.

Talvez a devas ler junto às margens dum rio, numa paisagem natural e florida.

Pode ser mesmo junto ao Tejo, onde passe pelo meio de searas doiradas e quando o sol espelhe nas águas e ilumine o teu rosto doce, ou que a tua alma de flor passe serenamente num pequeno barco à vela, longe de nós e perto da outra margem, mas que nos aproxime cada mais, e mais.

Ou na margem do Douro, onde se consiga ver a tua adorável silhueta projetada nas folhas douradas das videiras plantadas nas encostas das montanhas e com o rio a serpentear-se no vale, e o teu perfume dê aroma às uvas rosadas para nosso deleite, que se transformarão em vinho que nos há de inebriar e tornar os nossos corpos etéreos, tornando-os sublimes, quentes e amantes.

Também poderá ser junto ao Vouga e Ria de Aveiro, onde a água salgada entra no corpo da terra por tanto a querer, formando-se enormes espelhos d’água que realçarão a tua beleza, ou pelas suas ramificações em ribeiras e regatos, como se quisessem abraçar tudo. Tal como o nosso amor, que tudo quer envolver à nossa volta e colocar-nos ao centro, unidos e abraçados, debaixo de sol ameno.

Ah, como gostaria que a lesses em Viana do Castelo, no jardim junto ao Lima, em dia que não esteja frio nem se faça sentir vento forte. Ou ainda, se preferires subir o monte de Santa Luzia, poderás lê-la bem lá no cimo junto ao mosteiro, irás deslumbrar-te com a cidade e com a foz. Adivinharemos o sol a afundar no mar e subir pelo rio. E como é sublime e lenta a penetração das águas do rio no mar, misturando-se como as nuvens de vários tons, fazendo lembrar o despir das tuas roupas que encobrem tanta beleza simples e natural.

Minha querida, se a preferires ler em Caminha, bem junto ao rio Minho, em Cerveira ou Monção, ficarei igualmente feliz. Tu serás cada uma das ilhas que dormem no interior do seu leito e eu serei as águas frescas e vivas à sua volta.

Não posso ir mais longe, se te entusiasma a ideia de a leres junto ao Guadiana, pode ser em Alqueva, onde o amor não vê fronteiras, e beijamo-nos nos segredos da pérola de Olivença e abraçamo-nos na tão querida e bela planície alentejana.

Ou ainda lê-la junto ao Sado, mas toma cuidado, porque este rio corre de sul para norte, tem as belezas do teu corpo no seu estuário e do teu rosto na península de Tróia.

Assim termino, enviando-te um beijo de carinho e amor.

Amo-te minha Pátria! Amo-te Portugal!

José António de Carvalho
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SÃO FLORES

(Antologia POETAS D'HOJE - 2019)

SÃO FLORES

 
Aceita as flores atadas com palavras
colhidas dos jardins cultivados em mim

Trata-as bem. Dá-lhes todo o alimento
Também as palavras são sustento

São tulipas e rosas e cravos vermelhos
entre elas espreitam amores-perfeitos

Contempla-as e rouba-lhes o perfume
que te inebria e em ti deflagra o lume

Põe o vestido azul-céu em seda fina
Que sempre usas se te vestes de menina

E dança com as flores no braçado
nas cores e perfumes e músicas
e sensações que temos sonhado

Neste poema que ao ouvido te segredo…

José António de Carvalho
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ASAS DE OURO

(Coletânea ASAS DE OURO - Homenagem a Amália Rodrigues)

ASAS DE OURO

Pobre e nobre do Fundão
Onde o tempo mais castiga
Não registada no balcão,
Mas lá nasceu a rapariga.

Mais tarde cinco verões
Num assento de Lisboa
Nasceria prás canções,
Fado “penas” e “malhoa”.

Bem cantou o grande Camões
D. Dinis, Ary, O’Neill e Alegre,
Mas pra tão lindas canções
Um simples poeta serve.

A nossa diva do fado
Que voou por todo o mundo
De sentimento amarrado
Arrancado bem do fundo

Do peito deste país.
Um firme grito no estio
Com cetro de imperatriz:
Povo que lavas no rio…

José António de Carvalho, 19-novembro-2020

 
Poema foi vencedor (ex aequo Alberto Cuddel e Ana Júlia Casimiro) do Concurso "Fado e Letras (Homenagem à Diva do fado, Amália Rodrigues) pela Câmara Municipal de Alenquer através da Biblioteca Municipal em colaboração com a Rádio Voz de Alenquer.
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COORDENADAS

(Antologia ALMA LATINA)

COORDENADAS

Os dias nascem na vertigem das nossas noites
Para se evaporarem no meio de medos hesitantes
Receando perderem-se entre as vagas do alto mar,
Ou do veleiro que evolui precipitando-se em frente
Até se perder de vista nos confins do horizonte.

São registos surdos e latejantes dos tempos,
Ápices escondidos a desenrolar de versos e mais versos
Na ânsia de ver nascer um poema seu filho legítimo…
Legítimo de sangue, de sentimento e de sentido.

Um poema legítimo dentro da legalidade de ser,
Um poema que é sonho noutro sonho que se quer ter.
O quadro do veleiro esfuma-se num mar de segredos
Como a vida que nos foge por entre os dedos…

José António de Carvalho, 02-fevereiro-2020
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Comentários (22)

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Muito obrigado, estimado amigo das letras Ademir Zanotelli! Bom fim de semana! Um grande abraço.

Muito belo , teu texto poético , principalmente cuidaras do amor , pois este jamais morrerá! abraços na tua longa jornada de poetar.

Muito obrigado pela consideração e comentário, estimado amigo poeta Ademir Zanotelli! Um grande abraço.

Meu caro amigo... e grande poeta, muito obrigado por me visitar... e ao mesmo tempo o teu poema está seguro, pois o mesmo é um caminho para a luz de sua vida. parabéns .

Muito obrigado, estimado amigo das letras, Ademir Zanotelli! Deixem-me só esclarecer, que não sou jornalista, apesar de ter escrito para dois jornais locais. Um já não existe o outro mantém-se. Boa noite! Um abraço.