Lista de Poemas

Nem em mim Confio

Minha imaginação é um elefante,
Um bumerangue,
Uma faca afiada, de dois gumes,
Que me desapega a vida,

Um elfo e as fadas,
E os muros do palácio,
Que se dobram,
Como curvas e estradas.

Minha imaginação é um truque,
Sem chapéu d'mago,
Um castelo, num mítico bosque,
Uma miragem num tanque,

Um outro Entrudo.
Mas, se a coabitar com o meu "eu" inculto,
Mutilado e sem fantasia,
Sou forçado,

Mesmo quando o não entendo,
Deveria tomá-lo como certo,
E não como embuste,
Ou trapaça, ou farsa.

Minha imaginação
É uma almofada em branco,
De penas, remendada à pouco,
Quem me dera ter sono pesado,

E não acordar deste lado,
Outra vez comigo,
Despido e frio,
Deste lado ruim, em que nem em mim confio.

Joel Matos (02/2011)
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Inquietação sem fugas

Se eu mandasse, voltaria ao contrário a curva do tempo,
Sentiria replicar na alma fria e vaga o sentir profundo,
Onde é mar batido, afundava aí o meu corpo
E nas ondas me envolvia, desse vagar de mar vagabundo

E ainda acabava por ter aquele odor, que tem do lodo, o sargaço
Da maré-baixa; talvez por nada ter de salgado esta outra vida,
Teria no cheiro algo imenso e um nobre pertenço
Como se outra fosse, não esta minha, " brisa plagiada ".

Da curva fútil do tempo, onde a realidade é feita em céu
Continuo sendo um nada, nem a sombra do mar morto
Reconheço como sendo vestígio meu,
Sendo apesar de tudo o cais onde eternamente me acosto.

Se eu mandasse, voltaria ao contrário o mundo,
Na beira punha os olhos e os mares no fundo do coração
E eu andava nu por essas estradas sem curvas, velejando
Na minha inquietação, sem fugas...

Joel Matos (10/2011)
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Que visão tão estranha

Era duma figura esquálida e enxuta
Que lembrava o destroço do cabo negro,
Erguido encima de calhau sujo da costa
P'lo espectro esguio do logro,

Nem sabia se morava dentro dela,
Ou fora da fronteira da maldita nação,
Sabia pela voz dos velhos da cidadela
Que o horizonte era amplo e partilhava de igual chão

Com o roçar da erva e a flor da giesta cor de sol.
Assim... e a seu modo foi construindo,
De dentro para fora, um castro de pedra e cal,
Em região ascética, que nomeou como feudo,

(Bem longe da multidão estrangeira)
Foi-o revestindo de palha, fita, vidro
E do colorido mestiço da humana feira
E Terá ali sonhado incógnito, o futuro

Ele mesmo, sem data ...

Joel Matos (05/2011)
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👁️ 814

O ruído da rua

Apesar d'as janelas estarem abertas de par em par,
Todo o ruído lá fora se diluiu, sumido no ar...
Uma criança que chorava breve, o cochichar das velhas
Sobre vidas que não as suas, a indefinição das ruas

Num refrão constante, com todos os sons e notas
Que chegavam aos meus ouvidos, como um respirar
De pautas musicais, escritas nos vitrais abertos,
Lembravam-me místicas visões e novas versões de credos,

Que o não eram, não deparava com magos nas vielas
Nem fadas, nem gnomos nesse mundo de mil celas,
Apenas janelas de imitação em magros corredores de cal,
Mas onde todos os sons soavam para mim de forma original,

Eles, como eu, não durámos para sempre,
Não escolhemos o vento que nos soprava
No ouvido o respirar do universo, como se fosse
Algo que se ouvisse (um pensamento, uma frase...)

Sussurro agora do vazio que tenho no fundo do coração,
Os sonhos que outros já sonharam nesta mesma mansão,
Apenas as surdas janelas continuam ainda abertas,
Mas as velhas da rua não passam , nem consigo mais ouvi-las...

Joel Matos (02/2012)
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quando eu não tinha

Quando eu não te tinha,
Os meus momentos a sós eram passados no abismo,
Entre o nariz e a boca,
A realidade era outra coisa, menos boa, religiosa, alheia,
E o acordar me dividia,
Entre o lençol e o ir comigo sem mensurável projecto,
Cumprindo um ritual,
Sem dar por nada, sozinho e morto, ausente.

Quando eu não te tinha,
A solidão saía p'los olhos e me intimidava o desejo,
Como uma casa vazia.
A desgraça carpia a minha ausência infiltrada na sombra,
Batendo as horas.
O exílio não era nas hortas e nas nespereiras com frutos,
Os silêncios não eram sagrados
E as rotinas não saradas jamais passariam de básicas e banais.

Quando eu não te tinha,
Não sabia quem eu era, agora não sei quem sou,
Porque te tenho,
Como uma doença benigna e natural, um sopro,
Uma ideia vaga.
Convem conduzir-te p'ra longe da minha inveja,
Mas não sei como.
(Tal é a minha descrença nas teorias da humanidade)

Esperança, quando eu te via nos reflexos d'outros óculos
Era feliz, reconheço-o,
Agora estou ciente que quero o universo inteiro
D'um todo
E nem por isso sou mais brilhante ou autêntico,
Do que outra realidade qualquer.

Joel Matos (02/2011)
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Deus que acabe com tudo isto

Deus que acabe com tudo isto! Abra as enclusas,
Anule os alçapões que censuram as águas,
Convoque os trovões da monção e induza o céu em função
Do cargo sublime, que ocupa em toda esta questão,

Desd'que acabe com tudo isto! Com esta sensação falsa
D'infinito de quem não tem expressão na fala
Para confessar arrependimento com convicção.
(Vivemos em constelações de irracionais prenhos de solidão
Isentos de sentido crítico)

Deus que acabe com tud'isto! E esta alheia gente,
"Com um sorriso na cara que nada tem de inocente",
Fingindo felicidade na beira do holocausto,
Sem abdicar todavia do falso título de homem casto,

Por isso escrevi um sermão vulgar, religioso, mas sem religião
Para qualquer um outro Deus, "que termine de vez a missão",
Que pretendia incutir a sensatez do espírito das aguas soltas,
No sentido critico destas pessoas vãs e insensatas.

Joel Matos (02/2011)
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👁️ 895

Permiti-me ser Triste

Permiti-me que silencie o contentamento
No rosto, se hoje me acenavam
Ainda, foi por bondade ou o oposto,
Pois sorrisos bons, nessas bocas não moram,

Deixai-me, pra que morra,
Sem saudade nem lembrança,
Porque se, a esperança ainda aqui se demora,
Vai abandonar por certo, esta minha praça,

Fico grato a quem me conheceu,
Mesmo que não tenha visto as minhas gotas
De lágrimas, como eu as sinto, caídas do céu,
Que não posso descreve-las, de tão belas...

Nunca fui hábil, na arte de amar o vizinho,
Nem noutra qualquer arte,
Deixai vir a morte, de mansinho,
Pra que também esta, não me "tome de parte",


Permiti-me que, seja o mais triste,
Que o silêncio consente,
Porque, se viver é um "estado de graça",
Em cada dia que passa,

Agradeço a Deus, o aval concedido,
Mas deixai-me por favor, ficar calado,
Apreciando a sorte,
De poder ser triste sendo contente...

Jorge Santos (02/2013)
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O intervalo entre o Desrumo e a Senda

Sou o intervalo entre o desrumo e a senda,
Sol numa esplanada, encerrada ao público
No Outono, inútil, injustificada...
Seria um cata-vento doméstico,

Enfadonho como qualquer outro,
Se fosse feito igual, metade em pedra,
Metade em metal duro,
Onde uma perra nota de rabecão sempre sopra.

Confesso confiar na demora
E não me canso de espreitar p'la rija
Porta de escora e ripa
Embora esta tenha mais de mediana altura.

E o que d'inconveniente esta diz ter, não m'importo
Pois a solidão sela o meu corpo inteiro
Do inclemente vazio...do incerto
E da ilusão do real, ser igual a leste, ou a sol-posto...

No espaço vago entre o desrumo e a senda.

Joel Matos (12/2011)
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Daquilo com quem simpatizo

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Não é um defeito, um rito ou um mau-olhado de bruxo
Que exceda a cota de quem sou, tento gozar dum rio d'sorriso
E da simpatia dos outros, esse imesurável fluxo.

E torno sempre, mais tarde ou mais cedo,
Escorreito e escavo consoante o vaso em que me aprovem
E à substancia mais dócil, da qual ele foi talhado.
S' inda ontem fui greda, hoje sou margem de ninguém.

Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Transforma-me no leito de quem, leve passa e na lembrança
De que não é minha esta versão que abraço da arriba vazia,
Aborrecido de simpatia falsa faça ela o ruído que faça.

Quer Seja uma flor ou uma ideia abstracta
O que sinto no pensamento, serve de monumento
Ao que não perdura ou não existe, ao poeta isso basta
P'ra fazer sentido, apenas esse segmento de tempo,

Em que a água baça do rio por ele passa.

Joel Matos (04/2011)
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O que é emoção e o que o não é

Nada mais me provoca emoção, cansei-me da vida que levo,
O fardo que carrego é uma âncora, assim como outra tralha,
Que não se vê mas sente-se, como um estorvo…
Esta vida ausente, este navegar à tona, sem escotilha…

E a gente vulgar que germina onde sente que há bolor,
Mas o pior é quando o céu se tinge de igual cor
E não me deixa ter noção do que há nas flores,
Nos lagos, nas montanhas e bosques com espaços interiores…

Ah,… os poentes que dão vontade de beber de um fôlego,
A sensação e o gozo ao penetrar um corpo de mulher,
A chuva branda, caindo em cordel e a lembrança que albergo,
Do fogo crepitado da lareira, amadorrando o crer…

De tudo isso abdiquei eu, da subversão, do voo,
De exércitos de estrelas suspendidas, dos prados parados
Saindo dos rios e dos peixes, vestidos de quem sou…
Nada mais me suscita a vertigem dos passados tempos,

Assim uma espécie de faina mas com os barcos presos
No cais, visitando ilha após ilha, maré após maré,
Até que a última estrela caia do horizonte leitoso
E eu não precise mais apartar do que é emoção, o que não é…

Jorge Santos (01/2013)
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Comentários (4)

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nilza_azzi
2019-08-22

É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.

namastibet
2019-01-09

obrigado a todos que me leram

ricardoc
2018-04-23

Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.

131992
2017-10-26

muito intenso seus poemas, adorei.