Escritas

Lista de Poemas

Deus que acabe com tudo isto

Deus que acabe com tudo isto! Abra as enclusas,
Anule os alçapões que censuram as águas,
Convoque os trovões da monção e induza o céu em função
Do cargo sublime, que ocupa em toda esta questão,

Desd'que acabe com tudo isto! Com esta sensação falsa
D'infinito de quem não tem expressão na fala
Para confessar arrependimento com convicção.
(Vivemos em constelações de irracionais prenhos de solidão
Isentos de sentido crítico)

Deus que acabe com tud'isto! E esta alheia gente,
"Com um sorriso na cara que nada tem de inocente",
Fingindo felicidade na beira do holocausto,
Sem abdicar todavia do falso título de homem casto,

Por isso escrevi um sermão vulgar, religioso, mas sem religião
Para qualquer um outro Deus, "que termine de vez a missão",
Que pretendia incutir a sensatez do espírito das aguas soltas,
No sentido critico destas pessoas vãs e insensatas.

Joel Matos (02/2011)
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Daquilo com quem simpatizo

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Não é um defeito, um rito ou um mau-olhado de bruxo
Que exceda a cota de quem sou, tento gozar dum rio d'sorriso
E da simpatia dos outros, esse imesurável fluxo.

E torno sempre, mais tarde ou mais cedo,
Escorreito e escavo consoante o vaso em que me aprovem
E à substancia mais dócil, da qual ele foi talhado.
S' inda ontem fui greda, hoje sou margem de ninguém.

Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Transforma-me no leito de quem, leve passa e na lembrança
De que não é minha esta versão que abraço da arriba vazia,
Aborrecido de simpatia falsa faça ela o ruído que faça.

Quer Seja uma flor ou uma ideia abstracta
O que sinto no pensamento, serve de monumento
Ao que não perdura ou não existe, ao poeta isso basta
P'ra fazer sentido, apenas esse segmento de tempo,

Em que a água baça do rio por ele passa.

Joel Matos (04/2011)
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É inútil povoar a conversa com todos este silencio

Corre um silêncio pela tarde afora,
Como se fosse ordenado
Recolher geral nesta terra,
-Onde ainda penso que resido .
 
(Precisamente no r/c esquerdo
Numero treze e meio-fundo)
Sinto o peso do mundo,
Destes mudos, cheio…
 
E penso desistir de querer viver,
No silêncio grosso,
D’esta vida por esclarecer,
Em que me roço e me coço,
 
-Se nem isso me aquece ou arrefece,
Nem me torna maior ou menor gente,
Nem sou propriamente quem a verdade conhece,
E faz dela o vento norte,
 
Nem vejo como útil, prolongar na surda rua,
 A minha muda conversa…








 
Joel Matos (11/2011)
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Nas Orações dos Homens em Jerusalém

Uma noite fabricou Salomão um palácio
Resplandecente e em segredo.
Fez-se por todo o império
Silêncio e desde logo cedo

Ninguém teve alívio;
Até nos séculos vindouros,
Não mais nasceria ali, um veio
De água ou desaguaria nos rios,

Nada mais senão sangue e guerra.
Uma noite fabricou Salomão um palácio
E a dor nunca mais foi doutra era,
Menos estrangeiro ficou o receio,

De ser feliz naquela amarga terra.
Uma noite fabricou Salomão um palácio,
E tal foi o peso da bera amargura,
Que ainda hoje têm um vazio,

As orações dos Homens em Jerusalém...

Jorge Santos (05/2012)
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E depois não digam que era tudo Mentira

Não me digam depois que foi tudo mentira...
Pra dizer a verdade cá estarei eu, um qualquer fulano
Investido em funâmbulo de feira
Tão real como a eira onde é espancado o feno

Tal como outros, trago um fardo num ombro
Com o peso da nação e n'outro o qu'ela m'isenta
De ilusão e no destruído escombro
Que do meu coração resta, a pouca fé cinzenta.

Não me digam depois que foi tudo mentira...
Porque aqui d'onde sou se desespera com a negação
Regurgitada do reino bera d'outra era.
Tal como outros, amputarei da alma a fé... na razão.

E depois não digam, que era tudo mentira...

Jorge Santos (11/2011)
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No bater de Asas de uma simples Borboleta

Quando me envolvo na fractal distância,
Comovo-me como uma borboleta,

Que duvida de si própria;
Sinto-me envolvido
D'uma forma total, embora sem peso
E me lembro d'outra realidade

Que antes não era tão real.
Imagino-me alternando entre neve e incógnita
E o acaso depois governa no cair
O meu ser solvente.

Termino numa terra distante, em tarde branda,
Tento ignorar a presença aleatória
Da consciência;
Perdida que foi a Memoria da névoa.

Farei um poema quando nada restar de seu,
Num universo convicto,
Sem a emoção nem o claro segredo,
Mas cuja realidade revestida, lembrará um luminoso céu.

Quando me libertar, envolver-me-á numa nitidez,
Sem corpo nem espírito
E sossegará o movimento do universo
Com o bater d'asas d'uma simples borboleta...

Jorge Santos (12/2011)
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AutoGraphya

Actografia

Creio no universo como um homem vulgar,
Não tenho filosofia que me defina,
Nem lugar em que gostasse de falecer,
Não consinto a vida, assimilo-a como a morfina,

Recolho-a nos campos e onde me deixam colher.
Acervo, incorporo tal-qual cobra, a peçonha,
Hasteio-a na haste mais fina que houver,
Enquanto flor do estio, fonte do sol, neblina,

Embora possua um instinto próprio de mulher
É o corpo e não a frágil alma destas que me fascina,
Autista no que exijo e existo sem o que conheço eu, entender,
Como se tudo fosse uma farsa da negação minha,

Disposta a tudo e ao que deus quiser, se isso doer,
O sol-pôr é um analgésico, uma agonia Celestina,
Com ele me uno a disciplina de desaprender,
E as inocentes crenças do virar das'quina,

Verdades transitórias e de aluguer...
Porque, como disse, não faço uso da inteligência divina,
(limito-me à opinião por estabelecer)
Tenho a demência, como estranha e inexplicativa vizinha,

Profundamente hipócrita na sua naturalidade e ilusão de freelancer.
Estou cansado de ser forçado a querer,
Mas não creio no universo que me dizem existir,
Já que a máquina de mentir fui eu que a criei.

Serei realmente gente?

Joel Matos (02/2011)
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O ruído da rua

Apesar d'as janelas estarem abertas de par em par,
Todo o ruído lá fora se diluiu, sumido no ar...
Uma criança que chorava breve, o cochichar das velhas
Sobre vidas que não as suas, a indefinição das ruas

Num refrão constante, com todos os sons e notas
Que chegavam aos meus ouvidos, como um respirar
De pautas musicais, escritas nos vitrais abertos,
Lembravam-me místicas visões e novas versões de credos,

Que o não eram, não deparava com magos nas vielas
Nem fadas, nem gnomos nesse mundo de mil celas,
Apenas janelas de imitação em magros corredores de cal,
Mas onde todos os sons soavam para mim de forma original,

Eles, como eu, não durámos para sempre,
Não escolhemos o vento que nos soprava
No ouvido o respirar do universo, como se fosse
Algo que se ouvisse (um pensamento, uma frase...)

Sussurro agora do vazio que tenho no fundo do coração,
Os sonhos que outros já sonharam nesta mesma mansão,
Apenas as surdas janelas continuam ainda abertas,
Mas as velhas da rua não passam , nem consigo mais ouvi-las...

Joel Matos (02/2012)
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Nem em mim Confio

Minha imaginação é um elefante,
Um bumerangue,
Uma faca afiada, de dois gumes,
Que me desapega a vida,

Um elfo e as fadas,
E os muros do palácio,
Que se dobram,
Como curvas e estradas.

Minha imaginação é um truque,
Sem chapéu d'mago,
Um castelo, num mítico bosque,
Uma miragem num tanque,

Um outro Entrudo.
Mas, se a coabitar com o meu "eu" inculto,
Mutilado e sem fantasia,
Sou forçado,

Mesmo quando o não entendo,
Deveria tomá-lo como certo,
E não como embuste,
Ou trapaça, ou farsa.

Minha imaginação
É uma almofada em branco,
De penas, remendada à pouco,
Quem me dera ter sono pesado,

E não acordar deste lado,
Outra vez comigo,
Despido e frio,
Deste lado ruim, em que nem em mim confio.

Joel Matos (02/2011)
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Permiti-me ser Triste

Permiti-me que silencie o contentamento
No rosto, se hoje me acenavam
Ainda, foi por bondade ou o oposto,
Pois sorrisos bons, nessas bocas não moram,

Deixai-me, pra que morra,
Sem saudade nem lembrança,
Porque se, a esperança ainda aqui se demora,
Vai abandonar por certo, esta minha praça,

Fico grato a quem me conheceu,
Mesmo que não tenha visto as minhas gotas
De lágrimas, como eu as sinto, caídas do céu,
Que não posso descreve-las, de tão belas...

Nunca fui hábil, na arte de amar o vizinho,
Nem noutra qualquer arte,
Deixai vir a morte, de mansinho,
Pra que também esta, não me "tome de parte",


Permiti-me que, seja o mais triste,
Que o silêncio consente,
Porque, se viver é um "estado de graça",
Em cada dia que passa,

Agradeço a Deus, o aval concedido,
Mas deixai-me por favor, ficar calado,
Apreciando a sorte,
De poder ser triste sendo contente...

Jorge Santos (02/2013)
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Comentários (4)

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nilza_azzi
nilza_azzi
2019-08-22

É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.

namastibet
namastibet
2019-01-09

obrigado a todos que me leram

ricardoc
ricardoc
2018-04-23

Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.

131992
131992
2017-10-26

muito intenso seus poemas, adorei.