Lista de Poemas
Quase parte natural de Mim
Quase parece um não viver,
Por viver dum outro modo,
De quem passa lado a lado
Com a vida sem a ela se submeter
Quase parece uma aurora breve
Aquele acordar que ainda ontem tive
Tão perto estive de ser quem nela vive
Que nenhuma outra manhã me serve
Sem aquela visão que se tem do imenso cedo
Mas que acaba breve (afinal como tudo)
Como se fosse num parque natural de mim...
Sei que não posso viver assim,
Mas não quero viver d'outro modo,
Que não seja intenso, embora estranho,
Pra quem vive do pouco sonho,
E vive uma meia vida, a medo.
Quase parece um não viver,
Assim ...colado no longe, tentando ver
Prá' lém do que se diz por aí, ser o fim...
Mas que move a parte mais natural de mim.
Jorge Santos (10/2011)
http://joel-matos.blogspot.com
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Nas Orações dos Homens em Jerusalém
Uma noite fabricou Salomão um palácio
Resplandecente e em segredo.
Fez-se por todo o império
Silêncio e desde logo cedo
Ninguém teve alívio;
Até nos séculos vindouros,
Não mais nasceria ali, um veio
De água ou desaguaria nos rios,
Nada mais senão sangue e guerra.
Uma noite fabricou Salomão um palácio
E a dor nunca mais foi doutra era,
Menos estrangeiro ficou o receio,
De ser feliz naquela amarga terra.
Uma noite fabricou Salomão um palácio,
E tal foi o peso da bera amargura,
Que ainda hoje têm um vazio,
As orações dos Homens em Jerusalém...
Jorge Santos (05/2012)
http://joel-matos.blogspot.com
👁️ 934
AutoGraphya
Actografia
Creio no universo como um homem vulgar,
Não tenho filosofia que me defina,
Nem lugar em que gostasse de falecer,
Não consinto a vida, assimilo-a como a morfina,
Recolho-a nos campos e onde me deixam colher.
Acervo, incorporo tal-qual cobra, a peçonha,
Hasteio-a na haste mais fina que houver,
Enquanto flor do estio, fonte do sol, neblina,
Embora possua um instinto próprio de mulher
É o corpo e não a frágil alma destas que me fascina,
Autista no que exijo e existo sem o que conheço eu, entender,
Como se tudo fosse uma farsa da negação minha,
Disposta a tudo e ao que deus quiser, se isso doer,
O sol-pôr é um analgésico, uma agonia Celestina,
Com ele me uno a disciplina de desaprender,
E as inocentes crenças do virar das'quina,
Verdades transitórias e de aluguer...
Porque, como disse, não faço uso da inteligência divina,
(limito-me à opinião por estabelecer)
Tenho a demência, como estranha e inexplicativa vizinha,
Profundamente hipócrita na sua naturalidade e ilusão de freelancer.
Estou cansado de ser forçado a querer,
Mas não creio no universo que me dizem existir,
Já que a máquina de mentir fui eu que a criei.
Serei realmente gente?
Joel Matos (02/2011)
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Pro scrito
Dou por mim mendigo de porta em porta; como sem querer,
Abro caminho numa estreita paisagem escrita,
Não que seja uma perfeita, secreta, ou passagem metafísica,
Como as passagens têm eternamente de o ser,
Mas a paisagem do meu ser é restrita e reescrita,
A meu bel-prazer.
Só pode ser consumada se acedida por dentro,
Sempre por uma embocadura estreita.
Assim que passo por ela, sinto o coração doer, doer...
E não sei d'onde essa dor resulta,
Sei que vem do fundo da passagem do meu querer,
Num silêncio frio de natureza morta.
E onde no vento alado se transporta
Todo o desejo de encontrar em mim a paz ?
Vou por aí como uma vela que se apaga,
Ficando apenas a paisagem vaga por traz.
Abro ainda e de novo a janela
E de fora, apenas a noite, me fala
De um invisivel veto,
Que cala tudo aquilo por que existo...
Joel Matos (09/2011)
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Nem em mim Confio
Minha imaginação é um elefante,
Um bumerangue,
Uma faca afiada, de dois gumes,
Que me desapega a vida,
Um elfo e as fadas,
E os muros do palácio,
Que se dobram,
Como curvas e estradas.
Minha imaginação é um truque,
Sem chapéu d'mago,
Um castelo, num mítico bosque,
Uma miragem num tanque,
Um outro Entrudo.
Mas, se a coabitar com o meu "eu" inculto,
Mutilado e sem fantasia,
Sou forçado,
Mesmo quando o não entendo,
Deveria tomá-lo como certo,
E não como embuste,
Ou trapaça, ou farsa.
Minha imaginação
É uma almofada em branco,
De penas, remendada à pouco,
Quem me dera ter sono pesado,
E não acordar deste lado,
Outra vez comigo,
Despido e frio,
Deste lado ruim, em que nem em mim confio.
Joel Matos (02/2011)
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O ruído da rua
Apesar d'as janelas estarem abertas de par em par,
Todo o ruído lá fora se diluiu, sumido no ar...
Uma criança que chorava breve, o cochichar das velhas
Sobre vidas que não as suas, a indefinição das ruas
Num refrão constante, com todos os sons e notas
Que chegavam aos meus ouvidos, como um respirar
De pautas musicais, escritas nos vitrais abertos,
Lembravam-me místicas visões e novas versões de credos,
Que o não eram, não deparava com magos nas vielas
Nem fadas, nem gnomos nesse mundo de mil celas,
Apenas janelas de imitação em magros corredores de cal,
Mas onde todos os sons soavam para mim de forma original,
Eles, como eu, não durámos para sempre,
Não escolhemos o vento que nos soprava
No ouvido o respirar do universo, como se fosse
Algo que se ouvisse (um pensamento, uma frase...)
Sussurro agora do vazio que tenho no fundo do coração,
Os sonhos que outros já sonharam nesta mesma mansão,
Apenas as surdas janelas continuam ainda abertas,
Mas as velhas da rua não passam , nem consigo mais ouvi-las...
Joel Matos (02/2012)
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O intervalo entre o Desrumo e a Senda
Sou o intervalo entre o desrumo e a senda,
Sol numa esplanada, encerrada ao público
No Outono, inútil, injustificada...
Seria um cata-vento doméstico,
Enfadonho como qualquer outro,
Se fosse feito igual, metade em pedra,
Metade em metal duro,
Onde uma perra nota de rabecão sempre sopra.
Confesso confiar na demora
E não me canso de espreitar p'la rija
Porta de escora e ripa
Embora esta tenha mais de mediana altura.
E o que d'inconveniente esta diz ter, não m'importo
Pois a solidão sela o meu corpo inteiro
Do inclemente vazio...do incerto
E da ilusão do real, ser igual a leste, ou a sol-posto...
No espaço vago entre o desrumo e a senda.
Joel Matos (12/2011)
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Que visão tão estranha
Era duma figura esquálida e enxuta
Que lembrava o destroço do cabo negro,
Erguido encima de calhau sujo da costa
P'lo espectro esguio do logro,
Nem sabia se morava dentro dela,
Ou fora da fronteira da maldita nação,
Sabia pela voz dos velhos da cidadela
Que o horizonte era amplo e partilhava de igual chão
Com o roçar da erva e a flor da giesta cor de sol.
Assim... e a seu modo foi construindo,
De dentro para fora, um castro de pedra e cal,
Em região ascética, que nomeou como feudo,
(Bem longe da multidão estrangeira)
Foi-o revestindo de palha, fita, vidro
E do colorido mestiço da humana feira
E Terá ali sonhado incógnito, o futuro
Ele mesmo, sem data ...
Joel Matos (05/2011)
👁️ 814
Nas palavras que me fitam
Nas palavras que me fitam,
Sem pudor,
Infinitamente complicadas,
Abundam meadas,
Da minha ignorância,
Deslembradas trincheiras,
Em conflito
E em guerras alheadas
Das minhas dispersas fronteiras
E nos estilhaços
Das vidas que nem vivi.
A sombra,
Ameaça-me o pensar
E a lembrança,
Das coisas belas,
Que não pensei;
Deixei-me guiar por completo,
Como folha em branco
E ao natural vento,
Nele me espreguiço
E me rendo esquecido.
Nas palavras que me fitavam,
Só sobejo no que sinto,
Morreu o que desconheço
Se tudo o que sei
É o que procuro ser,
Como se tivesse lavado delas o sentido
Num rio de pedras quinadas.
Mais límpido e nítido,
Definido como gelo frio,
Incorporado como fluido nas veias.
Confesso-me confuso
Porque quando estas me fitavam
E encandeavam
E controlavam as minhas ideias,
Só elas me faziam chorar.
(As palavras que me fitam)
Joel Matos 03/2011
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O que é emoção e o que o não é
Nada mais me provoca emoção, cansei-me da vida que levo,
O fardo que carrego é uma âncora, assim como outra tralha,
Que não se vê mas sente-se, como um estorvo…
Esta vida ausente, este navegar à tona, sem escotilha…
E a gente vulgar que germina onde sente que há bolor,
Mas o pior é quando o céu se tinge de igual cor
E não me deixa ter noção do que há nas flores,
Nos lagos, nas montanhas e bosques com espaços interiores…
Ah,… os poentes que dão vontade de beber de um fôlego,
A sensação e o gozo ao penetrar um corpo de mulher,
A chuva branda, caindo em cordel e a lembrança que albergo,
Do fogo crepitado da lareira, amadorrando o crer…
De tudo isso abdiquei eu, da subversão, do voo,
De exércitos de estrelas suspendidas, dos prados parados
Saindo dos rios e dos peixes, vestidos de quem sou…
Nada mais me suscita a vertigem dos passados tempos,
Assim uma espécie de faina mas com os barcos presos
No cais, visitando ilha após ilha, maré após maré,
Até que a última estrela caia do horizonte leitoso
E eu não precise mais apartar do que é emoção, o que não é…
Jorge Santos (01/2013)
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Comentários (4)
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nilza_azzi
2019-08-22
É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.
namastibet
2019-01-09
obrigado a todos que me leram
ricardoc
2018-04-23
Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.
131992
2017-10-26
muito intenso seus poemas, adorei.