Lista de Poemas

Quem irá recordar-se de mim

Quem irá recordar-se de nós,
A quem não bate certo, o coração,
A razão e não sei que mais. De nós,
A quem de condição, foi bera e peão

Da’brega, do marrar em tudo, por um nada,
De Estoirarmos, como fogo-d’artifício breve,
Nós, os campeões em levar porrada,
Os Blasfemos de Jové, da noite, da “rave”,

Sem dormir “por nada”, porque os nossos sonhos,
Ou são de raiva ou viram angústias e manhãs d’azia,
Se nem sequer temos os sonhos que queremos,
Fantasiamos, os d’outros como nossa parede meia.

Quem irá recordar-se de nós,
Como somos, sendo nós a escala e o tempo,
Condensamos seculos e heras em cenas e segundos,
Condenados somos, como gentios do ghetto

Em noites de cristal e palácios do fim,      
Há em tudo o que fazemos, despropósito e algo que define
A ração do incomum, uma revolução inédita dita jasmim,
Um mundo inteiro em lume e a mnemónica que nos une,

A dor que sentimos ao descrever o vazio e o horror
Que nos banha e afoga de desesperança
E nos céus noturnos questionamos o Divino Amor
Do santo-espírito-da sumida-esperança
  

Quem irá recordar-se de nós assim…quem? 
Quem irá recordar-se de mim…quem?

Jorge Santos (01/2013)
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dai-me Esperança

Dai-me os dias que lá vão,
Dai-me as mãos do velho,
Que não sendo minhas são como as de um irmão,
Dai-me a tempera dos vinhos
E a profundeza das vinhas
E dos lavrados rostos dos avós,
Das charnecas e das flores no Maio,
Da ribeira a aguar e do pardal a piar,
Dai-me o que não tenho,
Uma manhã mineral e um sorriso a dois,
Partilhados em linho e mel,
Um vale, um postigo e uma tocha pró caminho,
Um castigo merecido o chinelo e o berro da criança,
Dai-me o áspero bramido do gado,
A terra descalça e a mulheraça roliça,
Dai-me os sinos d’aldeia, um candeeiro e um padreco,  
A alcateia, a caça e o estio,
Dai-me o que não tenho,
A imensa esperança e o orvalho na floresta,
A roupa lavada no rio,
Dai-me um pintassilgo e o silvo do melro,
O ladrar do cão e o ovelhedo,
Dai-me a graça dos dias que já lá vão,
Da velha quinta, do madeiro natalício e do porco,
Da matança…do sorriso da vizinhança,
Dai-me esperança porque da pouca que tenho,
Sobrevive est’alma…
…E da mencionada lembrança


Joel Matos (01/2013)
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Quando eu despir a veste que me liga a este mundo

Quando eu despir a veste que me liga a este mundo,
Não haverá quem me recorde, nem ruirá uma metrópole,
Serei mais um túmulo, serei passado, serei eu, mudo
E as pessoas rindo, como sempre fazem, no funeral

De um ente seu, que se perdeu, perdeu a fé e a veste…
Não mais poderei contar-lhes eu da viagem
Que podem fazer, do prazer em viajar de paquete,
Contar-lhe como era…ou seria, se viessem…

A delegação fica mesmo ali, ao fundo dum jardim,
Depois d’um arco pequeno e num portão ao lado,
Entra-se numa ala desolada, de aspeto ruim,
Um cais e um barco, transversalmente atracado,

(Pois assim é que o imagino), a onda a quebrar-se
E o apito forte antes que o sol acabe
E a luz que acende o convés e o som maquinal que cresce,
Consciente de ter no coração o que na terra não coube…

Quando eu despir a veste que me liga a este mundo,
Pousarei a capa e não me importarei que minha roupa vista,
Qualquer homem comum, durante o entrudo,
Porque o meu desejo é ficar sozinho e nu, despido de ponta a ponta,

Pra que a fantasia, não tenha com que se cobrir
E continue a navegar nua, por aí, à toa,…

Joel Matos (02/2013)
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No cabo dos mitos

No cabo dos mitos,
Onde as brumas moram,
As ilusões voaram em farrapos,
E as mágoas ficaram,

No cabo dos muitos,
Os negros penedos não são d'agora,
São tão antigos, tão antigos,
Como quem lá ficou e chora.

No cabo dos medos,
Onde este país se afoga,
Os magros abalam todos,
O que ficou, chora e roga

Aos medos com que o enganam.
-Não lhes contassem das lendas
E dos mares que heróis trilharam,
Espelham nos rostos misérias inglórias,

No cabo dos magros trabalhos,
Lá,onde os déspotas governam,
Foi imposta
Chacina, aos que habitam.

No cabo das tormentas,
As ilusões fundaram,
Este Portugal de lendas...
Lamento os que o afundam,

No mar de todos os degredos,
Gloriosos os que aqui ainda vivem,
E morrem presos
P'lo cabo dos dedos e p'los cabelos...


Jorge Santos (01/2013)
(VIVA PORTUGAL)
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Pobre senil o que conta o tempo e passa de rompante

Conheci um ancião que desconhecia as horas,
Supunha eu que queria esquecer-se delas,
Fatigava-o o tempo e a orbita dos ponteiros,
Media a data pela luz que caía por atrás dos óculos,
Não precisava dar corda para auxiliar o passar do tempo
E a jornada, não precisava de nada pra se lembrar,
Das rugas ou se a primavera desse ano, chegaria mais cedo.
Encontrei-o num beco qualquer- pareceu-me vê-lo chorar-
Como qualquer outro faria, perguntei, sem razão:
(Não que quisesse saber, mas por mera simpatia-como ia!?-
Afinal conhecia-o, como mal se conhece qualquer ancião,
Baixa-se os olhos e finge-se pressa, mas com cortesia.)
-Perdi o tempo que a vida me deu no começo,
Mas acordo sempre com a alma submissa ao dia
Confiando no mistério que é a vida e no ritmo do universo
Fi-lo conscientemente, com convicção divina e sabedoria,
Aprendi a embalar o vento, nas batidas do coração...
A floração à luz da lua na suavidade da noite, a textura dos céus
Na frescura das manhãs - nem sabes tu como é a canção
Da rola ou o coaxar da rã no charco - nem dizer adeus!
Mas o nosso destino é o mesmo, pouco importa a morte,
Venha cedo ou tarde, a velhice é a ordem natural,
Pobre senil, o que conta o tempo e passa de rompante...
Joel-matos (01/2013)
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O resto do monólogo

Aqui estou, sossegado, escondido,
Longe da vista e dos mistérios
Do existir, de tudo, do mundo.
Aqui estou, sem me fazer notar muito

Nos meus gestos duplicados.
Supondo ter sido tudo dito,
De quando enquanto fecho os olhos
E é num sonho branco que admito

Coabitar sozinho com a eternidade.
Neste inexplicável casulo,
Quase um Confessionário de padre,
Num sossego nulo...

(O resto do monólogo... não irias entende-lo
Nem te servirei eu de consolo ou conselho)
Afinal nada de novo acontece neste mundo velho,
Eu continuo oculto, morando frente ao espelho.

Joel matos (12/2011)
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Daqui até ao fim é um pulo

D'aqui até ao fim do mundo é um pulo...
Se eu disser que, na vida nada fiz, minto
Trago sempre comigo uma peça de pano
Que desdobro neste plano deserto

Quando paro, sendo raro é apenas para virar
De novo o caminho direito, (por vezes chato)
E acrescentar nele outro e outro ressalto
Pra quando salto, não vá este s'rasgar,

Porque d'aqui, até ao fundo é um mero salto,
Prefiro não pensar nisso, tampouco
Num vaso que nem parece caco, nem muito gasto.
Talvez sejam pensamentos de louco,

Mas a vida nunca me soube tanto a infinito
E seria melhor sentida, se não descresse do que sei,
E descrevesse umas linhas rectas nas curvas do meu desalento,
Com a serenidade que o meu espírito acresce,

Sobre a clareza, se acesa nem sei,
Nem esta m'engrandece...

Joel Matos (01/2012)
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Por cada desejo meu

Quero que, cada desejo meu,
Tenha aviso de despejo,
Já que minha alma cheia, encheu
De mil batalhas, todas sem despojo...

Não sei fazer mais nada,
Senão celebrar o que não persigo e não digo,
As conquistas são o sermão e a soda
Sarcástica, por qual rojo e me esfrego,

Detestasse eu a ferrugem,
E seria um prego de ferradura,
Apodrecido num chão de forragem,
Numa estalagem d'outra terra...

Um desejo que ainda perdura
Dela, são das tabuas, o rangedo,
Assim minha poeira pousa, afora
Do contexto mais desconfigurado,

Que o meu ensejo tem,
Hóspede de nenhum lado,
Vago e magro, sem vintém...
Porém ouço-me seduzido...

Viro-me mas não sou eu
Com quem almoço, mas o nojo
Que minha escrita fede a meu.
Quero que, por cada desejo

Despedido outro seja réu,
Talvez o de pompa, porque não?
Se todo o meu instinto se perdeu
No ânus de um cão...

Joel Matos (02/2013)
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Meca e eu

O que importa, na espera,

É a presença em falta, severa,

Pesada como um lastro,

Silenciosa como um claustro

A causa do mal todo...

E espero...que importa,

Curvo ou cansado,

Caneta sem tinta,

Cheque careca,

Invisível céu,

Caaba de Meca

E eu...

O que importa,

São as ilusões,

Dando à costa,

Presas aos anzois

E os sonhos, guardanapos

E nos pratos,

Os restos da tua presença,

À mesa.

O que importa,

É que creio,

No que me encanta,

E no que me sorriu,

Até ficar sem fala,

D'ouvir o olhar sorrir...

(Ah...e o falar dela!)

Joel-Matos (02/2013)

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Tarde é e ser também

Pra’quê o tempo,
Pra’quê a urgência,
E a viagem que o vento
Tem de fazer,
E a que o tempo,
Tem feito, solto

Se o que tarda,
É um comboio,
De carga,
Não se atrasasse,
Não teria fingido,
Viajar, o vento…

Não se lembrasse,
Não teria contado um conto,
O certo, era nem ter
Visto o tempo sonhar,
Um comboio,
De brincar…

E pra quê o tempo,
Se nem tempo tem o vento,
De vir ter comigo, pra dançar…
Todo o resto,
Me segue,
Sem sentimento,

E o sentimento,
Sem sentido,
Vou seguindo,
Sem sentir
Que sou fingido…
Eu também…

Vai fugindo,
O chão que piso,
A luz que não tenho,
Pra quê o tempo,
Pra quê…
Se tarde é… e ser também.

Jorge Santos (01/2013)
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Comentários (4)

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nilza_azzi
2019-08-22

É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.

namastibet
2019-01-09

obrigado a todos que me leram

ricardoc
2018-04-23

Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.

131992
2017-10-26

muito intenso seus poemas, adorei.